Entre Sarilhos Grandes e o Montijo, existe uma casa onde gerações se encontram à mesa. Mas também na cozinha. O Girassol, com mais de 50 anos, continua a reinventar a cozinha portuguesa, sem perder a alma de restaurante de família.

Tudo começou em 1973, quando Arminda e Alfredo Barata abriram uma modesta casa de beira de estrada. Enguias frescas e vitela estufada eram as estrelas do menu, mas rapidamente o Girassol deixou de ser apenas uma paragem e tornou-se destino para muitos que acolheram o restaurante nas suas preferências.

Em Sarilhos Grandes, só há bons entendimentos à mesa graças à conta de um Girassol

Em Sarilhos Grandes, só há bons entendimentos à mesa graças à conta de um Girassol
Créditos: Divulgação

Hoje, atravessar a Ponte Vasco da Gama – para quem vem de Lisboa -, almoçar ou jantar ali é uma experiência que mistura nostalgia e prazer gastronómico, onde cada prato guarda memórias de famílias que ali celebraram aniversários, encontros, histórias de vida e até casamentos. Não é difícil encontrar caras conhecidas, inclusive jogadores do Sporting, dada a proximidade ao centro de estágio.

Mas em mais de 50 anos, é impossível não falar em reinvenção. Depois da morte de Alfredo, em 2006, a casa continuou com Dona Arminda no comando até fazer um ultimato à filha, em 2019. Ou ela tomava conta, ou o restaurante fechava. Sandra Barata, que trocou a psicoterapia pela cozinha, foi guiada pelo desejo de preservar o legado da família ao mesmo tempo que acrescentou uma assinatura pessoal. Sob o seu comando, o Girassol mantém o conforto de um espaço familiar, mas com olhos atentos à sazonalidade, às técnicas contemporâneas e à descoberta de novas receitas que continuam a surpreender os clientes. Sem perder a identidade da casa.

Sandra Barata com a mãe, Dona Arminda

Sandra Barata com a mãe, Dona Arminda
Créditos: Divulgação

“Cresci entre tachos e conversas com os clientes”, conta Sandra, ao SAPO, enquanto supervisiona a cozinha e dá atenção à sala. É uma espécie de figura omnipresente que aparece e desaparece com muita rapidez, mas que não deixa de dar atenção aos pormenores.

Essa atenção reflete-se também na nova carta, pensada como um retrato da estação, dos aromas mais intensos às ligações entre mar e campo. Para Sandra, é o produto que dita o caminho. “É preciso respeitá-lo e deixá-lo expressar-se no prato, honrando o seu sabor autêntico, mas também quem o produz, sobretudo os pequenos produtores”, sublinha.

As novas propostas para os meses mais frios dividem-se entre a açorda de gambas com carabineiros, a tortilha de boletos com trufa negra e a tortilha de bacalhau com mousse de pimentos, que apresenta uma leitura contemporânea de um dos grandes símbolos da cozinha portuguesa.

“A Sandra é muito autodidata”, assegura-nos Débora Godinho, responsável de comunicação do restaurante.

Um restaurante com comida de casa

Para os habitués do Girassol, os pratos assinatura são também receitas de família, uma extensão da comida de casa, mas em versão restaurante. Exemplo disso é empada de perdiz, que vem da avó, ou o cabrito estonado, servido aos domingos e segundas-feiras, que reflete a herança de Oleiros de Dona Arminda.

Mas há mais criações icónicas. O rabo de boi, por exemplo, é tão central no menu que, numa experiência inédita, a propósito dos 45 anos do restaurante, em 2018, foi transformado em um fois gras com rabo de boi. Aliás, o rabo de boi é um produto tão essencial, que o Girassol chega a gastar mais de 500 kg por mês. Os croquetes, de camarão com tinta de choco, de pato com presunto ou de rabo de boi com ovo de codorniz mostram a liberdade e a técnica da cozinha.

Sandra Barata é crítica da falta de apreciação da comida tradicional portuguesa, e por essa razão está a fazer um trabalho de recuperação de receitas tradicionais como é o caso da sopa de lebre cedida pelo Palácio de Rio Frio, uma casa senhorial da região.

Açorda de Gambas com Carabineiros, um dos novos pratos da carta de inverno

Açorda de Gambas com Carabineiros, um dos novos pratos da carta de inverno
Créditos: Divulgação

Se há pratos “fáceis”, há outros que sofreram um twist por outras razões. “Eu não gosto muito de tutano, então desenvolvi uma receita que agradasse aqueles que não gostam do prato”, explica Sandra na apresentação do menu, de onde é possível escolher um tutano revolto com cogumelos selvagens.

Por seu turno, Dona Arminda até pode ter-se reformado da gestão do restaurante, mas recusou-se a entregar a cozinha. Como forma de se manter ativa, é ela que trata dos pedidos e garante a ligação à tradição. Sandra assume a gestão e a inovação do menu, com bastante rigor, do arroz italiano, mais caro, mas insubstituível na sua opinião, aos gelados e pão de massa mãe feitos internamente.

O vinho da casa nasce de uma parceria com um produtor local, Horácio Simões, de Palmela, e é parte da identidade do restaurante. “Se queremos ter uma identidade enquanto Girassol, fazia sentido trazer isso para o vinho”, explica André Figuinha, consultor do restaurante nesta área, há um ano. O branco, de 2023, é feito com Arinto e Fernão Pires, enquanto o tinto combina Castelão e Aragonez, servindo-se harmoniosamente com os sabores robustos da cozinha. A primeira colheita teve 600 garrafas e o sucesso foi tal que esgotou em cinco meses.

Mais do que pratos e vinhos, o Girassol é um espaço de histórias e encontros. Com três gerações de clientes habituais, uma sala dedicada ao toureiro José Manuel Lupi e 102 lugares distribuídos entre sala e esplanada — que poderá crescer em breve — cada refeição é um exercício de partilha, mas também de compromisso. “Eu digo aos meus empregados: nós temos de nos divertir a fazer os outros felizes. É preciso gostar de pessoas”, resume Sandra.

Uma refeição não termina sem sobremesa. Nesse campo, a carta mantém o mesmo equilíbrio entre memória e criatividade. Há propostas mais clássicas, como o pudim de Abade de Priscos com creme de arroz-doce, o Fidalgo, o folhado de doce de ovos ou a tarte de maçã com gelado. Mas há também espaço para propostas menos previsíveis, como o Paris-Brest, que revela a vontade de ir além do receituário tradicional sem perder a elegância.

A reserva é aconselhada, sobretudo aos fins de semana.

Girassol

Morada: Avebida 5 de Outubro S/N Broega-Sarilhos Grandes, 2870-516 Montijo

Horário: Segunda e quarta-feira, das 12h30 às 16h00 e das 19h30 às 22h00| sábado, das 12h30 às16h00 e das 19h30 às 22h30 | domingo, das 12h30 às 16h00 (encerrado à terça-feira)

Contactos: 912319615 | reservas@girassolrestaurante.pt

O SAPO esteve no Girassol a convite.