A HISTÓRIA: O Dr. Kelson vê-se numa nova e chocante relação, com consequências que podem mudar o mundo tal como o conhecem, e o encontro de Spike com Jimmy Crystal torna-se num pesadelo do qual não consegue escapar. Neste mundo, os infetados já não são a maior ameaça à sobrevivência, a desumanidade dos sobreviventes pode ser mais estranha e mais aterradora.
“28 Anos Depois: O Templo dos Ossos”: nos cinemas desde 15 de janeiro de 2026.
Por Manuel São Bento (aprovado no Rotten Tomatoes. Membro de associações como OFCS, IFSC, OFTA. Veja mais no portfolio).
Classificação (0 a 5): * * * *
“28 Anos Depois: O Templo dos Ossos” afirma-se como um triunfo audacioso que revitaliza a saga com uma ferocidade inesperada, equilibrando o horror gráfico mais repugnante da saga com uma inteligência narrativa mordaz. Elevado por performances magnéticas — especialmente de Ralph Fiennes — e uma fotografia deslumbrante que transforma o grotesco em arte, o filme é tanto um espetáculo de sangue como um estudo temático profundo sobre a memória e a sobrevivência que nos deixa com a certeza inquietante de que, neste novo mundo, a evolução é a única alternativa à extinção.
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28 Anos Depois: O Templo dos Ossos
Créditos: Big Picture
A crítica
Ainda sinto o eco desconcertante do final do filme anterior. Confesso que a minha aproximação a este novo capítulo era cautelosamente nervosa, fruto daquela conclusão altamente dissonante de “28 Anos Depois” que me deixou, na altura, sem saber bem o que sentir. Não sendo o fã número um da saga, admiro a forma como redefiniu o género e injetou uma ferocidade crua nos pesadelos coletivos do mundo, apesar de não poder afirmar que tenha um capítulo que adore muito mais que os outros.
Contudo, ao entrar na sala escura para testemunhar “28 Anos Depois: O Templo dos Ossos”, levava comigo a esperança de que a visão singular de Nia DaCosta (“Candyman”) e a escrita incisiva de Alex Garland (“Ex Machina”) pudessem endireitar o barco, equilibrando o horror visceral com a substância humana que sempre foi o coração palpitante destes filmes.
A narrativa transporta-nos para uma Grã-Bretanha irreconhecível, onde as regras da civilização já não são sequer uma memória distante. “28 Anos Depois: O Templo dos Ossos” centra-se em Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes), um homem que construiu um santuário macabro dedicado à morte, e na colisão inevitável do seu mundo com o culto liderado por Sir Lord Jimmy Crystal (Jack O’Connell).
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28 Anos Depois: O Templo dos Ossos
Créditos: Big Picture
É imperativo começar pelo elefante na sala, ou melhor, pelo triunfo artístico que é o tom desta obra. Onde o antecessor tropeçou, “28 Anos Depois: O Templo dos Ossos” corre com uma confiança audaciosa. É um filme incrivelmente arrojado, exibindo um equilíbrio tonal requintado, misturando o caos absoluto com momentos de humor negro inesperado e uma riqueza narrativa surpreendente. DaCosta demonstra uma coragem imensa ao subverter muitas das fórmulas e clichés desgastados do género “zombie”, entregando que tem tanto de refrescante como de cativante. A cineasta não tem medo de falhar, abraçando a loucura deste novo mundo sem nunca perder o fio condutor emocional, transformando o que poderia ser uma desordem numa sinfonia de violência com significado.
No centro desta tempestade encontramos uma interpretação de Fiennes que só pode ser descrita como fascinante. O ator despe-se de qualquer vaidade para encarnar Kelson, uma figura que oscila entre o trágico e o cómico num mundo que despreza a etiqueta. O seu arco é de uma erosão espiritual palpável, começando como um homem que se agarra à ciência e à arte como escudos contra a barbaridade, cobrindo a pele com iodo numa tentativa desesperada de se isolar. A forma como Fiennes navega a transformação de Kelson, de um observador estoico para um participante ativo na loucura, culminando numa performance “diabólica” no terceiro ato, é uma verdadeira “tour de force”, permitam-me a hipérbole. Sozinho, consegue transmitir a dor de um homem que construiu um templo dedicado à morte não por loucura, mas por reverência.
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28 Anos Depois: O Templo dos Ossos
Créditos: Big Picture
Do outro lado do espectro moral, existem a energia caótica de O’Connell e a presença fundamentada de Erin Kellyman. O primeiro é absolutamente aterrorizante como Jimmy Crystal, canalizando uma energia maníaca, odiosa e, no entanto, magneticamente repulsiva. O seu antagonista não é apenas mau; é um artista da violência, um homem que trata o apocalipse como o seu parque de diversões pessoal, servindo de contraponto perfeito ao estoicismo de Fiennes. Em contraste, Kellyman, no papel de um dos “Jimmys”, funciona como a ponte necessária entre estes dois extremos. A sua performance é subtil mas poderosa, carregando o peso da consciência num grupo desprovido dela. A personagem representa a geração que não conheceu o mundo antigo, mas que recusa a crueldade do novo, com a atriz a navegar esse conflito interno com uma maturidade impressionante, servindo como o compasso moral numa terra sem norte.
