Toca a campainha. Os alunos entram na aula de Matemática. Abrem o livro de exercícios e deparam-se com um problema.

Amar Dedic tenta avançar pela ala direita. À sua volta, estão cinco adversários do FC Porto. Qual é a probabilidade do jogador do Benfica conseguir progredir?

Nem os mais batoteiros precisam de ir às soluções para responderem que o bósnio não tinha qualquer chance de avançar. O lance até gerou controvérsia e o caldo testou os limites da panela. Reteve-se a musculada captura que o FC Porto fez ao lateral.

Chegou a parecer que a Terra é azul vista do espaço, porque Francesco Farioli tem jogadores espalhados por toda a parte. Foi na vigilância que cada centímetro do campo que os dragões se superiorizaram num clássico em que deram uma goleada de entreajuda para garantirem as meias-finais da Taça de Portugal.

Porque nada flui com naturalidade, nenhum passe é feito sem pensar duas vezes, o Benfica pareceu estar no blind date. Ainda assim, sendo mais letal, até podia ter disfarçado o quão pouco desenvolvida está a sua paixão. É que o caminho na Taça de Portugal é todo ele feito junto à berma do abismo, sujeito ao respeito que o vento tenha pelo perigo de queda. Porém, para os encarnados, fora da luta por qualquer título, era a sobrevivência da época que estava em causa. Pela pouca luta que deram ao tornado, não parecia.

O velcro do medidor de tensão rebentaria se fosse posto a trabalhar no braço dos envolvidos. Pouco depois de ter tocado na bola pela primeira vez, Prestianni tentou vender ao árbitro que Kiwior o tinha agredido e refastelou-se diante do banco do FC Porto. De seguida, Dedic disponibilizou uma gravata a um oponente e não demoraria a que Martim Fernandes começasse a jorrar sangue do nariz após uma involuntária cabeçada de Sidny Cabral.

Martim Fernandes e Sidny Cabral travaram uma luta intensa

Jose Manuel Alvarez Rey

Os ovos mexidos a fritar no relvado do Dragão beneficiaram o FC Porto. Se o frenesim é muito e a dupla Garbri Veiga-Victor Froholdt tem espaço para conduzir, atenção. O andamento dos dragões era tanto que os ataques eram desenvolvidos em diferentes vagas. Achava o Benfica que tinha conseguido um alívio e lá vinha uma nova onda de jogadores portistas, intratáveis na luta por segundas bolas.

Francesco Farioli desenvolveu um modelo altamente avançado de martelo pneumático. O Benfica não respirou bem nesta nuvem de proatividade a causar uma sensação de impotência em quem era incapaz de acompanhar o ritmo. O FC Porto massacrou sem comiseração. Como a defesa encarnada nada resolvia à primeira, a resiliência azul e branca multiplicava um canto em vários e, assim, após múltiplas tentativas, Bednarek banalizou a presença de Leandro Barreiro, frágil marcador do polaco no lance do 1-0, e desviou de cabeça.

O conforto sentido pelos jogadores encarnados para finalizar foi, até aqui, nulo. A pressão obrigou Prestianni e Dedic a errarem o alvo. O acompanhamento defensivo que Pepê fez a Sidny Cabral quando este ameaçava correr meio-campo sem que o travassem, representou o compromisso geral na defesa da baliza de Diogo Costa.

Gabri Veiga maravilhava-se com a vontade do Benfica discutir o jogo. Quando os seus carregamentos se infiltravam no bloco contrário, o FC Porto sobrepunha-se. Tal circunstância, motivou uma dupla oportunidade que o médio espanhol não concretizou. Na recarga, Trubin impôs-se também perante Froholdt.

Thiago Silva estreou-se pelo FC Porto

Eurasia Sport Images

José Mourinho apresentou um onze andrajoso. Na ausência do castigado Otamendi, o acompanhante de Tomás Araújo foi António Silva, cuja condição física era uma preocupação. Aursnes, a chave mestra, derivou da direita para o meio e, à falta de melhores opções, Sidny Cabral estreou-se a titular. Em cima do intervalo, Richard Ríos sairia lesionado.

O ajuste passou por encurtar a rédea a Leandro Barreiro e fazer entrar Sudakov. Mesmo mais recuado, o luxemburguês não resistiu à tentação de acompanhar o sucessivo desembaraçar de adversários protagonizado por Prestianni. Nas sobras, Diogo Costa teve que intervir com o pé.

Já Martim Fernandes tinha trocado mil vezes de camisola, tal a quantidade de sangue que continuava a perder para o tecido, quando o FC Porto moderou a temperatura do clássico sem perder a tenacidade nos duelos. Registaram-se apenas dois lapsos: a ressaca de um canto, momento em que Tomás Araújo rematou ao lado, e a liberdade dada a Pavlidis, que falhou um desvio na pequena área em cima do apito final.

Pepê e Pablo Rosario recuavam tanto quanto fosse necessário para compor uma linha defensiva que perdeu Bednarek por lesão, mas que teve sempre a elegância do estreante Thiago Silva. Na primeira vez que o brasileiro passou pelo FC Porto, em 2005, ainda faltavam dois anos para Rodrigo Mora nascer. Aliás, mesmo que o jovem azul e branco tivesse vivido duas vezes, continuava a não ter idade para o ultrapassar os 41 anos do central que arredou Kiwior para o lado esquerdo.

Quando entrou, Rodrigo Mora veio com uma atitude semelhante à de um trinco sul-americano e isso diz tudo sobre o que o FC Porto fez para chegar às meias-finais e o Benfica não.