Batiam as 17h30 quando Jorge Pinto percorria a rua de Cedofeita, no Porto, naquela que foi a primeira e única arruada do candidato. A certa altura, parou para falar aos jornalistas. A banda que acompanhava o cortejo fez soar a conhecida ‘I Will Survive’ e o momento tornou-se quase poético: Jorge Pinto incentivou os eleitores a votar em António José Seguro, postura reiterada mais tarde numa carta enviada aos militantes do Livre. E se isto foi recebido com surpresa, o facto de ter voltado atrás com as suas palavras poucas horas depois também o foi. Ao final da noite, Rui Tavares tentou conter os danos feitos durante o dia, sublinhando que quem vota em Jorge Pinto “vota na festa da República”.
Logo pela manhã, Jorge Pinto chegou à estação de metro de Santo Ovídio, em Vila Nova de Gaia, e foi confrontado com os dados das últimas sondagens, que não são animadoras. Começou por dar a resposta habitual, argumentando que o voto útil é votar em quem os portugueses acham que vai fazer a diferença. Mas depois foi mais além, afirmando que respeita quem lhe diz que gostava de votar nele, mas que não o faz por medo do resultado a 1.ª volta. “Que as pessoas decidam livremente! Não serei eu a julgar as pessoas pelo seu sentido de voto”, afirmou. Por esta altura, Jorge Pinto estava a preparar o terreno para aquilo que viria a dizer durante a tarde, no Porto.
Acompanhado por cerca de 50 pessoas (maioritariamente jovens), Jorge Pinto interrompeu a arruada por uma das ruas do Porto para tranquilizar os seus eleitores. Explicou que o mais importante nesta corrida a Belém é que o resultado final seja positivo para o país. O “que me moveu” desde o início desta candidatura, disse, foi, “mais que um bom resultado, [ter] um bom resultado para o país”, afirmou.
E alertou depois para a existência de “um risco real de termos uma 2.ª volta com um candidato anti-republicano e anti-democrático e, do outro lado, um candidato extremamente próximo do governo”. Jorge Pinto referia-se à possibilidade de haver uma corrida entre André Ventura e um outro candidato de direita (Marques Mendes ou Cotrim Figueiredo) numa 2.ª volta.
E logo depois, sem o dizer letra por letra, abriu a porta aos seus eleitores para que votem em Seguro, fazendo algo semelhante a um apelo ao voto. “Estou confortável com a ideia de as pessoas votarem de maneira consciente. E, se isso significar um mau resultado para esta candidatura, cá estarei. Votem de acordo com a suas consciências. Se isso levar a que votem noutras candidaturas com medo [que outras] passem à 2.ª volta, cá estarei para o receber, compreender e aceitar.”
A afirmação de Jorge Pinto — agora mais concreta do que as palavras proferidas pela manhã — levaram a reações de António José Seguro e António Filipe. O primeiro disse ter tomado “boa nota” das declarações e que todos os votos até domingo contavam. Já o segundo aproveitou para reiterar que a sua candidatura faz “mais sentido” que nunca.
Poucas horas depois, os militantes do Livre, partido que apoia a candidatura de Jorge Pinto, receberam no seu email uma carta escrita e assinada pelo candidato mais novo a Belém. No extenso documento lia-se que os eleitores deviam votar “livremente” no nome que consideram que pode dar “mais garantias de defesa da Constituição”. E em nenhum momento houve um apelo ao voto na sua candidatura.
Jorge Pinto parecia ter deixado claro que, apesar de não ter desistido da corrida (até porque o prazo para tal já tinha terminado), apoiava abertamente o candidato apoiado pelo PS e entendia que os seus eleitores apostassem em Seguro, por ser a única solução para enfrentar uma 2.ª volta com um candidato de direita. Após dias a ser questionado frequentemente se desistia ou não e a tentar afirmar a sua candidatura, parecia finalmente que Jorge Pinto estava mesmo a ser coerente (apesar de o apoio a Seguro já surgir na reta final da campanha).