Destaque ainda para Chi Lewis-Parry como o alfa infetado Samson, uma revelação que desafia todas as regras estabelecidas pela saga até agora. Dedicar um parágrafo a Lewis-Parry é pouco para o impacto que a sua personagem tem na estrutura temática de “28 Anos Depois: O Templo dos Ossos”. O seu arco partilhado com Kelson representa a evolução e o ator traz uma fisicalidade imponente que é por uma vulnerabilidade dolorosa, especialmente nas interações com Fiennes. É o “selvagem nobre”, a prova viva de que a biologia pode ser superada pelo espírito. Lewis-Parry consegue transmitir, sem palavras, a luta interna entre a raiva biológica e a alma humana que reside por baixo, tornando-se o vetor emocional mais forte da obra e desafiando a nossa própria perceção de quem são os verdadeiros monstros.
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28 Anos Depois: O Templo dos Ossos
Créditos: Big Picture
Tematicamente, “28 Anos Depois: O Templo dos Ossos” é de uma riqueza extrema. A narrativa afasta-se da habitual luta do Homem contra a Natureza para se focar no conflito entre a resiliência e o niilismo. Enquanto os filmes anteriores se concentravam na sobrevivência — encontrar a cura, um refúgio — este quarto capítulo debruça-se sobre a morte. O templo homónimo é um monumento ao fim, erguido por quem parou de temer os infetados e passou a adorar o conceito de extinção. Existe uma exploração fascinante da expressão latina “memento mori”, contrastando o extremismo religioso com a esperança científica. O argumento de Garland sugere que, após 28 anos, a esperança é um recurso finito e, quando se esgota, é substituída por um impulso de morte. Esta densidade filosófica eleva o filme muito acima de um simples festival de sustos baratos.
Esta profundidade estende-se à crítica mordaz sobre a corrupção da nostalgia, personificada pelo grupo dos “Jimmys”. Estes agarram-se à estética do passado — os fatos de treino, as frases feitas, as perucas — sem compreenderem o contexto, ou pior, abraçando a natureza predatória subjacente a essas figuras. É um aviso claro de que olhar para trás é perigoso; a nostalgia sem memória é uma arma.
“28 Anos Depois: O Templo dos Ossos” sugere que, na ausência de lei, a humanidade não reverteu para o estado animal; evoluiu para artistas performativos da violência. Os infetados matam porque devem, é uma necessidade biológica; os humanos, liderados por Crystal, torturam porque escolhem fazê-lo. É nesta dicotomia que Samson brilha, desafiando a definição de “humano”: se um monstro escolhe salvar uma vida enquanto um homem escolhe destruí-la, os rótulos perdem o significado.
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28 Anos Depois: O Templo dos Ossos
Créditos: Big Picture
Para os amantes do género, trago boas notícias: este é, de longe, o capítulo mais repugnante, sangrento e violento da saga. DaCosta não poupa nos detalhes, entregando toneladas de efeitos práticos, maquilhagem e próteses que resultam num horror visceral autêntico. Seja pele arrancada ou outros tipos de tortura que testam o estômago, nada parece gratuito; existe sempre o objetivo de sublinhar a brutalidade deste novo mundo. É um regresso à forma na vertente do horror, lembrando-nos que o vírus e a crueldade humana resultam em consequências físicas devastadoras.
Toda esta carnificina é elevada pela fotografia absolutamente divinal de Sean Bobbitt (“12 Anos Escravo”). “28 Anos Depois: O Templo dos Ossos” é visualmente deslumbrante, criando um contraste belíssimo entre o verde luxuriante das paisagens britânicas e as imagens sombria e esquelética do templo. Bobbitt cria a experiência mais imersiva e cinemática de toda a série, com um jogo de luzes fenomenal, especialmente no uso de fogo, velas e sequências noturnas durante o terceiro ato.
E o que dizer deste terceiro ato? É, sem dúvida, uma das conclusões mais satisfatórias que vi recentemente, elevando o filme a um novo patamar. Tudo converge para uma sequência de dança diabólica ao som de Iron Maiden, onde a produção artística, a música e a prestação alucinada de Fiennes fundem-se num espetáculo grotesco e magnífico. Cada linha de enredo e desenvolvimento de personagem encontra aqui uma resolução coerente e impactante. Não é apenas barulho e fúria; é o culminar emocional de toda a jornada, executado com uma mestria técnica e narrativa de deixar o espectador colado à cadeira.