À medida que os Estados-membros da União Europeia preparam os respectivos Planos Nacionais de Restauro, cujo prazo de entrega está agendado para meados de 2026, o Conselho Consultivo Científico das Academias Europeias (EASAC) emitiu um aviso claro: o restauro da natureza na Europa não deve ser encarado como uma mera obrigação legal ou um “fardo administrativo”, mas sim como um investimento estratégico vital para a estabilidade económica e segurança do continente.
Numa análise sobre a aplicação do Regulamento de Restauro da Natureza da União Europeia, os peritos do EASAC sublinham que os benefícios económicos de restaurar ecossistemas degradados superam largamente os custos previstos.
Estima-se que os benefícios ascendam a 1800 mil milhões de euros, contra custos de cerca de 150 mil milhões, nomeadamente através da prevenção de danos causados por eventos extremos e da melhoria da saúde pública. Ou seja, o restauro da natureza é a estratégia mais rentável para garantir a resiliência climática da Europa.
Restauro preventivo
Para Thomas Elmqvist, investigador da Universidade de Estocolmo e director do programa de ambiente do EASAC, ignorar o papel económico da natureza constitui um erro estratégico grave.
Uma das recomendações centrais dos peritos passa pela adopção do “restauro preventivo”, uma abordagem proactiva que visa mitigar desastres naturais, como incêndios rurais e secas, antes que estes ocorram, integrando em particular o sector agrícola nesta transição.
O organismo científico exorta os Estados-membros a tratarem o capital natural — solos, biomassa, turfeiras, zonas húmidas, rios e ecossistemas marinhos — como activos estratégicos essenciais, que devem ser devidamente financiados e geridos de forma coerente entre as várias tutelas do Governo.
Paisagens “piro-diversas”
Um dos pilares centrais do documento é precisamente o conceito de “restauro preventivo”, uma mudança estratégica que passa das respostas reactivas a catástrofes para uma redução proactiva dos riscos.
No contexto específico dos incêndios florestais, uma ameaça crítica para o Sul da Europa, o EASAC recomenda a criação de paisagens “piro-diversas”.
A estratégia passa por desenhar mosaicos na paisagem, alternando manchas de floresta mista (com diversidade de espécies e idades) com pastagens e cinturas agro-florestais — uma proposta, aliás, que tem vindo a ser defendida há vários anos por especialistas portugueses em fogos rurais. Esta descontinuidade do coberto vegetal, aliada ao abandono de monoculturas contínuas, cria barreiras naturais que dificultam a propagação das chamas.
Esta abordagem inclui ainda o fomento do pastoreio extensivo para controlar a biomassa combustível e a reidratação de turfeiras ressequidas, medida que reduz drasticamente o risco de ignição e evita fogos subterrâneos difíceis de extinguir.
“O restauro da natureza não é um luxo ambiental — é uma gestão básica de risco”, explica Thomas Elmqvist. “Numa altura em que a Europa gasta milhares de milhões a responder a inundações, secas, incêndios florestais e impactos na saúde, o restauro de ecossistemas está entre os investimentos preventivos mais inteligentes que podemos fazer.”
Envolver agricultura
O relatório sublinha que o sucesso dos planos nacionais dependerá da capacidade de envolver activamente os sectores económicos, especialmente a agricultura.
A agricultura regenerativa surge assim como um pilar fundamental. O objectivo é reconstruir a matéria orgânica do solo e a retenção de água através de práticas como a diversificação de culturas e a agro-floresta, sem comprometer a produtividade.
O EASAC recomenda que as políticas devem recompensar os agricultores pelos resultados mensuráveis, como o carbono armazenado no solo e a biodiversidade, alinhando os incentivos da Política Agrícola Comum (PAC) com as metas de restauro e eliminando subsídios que prejudiquem os sumidouros de carbono.
“A maior parte da resistência deve-se ao facto de as pessoas verem esta lei apenas como mais uma regulamentação que vem restringir as actividades e negócios dos agricultores”, explica Thomas Elmqvist, notando que os planos nacionais de restauro podem trazer novas oportunidades.
“Precisamos de mecanismos para resolver esta desigualdade na partilha de custos e benefícios, não esperamos que os proprietários de terras suportem os custos e que, depois, os benefícios sejam partilhados por todos os outros”, notou o investigador.
Para tal, será necessário garantir coerência política entre ministérios — desde o Ambiente à Agricultura, passando pelas Finanças e Energia —, assegurando que os incentivos à bioenergia e à agricultura intensiva não colidem com os objectivos de recuperação.
Portugal elogiado pela ambição estratégica
Numa avaliação intercalar realizada pela coligação europeia Restore Nature, divulgada em Dezembro de 2025, Portugal surge destacado como um exemplo positivo. O país apresenta o seu Plano Nacional de Restauro como uma “prioridade estratégica nacional”, ligando-o explicitamente à resiliência climática e a benefícios socioecológicos, em vez de o tratar como um mero exercício de conformidade.
Existem já alguns exemplos de programas de restauro que trazem benefícios económicos e sociais claros. A gestão das florestas de sobreiro no Sul do país, entre os rios Tejo e Sado, com projectos como o Green Heart of Cork, que apoia proprietários na gestão sustentável destas paisagens, tem mostrado resultados. Quando geridas segundo princípios ecológicos, estas áreas funcionam como inibidores naturais de incêndios, além de serem fundamentais para o armazenamento de carbono e recarga de aquíferos.
Também o recém-aprovado Programa Alcateia, com um financiamento estimado em 15 milhões de euros dedicado à conservação do lobo-ibérico, é dado como exemplo de alinhamento com as recomendações europeias. Prevendo medidas de apoio aos produtores pecuários, como a entrega de cães de gado e construção de vedações, assim como o restauro de habitats para presas selvagens como o corço, o programa promove a coexistência e a manutenção de paisagens funcionais.
A nível urbano, Lisboa é referida pelas medidas de adaptação à escassez hídrica, nomeadamente a reutilização de águas residuais para rega de espaços verdes e a criação de bacias de retenção que funcionam como “esponjas”, reduzindo o risco de cheias.
A remoção de barreiras em rios é outro tipo de acção essencial para garantir a segurança hídrica que estará em foco no programa Pro-Rios 2030, lançado esta semana.