Mas nem 30 minutos depois de a carta ser enviada aos militantes, Jorge Pinto voltou atrás na posição. De repente, o mesmo candidato parecia seguir duas formas distintas de fazer campanha eleitoral. Foi minutos antes do início do comício da noite, ao falar aos jornalistas, que mudou de posição. Jorge Pinto acabou por se desdizer e garantir que continua na corrida.“Aquilo que disse e que me parece, até, uma lapalissada, é que ninguém é dono dos votos de ninguém. O voto útil seria na minha candidatura. Ou acha que eu estou nesta candidatura para pedir às pessoas para não votarem em mim? É evidente que não”, afirmou.
E, depois de recusar ter feito um apelo ao voto em Seguro (ou qualquer outro candidato), disse ver com “surpresa” que as suas afirmações fossem, sequer, um assunto. “Eu dizer uma coisa que é tão óbvia, se calhar é excesso de transparência da minha parte, é excesso de honestidade… Seja! Eu estou na política também para isto”, rematou.
Jorge Pinto aparenta estar sempre feliz. Nos últimos dias, mesmo quando as ações de campanha ou as sondagens não correm da melhor forma, o candidato sorri e mostra que está a levar tudo com leveza. Esta quinta-feira à noite não foi exceção, mas Jorge Pinto deixou transparecer um certo incómodo face ao elevado número de perguntas que, de repente, minutos antes de subir ao palco da Biblioteca Almeida Garrett, choveram.
O comício seguiu com normalidade e quando Rui Tavares pegou no microfone (tal como tem acontecido nos comícios de Jorge Pinto), a sala ficou em silêncio. Atentos, os apoiantes ouviam o co-porta-voz do Livre alertar para os perigos de uma revisão constitucional à direita e tecer largos elogios a Jorge Pinto. E inevitavelmente tocou no ponto: “Ao votar no domingo, as pessoas podem estar, analisando a situação política, preocupadas com a 2.ª volta”, reconheceu.
E logo depois passou à tentativa de contenção de danos, explicando que Jorge Pinto tentou “dizer o mais simples e óbvio”, de forma a garantir aos portugueses “o melhor candidato na 1.ª volta e a garantia de que temos na 2.ª volta alguém que respeita a Constituição”.
“Nós respeitamos os cálculos” dos eleitores, garantiu. Mas “quem vota no Jorge Pinto vota na festa da República, não num funeral. E vota com enorme alegria”. No final ainda lançou um último apelo aos militantes: “São convocados a seguir o exemplo do nosso candidato e a dizer ‘Presente’. Quem não luta por uma República acaba por perdê-la.”
Mas ao contrário do que aconteceu nos comícios anteriores, desta vez não foi Rui Tavares quem teve o destaque da noite, mas sim Jorge Pinto. Com uma força e assertividade diferente das noites anteriores, o candidato discursou durante cerca de 30 minutos e o ponto de partida foi logo o ponto mais sensível do dia.
“Respeito quem vota por medo. Disse uma coisa tão simples quanto esta. Respeitamos os portugueses e a sua inteligência… Não é óbvia [a minha posição] porquê? Porque não dizemos o que as agências de comunicação querem? Porque não usamos o discurso redondo pastoso dos outros candidatos?”, criticou. A frase elevou os ânimos dos apoiantes, que aplaudiram energicamente.
E a partir daí, Jorge Pinto não se deixou ficar. Tecendo criticas aos comentadores “sempre com opiniões ultra-formadas” sobre tudo e focados mais na desistência do que no conteúdo da sua campanha, o candidato quis deixar claro que a sua marca política é a honestidade.
Por isso, disse, preferir “mil vezes ser conhecido pela honestidade do que por ser racista”. “Prefiro mil vezes ser conhecido pela honestidade do que ter dúvidas em dizer que, numa 2.ª volta, estarei sempre com outro candidato do que com um candidato de direita. Mil vezes ser conhecido pela honestidade do que dizer ser liberal e andar aos abraços com fascistas”, continuou, levando a que toda a sala se levantasse, gritando e aplaudindo Jorge Pinto como nunca tinha acontecido até então.
E, quebrando a promessa que fez sobre não instrumentalizar e não trazer para a campanha uma denúncia de assédio “grave”, virou-se para os apoiantes de Cotrim Figueiredo: “Prefiro mil vezes ser conhecido pela honestidade do que tentar abafar um caso de assédio e atacar os jornalistas.”