O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou, esta quinta-feira, que as relações com os países europeus “deixam muito a desejar”. O líder russo mencionou países como “Eslovénia, França, Portugal, República Checa, Noruega, Suécia, Áustria, Suíça e Itália” para explicar que “há raízes históricas profundas” nas relações com Moscovo e que agora essas relações foram deitadas por terra.

Dirigindo-se a dez embaixadores europeus (incluindo Portugal) que lhe apresentaram as suas credenciais numa cerimónia no Kremlin, o líder russo sublinhou “que o diálogo e os contactos foram reduzidos ao mínimo, tanto na esfera oficial, empresarial como pública, mas não por culpa nossa”.

Vladimir Putin disse que a interação com a Europa, que já foi o maior parceiro comercial da Rússia, ficou também congelada no que diz respeito ao diálogo sobre questões internacionais e regionais. “Quero acreditar que, com o tempo, a situação irá mudar e os nossos países regressarão a uma comunicação normal e construtiva, baseada no respeito pelos interesses nacionais e na consideração das legítimas preocupações de segurança”, afirmou.

Para Vladimir Putin, as relações da Rússia com cada um dos países cujos embaixadores estiveram presentes na cerimónia desta quinta-feira, incluindo Portugal, têm “raízes históricas profundas e estão repletas de exemplos de parcerias mutuamente benéficas e enriquecedora cooperação cultural”.

“O nosso país aspira a uma paz duradoura e sólida que garanta de forma fiável a segurança de cada pessoa. No entanto, nem todos, incluindo Kiev e as capitais que a apoiam, estão preparados”, criticou, aludindo aos países europeus aliados da Ucrânia.

Até que outros países compreendam esta necessidade, Vladimir Putin insistiu que a Rússia continuará a “perseguir os seus objetivos”, reafirmando que a crise na Ucrânia é consequência “direta de anos a ignorar os legítimos interesses da Rússia e de uma estratégia deliberada para criar uma ameaça à nossa segurança”.

“A segurança deve ser verdadeiramente abrangente e, portanto, igualitária. E não pode ser garantida para alguns em detrimento de outros. Este princípio está consagrado em documentos jurídicos fundamentais. Desconsiderar este princípio básico e vital nunca levou a nada de bom, e nunca levará”, elaborou Vladimir Putin.

O Presidente russo também lamentou o desrespeito pela soberania sofrido por dezenas de países em todo o mundo, mas evitou criticar a política do homólogo norte-americano, Donald Trump, em relação à Venezuela, Gronelândia e Irão.

“Dezenas de países de todo o mundo sofrem com o desrespeito pelos seus direitos soberanos, com o caos e a desordem, pois não têm força nem recursos para se defenderem”, declarou Putin durante uma cerimónia de acreditação de embaixadores em Moscovo no Kremlin, transmitida em direto pela televisão.

O líder russo não mencionou explicitamente a operação norte-americana, no início do ano em Caracas, para afastar o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, nem as ameaças de intervenção militar na Gronelândia e no Irão.

Manifestou, no entanto, solidariedade com Cuba em defesa da sua soberania e independência, quando a diplomacia de Washington tem também visado o Governo de Havana.

“Sempre prestámos e continuamos a prestar assistência e apoio aos nossos amigos cubanos, e solidarizamo-nos com a sua determinação em defender a sua soberania e independência com todas as suas forças”, disse Putin.

Anteriormente, a porta-voz do Ministério dos Negócios declarou que a Rússia está a acompanhar de perto os acontecimentos na América Latina e nas Caraíbas e expressou preocupação com o aumento das tensões e da retórica deliciosa em relação a Cuba.

Ao mesmo tempo, Maria Zakharova observou que qualquer decisão do sistema judicial norte-americano em relação a Nicolás Maduro, capturado em 3 de janeiro pelas forças norte-americanas e levado para Nova Iorque, será ilegal.

“De acordo com as normas do Direito internacional reconhecidas por todos e baseadas no princípio da igualdade soberana dos Estados, Nicolás Maduro, enquanto chefe de Estado, goza de imunidade absoluta perante a jurisdição dos Estados Unidos e de qualquer outro Estado”, afirmou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, em conferência de imprensa.

A porta-voz da diplomacia de Moscovo comentou ainda que as declarações ocidentais sobre os alegados planos de Moscovo para a Gronelândia são “um mito”, após o anúncio do envio de tropas adicionais da NATO para a região e sugestões de Washington nesse sentido.

“O mito de uma alegada ameaça russa, ardentemente promovido durante muitos anos pela Dinamarca e outros membros da União Europeia e da NATO”, é “particularmente ambíguo” à luz das recentes declarações dos Estados Unidos sobre a Gronelândia, declarou Maria Zakharova, aludindo às ambições da Casa Branca sobre o território.