Outro ponto central para entender a relação política de Vlaardingerbroek com a política britânica é a sua ligação estreita com Tommy Robinson, uma das figuras mais polémicas e conhecidas da extrema-direita no Reino Unido.

Robinson, cujo nome real é Stephen Yaxley-Lennon, é o fundador da English Defence League (EDL) e tem sido, ao longo de décadas, a face principal dos movimentos anti-Islão e anti-imigração em solo britânico. Com um historial de detenções e condenações por diversos crimes (incluindo desacato ao tribunal), Robinson é visto pelas autoridades britânicas como um agitador capaz de mobilizar protestos violentos. Eva Vlaardingerbroek tem sido uma das suas aliadas internacionais mais visíveis, tendo discursado em comícios organizados por ele. Tal proximidade terá colocado a ativista sob o radar direto dos serviços de segurança do Reino Unido.

Reações e implicações

A decisão de Londres está a causar uma onda de choque diplomática. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, já reagiu publicamente, criticando a “censura” britânica e oferecendo apoio à ativista. E internamente, figuras como a ex-primeira-ministra Liz Truss acusaram o atual governo trabalhista de utilizar poderes administrativos para silenciar críticas políticas legítimas.

Pela lei britânica, o governo tem o poder discricionário de recusar a entrada a qualquer estrangeiro se considerar que a sua conduta ou ideologia pode incitar à desordem pública.

O “delito de opinião” tem sido altamente vigiado no Reino Unido sob o governo de Keir Starmer, que tem feito uma aplicação rigorosa das leis de comunicação, especialmente após os motins de verão de 2024.

Relatórios recentes, baseados em pedidos de liberdade de informação (FOI) feitos pelo jornal The Times e analisados pela organização Big Brother Watch, indicam que as autoridades britânicas realizam mais de 12.000 detenções anuais relacionadas com publicações “ofensivas”, “indecentes” ou “ameaçadoras” ao abrigo do Communications Act 2003 e da nova Online Safety Act. Só no período imediato aos distúrbios de 2024, mais de 1.280 pessoas foram detidas em poucas semanas, com centenas de acusações diretas por incitamento ao ódio ou desordem através de plataformas digitais, um ritmo de condenações sem precedentes na história recente do país.

Em termos comparativos, o Reino Unido apresenta números de detenções por discurso online que superam largamente os de outras democracias ocidentais, como os Estados Unidos, onde a Primeira Emenda protege quase todo o discurso não violento.

No entanto, a comparação com regimes totalitários como a Rússia ou a China é complexa e gera debate: embora dados de 2023 e 2024 sugiram que o Reino Unido detém numericamente mais pessoas por “comentários ofensivos” do que a Rússia (onde os números oficiais de detenções por internet são muitas vezes mascarados por leis de “extremismo”), organizações como a Freedom House sublinham que a natureza da repressão é distinta. Enquanto na China ou na Rússia o Estado bloqueia sites e utiliza vigilância total para silenciar a dissidência política, o declínio na pontuação de liberdade do Reino Unido no relatório Freedom on the Net 2025 deve-se ao uso de leis criminais para policiar a “ofensa” e o “ódio”, o que grupos de liberdades civis descrevem como um “efeito inibidor” (chilling effect) que coloca o país numa “trajetória preocupante” em relação aos seus pares europeus.