É considerado um verdadeiro ícone da confeitaria nacional. Agora, o bolo de arroz ganhou protagonismo como símbolo de um projeto que quer salvaguardar os cafés tradicionais de Lisboa. A iniciativa, chamada “O Último Bolo de Arroz de Lisboa”, foi criada pela Associação Vizinhos em Lisboa.
O objetivo é alertar para uma realidade cada vez mais presente no quotidiano da capital: o desaparecimento de espaços que fazem parte da história da cidade. “Em Lisboa, o fecho de cafés e pastelarias tradicionais deixou de ser exceção e passou a ser um padrão urbano recorrente, visível em vários bairros centrais, sinal claro de perda de comércio de proximidade”, refere, numa publicação nas redes sociais, feita esta quarta-feira, 14 de janeiro.
Com o aumento do valor das rendas, a subida dos custos das matérias-primas e a crescente ocupação do mercado por grandes cadeias de restauração, muitos dos pequenos comerciantes pequenos não encontram outra alternativa senão fechar portas.
O bolo de arroz, tão popular entre pessoas de várias idades, tornou-se um símbolo da proximidade que caracteriza a vida de bairro, sendo escolhido para “dar a cara” pelo projeto. “Mais do que um bolo, é um símbolo do quotidiano e da tradição que vivem dentro destes espaços”, refere a associação.
“Queremos que cada pessoa reconheça que, ao entrar num café de bairro e pedir um bolo de arroz, está também a ajudar a manter viva uma parte da identidade de Lisboa”. A associação acrescenta, ainda, que “quando fecha um café tradicional, não desaparece apenas um espaço, perdem‑se histórias, rotinas, rostos familiares e pequenos rituais que fazem da cidade um lugar com alma”.
Segundo recorda Rui Martins, fundador da Vizinhos de Lisboa e um dos coordenadores da iniciativa, os cafés são verdadeiros pontos de encontro da comunidade local. E não são os únicos em risco.
“Padarias, retrosarias e papelarias, por exemplo, estão a desaparecer. Com o elevado número de turistas, passam a ter consumidores apenas sazonais. São lojas com história que não estão a conseguir sobreviver”, lamenta. Assim, decidiu criar o projeto que quer chamar a atenção para o problema.
Rui dá como exemplo o recente encerramento da Confeitaria Cister, fundada em 1838, em Lisboa. Com quase dois séculos de história, o espaço era um dos locais preferidos do escritor Eça de Queirós, por exemplo. Despediu-se dos clientes, definitivamente, no passado dia 2 de janeiro.
“O que está a desaparecer é o comércio de proximidade que garante rotinas, relações sociais e vida de bairro, substituído por modelos económicos alheios à cidade habitada”, afirma.
Assim, o projeto da Associação Vizinhos em Lisboa está a fazer um mapeamento de todos os cafés e pastelarias tradicionais portuguesas que ainda existem, com o objetivo de criar um registo vivo da memória da cidade. Qualquer pessoa pode contactar a associação por email (geral@nullvizinhos.org) para sugerir estabelecimentos a incluir no mapa.
estamos a mapear todos os cafés e pastelarias tradicionais portuguesas que ainda existem em Lisboa, com o objetivo de criar um registo vivo da memória da cidade, dar visibilidade a quem resiste diariamente e sensibilizar a comunidade para a importância de apoiar estes lugares.
Ali, pode conhecer os espaços e saber a sua localização exata para um próximo pequeno-almoço, lanche ou café entre amigos. A iniciativa pretende “dar visibilidade a quem resiste diariamente e sensibilizar a comunidade para a importância de apoiar estes lugares”.
Paralelamente, está também a ser realizado um levantamento das principais dificuldades enfrentadas pelos comerciantes, que será posteriormente entregue à Câmara Municipal de Lisboa. “Queremos avaliar o estado de saúde do comércio tradicional”, explica.
Em entrevista à NiT, o responsável adiantou ainda que uma das propostas a apresentar à autarquia será a criação de um Plano de Proteção do Comércio Tradicional de Lisboa.
Entre as medidas em estudo estão a atualização regular do inventário municipal de lojas históricas, mecanismos de estabilização das rendas e benefícios fiscais específicos para estabelecimentos de fabrico próprio.
Leia o artigo da NiT para conhecer 17 restaurantes, cafés e bares que encerraram em 2025. E também o artigo onde tentamos perceber as razões da crise que levou tantos espaços da área da restauração a fechar no último ano.