Quando o mar fecha em Itacoatiara, a gíria local dispensa explicações: é dia de “terror e pânico”. Inspirado nesse bordão antigo criado por um comentarista dos campeonatos de bodyboard na Região Oceânica, o documentário “Itacoatiara — Terror & pânico”, disponível no YouTube, retrata a natureza dual da praia que em um dia é paraíso para banhistas e no outro impõe respeito até aos surfistas mais experientes. Dirigido e produzido pelos irmãos Esthevão e João Paulo Cabral, o filme nasce com o objetivo de levar conhecimento e conscientização sobre os riscos de Itacoatiara também para quem está fora do universo dos esportes de ondas.

Moradores da Região Oceânica, os irmãos cresceram frequentando a praia que é famosa internacionalmente pelos campeonatos de bodyboard. Segundo o longa-metragem, ela é a mais perigosa do Brasil, temida e admirada por surfistas do mundo todo. Com cerca de 20 anos de imagens de arquivo, o documentário é dividido em quatro capítulos que exploram a dualidade entre paraíso e pesadelo, a essência do bodyboard em Itacoatiara e o papel vital dos guarda-vidas.

Além de bodyboarders, o filme convoca os salva-vidas, bombeiros que atuam diariamente na praia, para dar depoimentos. A proposta é ampliar o olhar sobre Itacoatiara, mostrando que, em meio às ondas gigantes, existe também uma rede de cuidado, risco e solidariedade que vai além da prática esportiva.

Formado em Cinema, Esthevão, de 28 anos, começou a se envolver com audiovisual em 2013. Estudou no Cinema Nosso, na Academia Internacional de Cinema e na Vancouver Film School, no Canadá. Ao longo da trajetória, dirigiu dez curtas-metragens, lançou o longa “Caminhos macabros” em 2017 e em 2025 estreou “Itacoatiara — Terror & pânico”. Já João Paulo, de 34 anos, bodyboarder desde jovem em Itacoatiara, conciliou o esporte com o trabalho como cinegrafista profissional. Em 2023, passou a escrever roteiros de curtas, dirigiu seu primeiro filme em 2024 e no ano seguinte produziu o documentário sobre a praia onde sempre esteve inserido.

A ideia do filme começou a tomar forma em 2019, quando Esthevão retornou do Canadá.

— Eu estava tentando viabilizar um curta, mas não consegui orçamento. Nesse período, conversando com um bombeiro, lembrei do bordão “Itacoatiara, terror e pânico” e do trabalho do Itacoatiara Salva Mar — conta.

A partir daí, os irmãos decidiram unir o conhecimento técnico ao vínculo afetivo com a praia.

— Nós dois somos atletas de bodyboard. Chamamos as pessoas que já conhecíamos, montamos um estúdio em casa e decidimos aproveitar essa onda — explica.

A escolha dos personagens partiu dessa vivência direta. Um dos principais nomes do documentário é Dudu Pedra, referência histórica do bodyboard em Itacoatiara.

— Aprendi a surfar em 2008 com o Dudu. Praticamente todo mundo que tem menos de 35 anos e surfa passou pela escolinha dele. Ter essa proximidade fez todo sentido para que ele fosse um personagem central — diz Esthevão.— Além dos esportistas, existem os verdadeiros heróis. São os salva-vidas, pessoas que estão ali arriscando a vida todos os dias.

Produzido de forma independente, o filme enfrentou limitações financeiras desde o início. Sem patrocínio, os irmãos bateram à porta de comércios locais ligados ao bodyboard, mas não obtiveram retorno. A solução veio de forma caseira: João Paulo entrou com o equipamento de filmagem que já tinha, avaliado em cerca de R$ 20 mil, além de mil reais para montar um estúdio em casa. Com outras despesas adicionais, o custo do projeto ficou em aproximadamente R$ 6.600.

Produção reúne relatos de bodyboarders e salva-vidas e aposta na conscientização sobre os dias de “terror e pânico” — Foto: Divulgação/João Paulo Cabral Produção reúne relatos de bodyboarders e salva-vidas e aposta na conscientização sobre os dias de “terror e pânico” — Foto: Divulgação/João Paulo Cabral

A disponibilização do documentário acontece pelo YouTube, plataforma escolhida para ampliar o alcance do filme. Para os diretores, o impacto vai além do audiovisual.

— Contribui para a cultura do bodyboard, que é diferente da cultura do surfe em pé, e também para a cultura de salvar vidas — afirma João Paulo. — Quem está no mar vê os bombeiros fazendo resgates o tempo todo. Os bodyboarders também já salvaram muitas vidas ali.

Palco de uma das etapas mais importantes do circuito mundial de bodyboard, Itacoatiara recebe atletas de diversos países e carrega uma reputação construída pelo tamanho e pela força das ondas.

— Todo mundo olha para Itacoatiara como um dos mares mais perigosos do mundo. Para entrar ali, é preciso cuidado. Não adianta só os atletas saberem disso — ressalta João Paulo.

É justamente essa mensagem que o documentário busca reforçar: Itacoatiara é linda, mas exige respeito, especialmente nos dias em que “terror e pânico” deixa de ser apenas um bordão e se transforma em realidade.