Com maior segurança por saber que não seria detida, Raquel concede e abre a porta aos polícias, que fazem uma cordial troca de cumprimentos, antes de a mulher anunciar que está a gravar tudo. “Pode gravar o que quiser”, responde um dos agentes. De seguida, o mesmo polícia pega no seu telemóvel e mostra o comentário, tentando confirmar a sua autoria.

“Esta conta é sua?”. Raquel responde: “Eu recuso-me a responder a qualquer questão sem a presença do meu advogado”. O comentário foi partilhado pela norte-americana numa publicação de Steve Meiner, mayor de Miami Beach, que dizia que a sua cidade era “segura” para “todas as pessoas”. O líder político comparou a cidade com “locais como Nova Iorque”.

“O homem que pede repetidamente pela morte de todos os palestinianos, tentou encerrar um teatro por exibir um filme que magoava os seus sentimentos e recusa defender a comunidade LGBTQ (…) quer que saibam que são bem-vindos”, comentou a lusodescendente na publicação.

Depois de ter dito que não “sabia como responder” à questão dos polícias sem a presença do advogado, Raquel lembrou que era uma “veterana” do exército e que os EUA defendem a “liberdade de expressão”. “Isto é a América, certo?”. Sem a confirmação oficial de que era ela a mulher do comentário, os polícias leram o texto e disseram que estavam à procura da autora, porque a mensagem poderia “incitar alguém a fazer algo radical”.

“Estamos só a tentar prevenir que alguém fique agitado ou concorde com a afirmação — não estamos a dizer se é verdadeiro ou falso. É só sobre isso que queremos falar e queríamos ter a sua versão da história, se o comentário é da sua autoria, eu equacionaria abster-me de comentários destes, porque pode incitar alguém”, explicou o polícia.

O vídeo acaba, e os polícias vão embora, sem que Raquel confirme a autoria da publicação. Depois, contou a própria ao Washington Post, fechou rapidamente a porta e enviou o vídeo para três amigos com conhecimento de Direito, sem compreender o que levou os dois agentes a questionar uma cidadã, envolvida na política local, sobre um comentário nas redes sociais.

O mayor acabou por reagir ao vídeo e defendeu que era um “caso de polícia” e que ele acreditava no direito de Israel em proteger o seu território. “Outros podem ter uma visão diferente [do conflito israelo-palestiniano] e estão no seu direito. Nesta situação, a nossa polícia entendeu que a linguagem inflamada e falsa e sem base factual justificava a ação para perceber o nível de perigo e proteger todos os envolvidos”, escreveu Meiner.

Raquel vive em Miami Beach desde 2004 e já concorreu três vezes, pelos Democratas, às eleições locais. Apesar de ter assumido que votou em Meiner em 2023, tem-se tornado uma grande opositora da atuação do mayor, com várias publicações críticas nas redes sociais. “Tinha polícias à porta por algo que eu disse. Senti-me muito estranha, uma alien”, disse a mulher nascida em Angola e filha de pais portugueses. Segundo confirmou a própria ao Observador, saiu de Angola para Portugal ainda na infância e chegou aos EUA com 11 anos. “Não sou de desistir. Não lido bem com bullies”, rematou a progressista que admite “ser conservadora no que toca à Constituição”.