A jovem surge num vídeo a transportar uma garrafa de champanhe com uma vela de faísca momentos antes de o teto se incendiar.

Stephanie Lecocq
Uma funcionária que morreu no incêndio fatal num bar em Crans-Montana, na Suíça, na véspera de Ano Novo, não tinha formação em segurança e desconhecia o risco associado ao teto do edifício, segundo a advogada da família.
Cyane Panine, de 24 anos, morreu no incêndio que deflagrou no bar Le Constellation. A jovem surge num vídeo a usar um capacete e a transportar uma garrafa de champanhe com uma vela de faísca, momentos antes de o teto se incendiar.
Quarenta pessoas morreram e 116 ficaram feridas no incêndio no sudoeste da Suíça.
Segundo a advogada da família, Sophie Haenni, Cyane não deveria estar a servir às mesas naquela noite, mas foi chamada para ajudar devido à elevada procura. A jurista garante que a jovem nunca foi informada sobre os perigos do espaço nem recebeu qualquer formação de segurança.
“Não foi a própria Cyane que decidiu usar o capacete, foi a pedido dos seus empregadores. Ela estava apenas a fazer o seu trabalho. É chocante atribuir a responsabilidade pelas suas próprias falhas a Cyane, uma jovem de 24 anos e sua própria funcionária”, afirmou à BBC.
Sophie Haenni acrescentou que Cyane Panine nunca foi informada “sobre o perigo do teto e não recebeu qualquer formação de segurança”.
Acusações aos proprietários do bar
Os proprietários do bar, Jacques e Jessica Moretti, de nacionalidade francesa, foram acusados pelas autoridades suíças de homicídio negligente, ofensas corporais negligentes e incêndio criminoso negligente.
Uma fonte com acesso ao processo disse que Jessica Moretti afirmou aos investigadores que o uso de velas de faísca em garrafas de champanhe era uma prática habitual há cerca de 10 anos.
“Não foi a primeira vez que ela o fez, colocando-se sobre os ombros de outra pessoa. Ela fê-lo por iniciativa própria”, disse Moretti.
A advogada da família rejeita essa versão e sublinha que a jovem é “inequivocamente uma vítima”.
“Mortes que poderiam ter sido evitadas”
Num comunicado, a advogada Sophie Haenni afirma que as mortes “poderiam ter sido evitadas” se as normas de segurança, nomeadamente no que respeita aos materiais utilizados no teto, tivessem sido cumpridas e se as inspeções obrigatórias tivessem sido realizadas.
Os advogados da família referem ainda que Cyane se sentia usada e estava insatisfeita com as condições de trabalho, apontando falta de empatia por parte dos empregadores.
“[Cyane Panine] expressou a sua incompreensão com a falta de empatia e compreensão por parte dos seus empregadores”, acrescenta o comunicado.
Na quarta-feira, um tribunal suíço proibiu Jessica Moretti de sair do país, considerando existir risco de fuga. A empresária entregou o passaporte e está obrigada a apresentar-se diariamente à polícia.
Jacques Moretti encontra-se em prisão preventiva por um período inicial de 90 dias, também por risco de fuga.
As primeiras conclusões da investigação apontam para fogos de artifício como origem do incêndio, que terá alastrado rapidamente à espuma de isolamento acústico do teto. As autoridades reconheceram que o bar não era alvo de inspeções de segurança há cinco anos.
Na sequência da tragédia, o cantão suíço de Valais proibiu o uso de engenhos pirotécnicos em todos os espaços públicos fechados.
As autoridades anunciaram ainda um pagamento de emergência de 10 mil francos suíços a cada vítima (um pouco mais de 10 mil euros) e a criação de um fundo para recolha de donativos.