O pior cenário para milhares de trabalhadores da indústria automóvel europeia pode estar mais perto de se concretizar do que se imaginava. Num mercado que encolheu cerca de um quarto desde 2019, o debate sobre o excesso de capacidade produtiva nas fábricas de automóveis ganhou nova urgência, colocando em cima da mesa cortes profundos na produção — e, inevitavelmente, no emprego.
Enquanto na Europa os construtores ponderam reduzir turnos, encerrar unidades e avançar com milhares de despedimentos, na Ásia o horizonte é ainda mais radical. De acordo com o site especializado ‘L’Automobile Magazine’, alguns fabricantes admitem ir mais longe e criar as primeiras fábricas “negras”: unidades totalmente automatizadas, sem trabalhadores humanos, à exceção de técnicos responsáveis pela manutenção dos robôs e das linhas de montagem.
Automação acelera numa indústria em retração
A pergunta impõe-se: o que acontecerá aos trabalhadores das fábricas automóveis na próxima década? A automação avança a vários níveis. Por um lado, a automação de software, com a inteligência artificial a infiltrar-se em processos de planeamento, logística e controlo de qualidade. Por outro, a automação física, através da robótica, destinada a substituir tarefas repetitivas e fisicamente exigentes.
Esta combinação permite às empresas ajustar a produção quase em tempo real, aumentando ou reduzindo volumes consoante a procura. É precisamente este cenário que começa a materializar-se na Europa, onde várias grandes marcas analisam cortes significativos de postos de trabalho e, em alguns casos, o encerramento de fábricas inteiras.
Um sinal preocupante surgiu recentemente na Polónia, onde a Stellantis está a considerar centenas de despedimentos na unidade de Tychy, responsável pela produção de modelos Fiat, Jeep e Alfa Romeo. Uma decisão que, apesar de a fábrica manter volumes relevantes, lança um alerta para o futuro de outras unidades do grupo, incluindo em França.
Entusiasmo excessivo com a inteligência artificial?
O entusiasmo em torno da inteligência artificial e da robótica tem dominado o discurso do sector, mas nem todas as previsões são otimistas. No final de dezembro, a consultora Gartner alertou que a atual “euforia” em torno da IA na indústria automóvel poderá transformar-se rapidamente em frustração.
Segundo a empresa de análise, muitas fabricantes estão a tentar gerar valor disruptivo antes de criarem bases sólidas para a integração da IA. O resultado poderá ser um recuo significativo: a Gartner estima que apenas 5% dos construtores continuarão a investir de forma intensiva em inteligência artificial até 2029.
Apesar disso, a automação da produção mantém-se no centro da estratégia industrial. Nos últimos anos, marcas como Tesla, BMW, Mercedes, Hyundai e, em menor escala, Audi, apresentaram robôs humanoides e sistemas de montagem altamente automatizados. Contudo, nenhuma destas soluções permite, para já, operar uma fábrica totalmente sem trabalhadores humanos, apesar dos anúncios ambiciosos.
Uma fábrica sem trabalhadores ainda nesta década
De acordo com outro estudo da Gartner, citado pela ‘Automotive News’, o cenário pode mudar rapidamente. A consultora admite que um grande fabricante global consiga criar uma linha de montagem totalmente automatizada — uma verdadeira fábrica “negra” — já em 2030.
Segundo esta análise, um construtor americano ou chinês tem maiores probabilidades de ser o primeiro a atingir esse patamar, uma vez que estes mercados já estão a implementar processos de fabrico disruptivos e a demonstrar um interesse crescente em robôs humanoides aplicados à produção industrial.
Ainda assim, subsistem obstáculos técnicos. A instalação do chicote de cabos elétricos continua a ser uma das fases mais difíceis de automatizar, sobretudo num contexto em que os automóveis estão cada vez mais complexos, com sistemas avançados de assistência à condução e elevada conectividade.
Uma das soluções apontadas passa por dividir o chicote em vários módulos ou integrá-lo diretamente nos painéis da carroçaria. Uma abordagem que facilitaria a automação, mas que poderá criar sérios problemas no futuro, nomeadamente para oficinas de reparação e trabalhos de funilaria.
O sonho industrial — e o pesadelo social
Para os fabricantes, a automação total representa um ideal difícil de ignorar: produção ajustada ao mercado, funcionamento contínuo, ausência de salários, impostos ou acidentes de trabalho. Para os trabalhadores, porém, o avanço das fábricas sem pessoas transforma-se num dos maiores desafios sociais da indústria automóvel moderna.
Se a tecnologia já existe ou está em desenvolvimento, a verdadeira questão deixa de ser “se” e passa a ser “quando”.