A aterragem, a literal aterragem, iniciou um processo de sedução. “Quem é o treinador que diz não ao Benfica?”, questionou José Mourinho perante os jornalistas que aguardavam a chegada do técnico a Portugal.

As águias vinham de perder com o Qarabag na Liga dos Campeões, Bruno Lage acabava de ser despedido e, logo naquela madrugada de setembro, tornou-se evidente que, duas décadas e meia depois, o setubalense mais famoso do desporto regressaria à Luz. Os primeiros dias, seguindo o guião mourinhista, foram de encanto, entusiasmo, ambição.

Logo na apresentação, o bicampeão europeu mencionou a “responsabilidade de fazer coisas boas”, o que “a nível nacional” significava “ganhar títulos”. Pois bem, quatro meses volvidos, e a meio da temporada, ver José a levantar o 27.º título da carreira em 2025/26 é uma perspetiva que vai roçando o irrealista.

Concluída a primeira volta da I Liga, o Benfica é terceiro, a 10 pontos do FC Porto. Tal desvantagem nunca, nas 91 edições anteriores da competição, foi revertida.

Na Taça da Liga houve eliminação perante o SC Braga, nas meias-finais, e na Taça de Portugal deu-se a queda face o FC Porto. Na Liga dos Campeões há duas finais a caminho, com Juventus e Real Madrid, desafios determinantes para saber se os lisboetas seguem para o play-off. Mesmo que sigam em prova na competição europeia, imaginar que será aí onde o Benfica erguerá um título é inverosímil.

Mourinho na conferência de imprensa no Dragão

Diogo Cardoso

No momento inicial, no otimismo da partida, Mou disse pensar “verdadeiramente” que o Benfica tinha “todas as condições para ganhar o campeonato”. “Tem dois pontos perdidos, seguramente iremos perder mais, espero que não muitos, mas partimos da estaca zero. O Benfica tem potencial no balneário para ser campeão, não me escondo.”

Na ressaca da derrota no Dragão, o discurso já sofreu nuances. O técnico claramente não gostou de ser questionado sobre as perspetivas pouco animadoras da época encarnada e ensaiou uma postura de jogo a jogo, dizendo estar “sempre para ganhar” e que, neste momento, o objetivo era “ganhar sábado”, na visita ao Rio Ave.

“Quando não há competições para ganhar, há jogos para ganhar e sábado é mais um”, comentou o setubalense, ao assegurar que, no Benfica, “há sempre objetivos para atingir”. “O de agora é ganhar o próximo”, atirou num tom ríspido, seco, sem o encanto de setembro.

Se, há quatro meses, Mourinho falava da “estaca zero”, a ideia também já se alterou. Confrontando com o facto de ter sido contratado para ganhar títulos, o treinador retorquiu que chegou “numa situação difícil”, que “começou mal”. Quando substituiu Bruno Lage, a equipa estava, decorridas quatro rondas, dois pontos atrás do FC Porto. Agora, depois de 13 jornadas com José, conta 10 pontos de desvantagem.

Em relação às taças internas, o Benfica não iniciara a participação em nenhuma delas com Lage, que até erguera a Supertaça em agosto. Se em 2024/25 as águias ganharam a Taça da Liga e foram à final da Taça de Portugal, agora não chegaram, sequer, ao embate decisivo de qualquer uma das provas a eliminar.

Há um ano, Lage somou 10 vitórias, um empate e duas derrotas nas 13 primeiras jornadas em que se sentou no banco, contabilizando 31 pontos. Agora, no mesmo período competitivo, Mourinho fez oito vitórias e cinco igualdades, com 29 pontos.

Altos e baixos nas exibições e no discurso

No verão passado, o Benfica investiu €105,5 milhões em contratações. Fora das cinco principais ligas europeias (Espanha, Inglaterra, França, Itália e Alemanha), apenas o Neom e o Al-Qadsiah, da milionária Arábia Saudita, e o Galatasaray, da Turquia, gastaram mais na janela de transferências estival.

