André Ventura chega à noite de domingo numa posição inédita na sua vida política: lidera sondagens e os números apontam-no como o favorito para vencer a primeira volta das eleições presidenciais. A realidade que até aqui não conhecia faz soar sirenes, as mesmas dos grandes partidos, que tantas vezes sofrem com o conformismo de quem dá tudo como ganho e não vai às urnas.

O líder do Chega está habituado a surpreender, sempre teve menos nas sondagens do que urnas, em todas as noites eleitorais tem a possibilidade de criticar as empresas de sondagens pelas falhas e, desta vez, é o próprio que não tem margem para falhar. Por isso, nos últimos dias de campanha, começou a dramatizar no apelo ao voto para evitar deslizes ou dissabores pedindo que ninguém se deixe “embalar pelas sondagens”.

“Habituámo-nos, enquanto movimento de transformação, a surpreender o país. Não nos interessa ganhar sondagens. Temos que ganhar as eleições no próximo domingo e por isso é importante que todos saiam, todos votem e ninguém fique a ver as coisas acontecer. O pior para um país acontece quando ficamos a olhar para as coisas a acontecer e não fazemos nada. Nunca fomos um movimento de sofá. Se estamos em primeiro não vamos querer só ficar em primeiro, vamos querer ficar em primeiríssimo no próximo dia 18”, explicou num almoço-comício em Ponte de Lima, não só embalado pelas sondagens, mas também pelo ambiente do 43.º aniversário.

De repente, Ventura passa do homem que tirou as pessoas do sofá — nas últimas duas eleições legislativas foi o Chega a subir e abstenção a diminuir — para o homem que precisa mesmo que as pessoas saiam do sofá para repetir os feitos históricos que foi carimbando para não correr o risco do balde de água fria.

Na comitiva, acredita-se que, mesmo com os números a apontarem para o primeiro lugar, o Chega é sempre prejudicado pelas sondagens e que Ventura pode ter mais do que apontam as pesquisas. O próprio candidato deixava escapar: “Se eles nos põem a ganhar nas sondagens, é porque estamos a dar aos outros uma tareia verdadeiramente monumental.” E fazia previsões tendo em conta o passado: “Se nos dão 24% é porque já estamos nos 30% provavelmente.” Seja como for, cautela e apelo são as palavras de ordem.

Quando André Ventura foi a votos em 2022, na altura em que se sentava sozinho na Assembleia da República, a grande sondagem da Católica dava 6% ao Chega (entre 7 e 9 deputados), o partido conseguiu 7,18% e conquistou 12 parlamentares. Dois anos depois, em 2024, na mesma sondagem publicada a 2 dias das eleições, o partido liderado por Ventura surgia com 16% das intenções de voto (33 a 41 deputados) e conseguiu 50 com mais de 18%. E nas últimas legislativas, quando essa mesma sondagem apontava para 19% (entre 43 e 50 deputados) o Chega subiu e sentou 60 parlamentares no hemiciclo.

Além disso, a última sondagem aponta ainda uma taxa de rejeição de Ventura em queda. Se neste momento 64% das pessoas respondeu “não votaria de certeza”, há um mês esse número estava nos 71% na mesma pesquisa. E, ainda que nenhum cenário entre os big five favoreça Ventura, a verdade é que há três candidatos com taxas de rejeição maiores: Jorge Pinto (78), António Filipe (75) e Catarina Martins (74). Para termos de comparação, a taxa mais baixa é a de António José Seguro, com 41%.

Nas ruas, à medida que o Chega vai crescendo, a rejeição também se torna cada vez menor. Em quase duas semanas de campanha foram praticamente nulos os momentos de tensão com o candidato (ao contrário do que tinha acontecido nas legislativas em que houve várias manifestações da comunidade cigana a marcar a agenda de Ventura) e as bocas que se foram ouvindo são cada vez menos, até porque a bolha é maior e mais intensa, não dando tanta margem para interpelações a Ventura.

Até aos dias de hoje, o Chega foi sempre subvalorizado relativamente ao resultado das urnas. Com os números a subirem e Ventura a estabilizar-se no primeiro lugar, fazem-se contas sobre como é possível colmatar o possível conformismo e aposta-se tudo na fidelização do eleitorado.