A epilepsia é uma condição de risco vivenciada por muitas famílias de crianças com a Síndrome Congênita do Zika (SCZ). Além da crise necessitar de cuidados imediatos, há ainda a preocupação da criança ser internada, quadro que precisa de atenção e assistência médica intensiva. Em novo estudo publicado na Jama Pediatrics, pesquisadores da Fiocruz avaliaram 10 milhões de crianças expostas ao vírus Zika para saber se há um risco aumentado delas serem hospitalizadas por crises epiléticas. Os resultados sugerem que crianças com a SCZ apresentam risco de hospitalização por epilepsia até 34 vezes maior do que crianças sem a condição. 

Até o estudo atual, poucas são as pesquisas voltadas para a epilepsia como questão de saúde central em crianças com SCZ, também em crianças expostas ao vírus Zika mas que não desenvolveram SCZ, e, para completar o comparativo, crianças que não foram expostas ao vírus Zika ao longo de suas vidas. Para o líder do estudo e pesquisador associado ao Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para a Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), João Guilherme Tedde, o diferencial agora é justamente investigar um número maior de crianças, com diferenças geográficas e quadros que variam de episódios mais ais leves a graves de epilepsia no Brasil.

“Para verificar a hospitalização por epilepsia levando em conta as crianças expostas ao Zika, consideramos as diferenças raciais, sociais e demográficas, acesso aos serviços de saúde, gravidade clínica dos casos, e se o atendimento foi pelo hospital privado ou pelo Sistema Único de Saúde [SUS]”, diz ele. O pesquisador reconhece os fatores sociais como importantes para chegar às evidências.

Ao utilizar a Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, dados de 10 milhões de crianças brasileiras nascidas vivas, com 22 semanas ou mais de gestação, foram analisados pelos pesquisadores no período de 2015 a 2018. A pesquisa considerou o tempo da criança desde o nascimento até a primeira internação por conta da epilepsia. Outros indicadores como raça e etnia, nível de escolaridade materna, idade materna, ano de nascimento da criança e adequação do pré-natal, além do óbito por qualquer causa foram avaliados. 

Número alto revela sequelas da SCZ

Os achados da pesquisa indicam que crianças com SCZ apresentam um risco alto de hospitalização por epilepsia nos primeiros quatro anos de idade, o que é 34 vezes maior do do que em crianças sem SCZ. Além disso, foi encontrado que crianças com SCZ sofrem mais risco de óbito quando comparado com crianças sem SCZ e não expostos.

“Crianças com SCZ apresentaram extremo risco de serem internadas por epilepsia se comparado às crianças que não têm a doença. Esse aumento vai além de condições como a microcefalia, podendo afetar crianças com macrocefalia ou tamanho normal da cabeça”, comenta Tedde. Ele ainda explica que as chances de epilepsia se estendem para além da sequela da doença e se devem à enfermidade em si.
Em outro achado da pesquisa, as crianças que tiveram contato com o vírus Zika ainda na barriga da mãe, mas que não desenvolveram a SCZ, não apresentaram um aumento do risco de hospitalização por epilepsia, quando comparadas às crianças não expostas.

SCZ e crise epilética: quais medidas tomar?

Os resultados confirmam que a SCZ é uma doença com potencial para acarretar uma carga de sequelas graves, como internações por epilepsia, conforme foi revelado em outros estudos do Cidacs/Fiocruz Bahia. A alta mortalidade é um dos pontos que também precisam de atenção. 

Para Tedde, as recomendações práticas do estudo giram em torno dos eixos: correto fluxo de atendimento, melhora no acompanhamento neurológico, garantia de medicação para epilepsia, e apoio às famílias. “É preciso de respostas do SUS nos primeiros anos de vida da criança e para a sequelas de longo prazo que precisam ser tratadas”, destaca. 

Na prática, o artigo prevê que as políticas públicas podem focar na implementação de linhas de cuidado e, assim, evitar sequelas mais graves decorrentes de partos sem a devida assistência médica. Uma vez que a criança nasce, um ponto que requer cuidados é o desenvolvimento neurológico. Nesses casos, há que se ter profissionais de reabilitação para fazer o monitoramento nas crianças com crises graves e recorrentes, o que pode ajudar no controle das crises. Por último, o apoio e amparo psicológico às famílias são colocados como centrais para lidar com as crises.