Amar Dedic rodeado por jogadores do FC Porto

Jose Manuel Alvarez Rey

Crónica de Jogo

Apesar de abertos os cordões à bolsa, o Benfica de José Mourinho ainda não ganhou três rondas seguidas da I Liga. Os 29 pontos em 13 jornadas com o ex-Fenerbahçe significam que, caso o ritmo se mantivesse num campeonato completo, a equipa andaria entre os 75 e os 76 pontos, valores típicos de terceiro lugar em Portugal.

O discurso da esperança rapidamente se tornou menos luminoso. No primeiro encontro em casa, diante do Gil Vicente, o homem de 62 anos falou de um conjunto sem “identidade”, que se encontrava numa “zona cinzenta” e fora do “nível top”.

Ao longo dos meses, o tom tem ido entre o elogio, mesmo perante algumas derrotas, e a crítica acérrima a jogadores ou árbitros. Nos desaires contra Bayer Leverkusen e FC Porto houve, no primeiro caso, referências a um coletivo “a jogar muito bem”, o que deixava o responsável “contentíssimo com a evolução da qualidade de jogo”. No Dragão, “a melhor equipa perdeu”, disse Mourinho, que estava “chateado com o resultado”, não com os seus homens.

Em sentido inverso, registaram-se contundentes dissertações de desagrado dirigidas aos futebolistas, as famosas duras. Contra o Atlético, na Taça, descreveu uma atitude “não admissível”, o que levou a que o técnico tivesse “vontade de mudar nove jogadores” ao intervalo. Diante do SC Braga, na Taça da Liga, o treinador considerou que “quem faz uma primeira parte tão má não merece vencer”. “Desejo que os jogadores durmam tão bem quanto eu, ou seja, não dormirem. Que não durmam e pensem como eu vou pensar”, disparou, antes de rumar com a equipa para uma noite no Seixal.

O problema dos jogos grandes

Um dos paradoxos da passada temporada do Benfica esteve relacionado com os embates de maior exigência. Numa campanha em que as águias conseguiram duas goleadas históricas perante o FC Porto, humilharam o Atlético de Madrid, bateram o pé ao Barcelona e triunfaram numa final frente ao Sporting, acabaram por ser dois dérbis sem o desfecho desejado a ditar um maio de desilusão. O empate com sabor a derrota na 33ª ronda contra os leões e a final perdida no Jamor deixaram o vizinho da Segunda Circular a festejar a dobradinha e fragilizaram Bruno Lage.

Em sete dias, o Benfica viu fugir duas hipóteseses de troféu

Gualter Fatia

A chegada de José Mourinho tinha, também, o objetivo de dar armas ao coletivo nesses contextos. No entanto, o treinador tem chumbado nesse exame. No campeonato houve empates contra FC Porto, Sporting e SC Braga. Nas Taças registaram-se eliminações provocadas por portistas e bracarenses. O 2-0 ao Nápoles, na Liga dos Campeões, acaba por ser o melhor momento destes meses.

Sem dar um salto de resultados nos duelos com rivais diretos, os títulos vão-se tornando uma miragem. Para o clube, as deceções vão-se acumulando: desde que o histórico tetra foi conseguido, em 2016/17, o Benfica apenas ganhou dois campeonatos em oito possíveis, uma Taça da Liga em nove chances e nenhuma Taça de Portugal.

Nas redes sociais, o clube continua a usar a imagem do laureado treinador exaustivamente. Mais do que um novo responsável técnico, Mou aterrou para ser a cara do Benfica, escudo para Rui Costa e forma de levantar o ânimo. À medida que os troféus desaparecem, o golpe vai perdendo efeito, a sedução esfuma-se, fica a cara trancada e as respostas pouco simpáticas em conferências de imprensa.

O treinador tem contrato até final de 2026/27. No entanto, nos 10 dias seguintes ao final da presente campanha, o vínculo pode cessar caso José Mourinho ou o Benfica manifestam vontade de separação.