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O Big Brother Brasil 26 acaba de começar e já cumpre uma de suas funções menos óbvias: transformar conversas aparentemente banais em debates públicos sobre saúde.

A discussão da vez começou depois de uma fala de Juliano Floss, influenciador e participante do reality, ao contar que abandonou o hábito de urinar em pé, não só por higiene, mas por acreditar que isso faria bem ao corpo.

“Alguém falou que tem um câncer, acho que de próstata, que o homem desenvolve porque força um músculo toda vez que vai fazer xixi de pé”, disse o jovem. “Quando a gente está sentado, é mais relaxante”, emendou.

A declaração viralizou, levantou sobrancelhas e gerou dúvidas legítimas. Afinal, existe mesmo alguma relação entre fazer xixi sentado e prevenir câncer de próstata?

De antemão, a resposta é não. Não há nenhuma evidência de que a posição ao urinar cause ou evite esses tumores. Em geral, as doenças na próstata estão ligadas a fatores como idade, genética e alterações celulares que nada têm a ver com “forçar” ou não durante a micção.

Mas ele não está totalmente errado. A prática pode trazer benefícios funcionais e, inclusive, ajudar pessoas com próstata aumentada e problemas urinários a esvaziar melhor a bexiga.

A VEJA SAÚDE ouviu urologistas e revisou estudos científicos para separar mito, exagero e o que, de fato, faz sentido do ponto de vista médico. Confira:

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Afinal, urinar sentado é o melhor para a saúde masculina?

“Urinar sentado não é necessariamente obrigatório nem estritamente “melhor” para todos os homens, mas pode ser vantajoso em situações específicas”, explica a urologista Karin Anzolch, diretora de Comunicação da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

Em homens jovens e saudáveis, sem queixas urinárias, tanto urinar em pé quanto sentado é considerado fisiologicamente normal. Isso quer dizer que o corpo dá conta do recado nas duas posições.

Mas tudo indica que urinar sentado ajuda em caso de sintomas como jato fraco, dificuldade para iniciar ou terminar a micção e sensação de que a bexiga não esvaziou completamente.

Aqui entra a mecânica do xixi — que é menos intuitiva do que parece. Para a urina sair, a bexiga precisa se contrair (o músculo responsável por isso se chama detrusor), enquanto os músculos do assoalho pélvico e o esfíncter urinário precisam relaxar. Ou seja, é uma coreografia: força de um lado, relaxamento do outro.

É por isso que sentar ajuda. A posição facilita o processo voltado ao relaxamento.

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De acordo com Carlo Passerotti, urologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em pé, o corpo mantém uma tensão mínima para garantir equilíbrio, o que leva a uma leve contração da musculatura pélvica. Sentado, essa musculatura tende a relaxar melhor. “E há, teoricamente, um alinhamento melhor da bexiga e uretra“, completa.

Na prática, isso pode facilitar a saída da urina. Por isso, “embora, em geral, urinar sentado não traga vantagem clínica para homens saudáveis, há algumas alterações mensuráveis em certos públicos”, conclui Passerotti.

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E a próstata entra onde nessa história?

A relação é apenas funcional e indireta. Para entendê-la, é preciso partir do princípio de que problemas ao fazer xixi são frequentes em pessoas com quadros de saúde relacionados à próstata.

“Homens com aumento prostático ou obstrução parcial da uretra frequentemente apresentam sintomas urinários e, nesses casos, a postura sentada pode facilitar a micção, reduzir o resíduo pós-miccional e, consequentemente, aliviar sintomas associados”, explica Karin.

“Existe”, diz Passerotti, ao ser questionado sobre a relação entre urinar sentado e saúde da próstata. Ele explica que homens com próstata aumentada costumam usar medicamentos chamados alfa-bloqueadores, que ajudam a relaxar a musculatura prostática. A posição sentada, nesse contexto, funciona como um reforço mecânico: favorece ainda mais o relaxamento e o esvaziamento da bexiga.

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O médico também explica por que isso é bom: “um melhor esvaziamento tem sido associado a efeitos positivos na saúde da bexiga e da próstata”, comenta.

Não pense que esse assunto é coisa só de BBB. Uma revisão sistemática e meta-análise da Universidade de Leiden, na Holanda, avaliou justamente isso.

Os pesquisadores analisaram estudos que compararam parâmetros urodinâmicos — medidas objetivas do fluxo urinário e do esvaziamento da bexiga — em diferentes posições.

Foi observado que entre homens saudáveis não houve diferença relevante entre urinar sentado ou em pé. Mas naqueles com sintomas do trato urinário inferior (como urgência para urinar, jato fraco e vazamentos de urina), a posição em repouso esteve associada a um perfil urodinâmico melhor.

Nesses pacientes, fazer xixi sentado reduziu a quantidade de urina que fica retida na bexiga após a micção, aumentou (levemente) a força do jato e promoveu o esvaziamento um pouco mais rápido, embora nem todas essas diferenças tenham sido estatisticamente significativas.

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Quais benefícios podem existir, afinal?

Considerando esses aspectos da dinâmica do xixi, com base nos estudos e na prática clínica, os especialistas resumiram em uma lista os possíveis ganhos, especialmente para quem já apresenta sintomas urinários:

1. Esvaziamento mais completo da bexiga

Karin chama a atenção para esse benefício. A posição sentada, com pés apoiados e leve inclinação do tronco para frente, favorece o relaxamento do assoalho pélvico e do esfíncter urinário. Isso reduz o chamado resíduo pós-miccional, que é o volume de urina que sobra na bexiga após urinar.

“Alguns trabalhos mostram que, quando a gente faz xixi sentado, temos uma redução de 25 ml no resíduo, em média”, afirma Passerotti. O médico ressalta que essa não é uma diferença grande, mas pode ser relevante ao longo do tempo.

2. Melhor fluxo urinário

“Alguns estudos comparativos demonstram que a postura sentada pode melhorar o fluxo máximo em homens com sintomas urinários, facilitando a saída da urina sem esforço exagerado”, explica Karin. O efeito é modesto. “Mas facilita um pouco a vida da bexiga”, diz Passerotti.

3. Possível redução do risco de infecções urinárias

Karin chama atenção para mais este benefício. “Um esvaziamento mais completo reduz o acúmulo de urina, que pode ser um fator de risco para infecções recorrentes do trato urinário“, explica. Segundo a urologista, isso também pode afetar as infecções que envolvam a próstata (como a prostatite) especialmente em pacientes com esvaziamento vesical (da bexiga) deficiente.

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4. Conforto e segurança

Para idosos ou pessoas com mobilidade reduzida, sentar oferece maior estabilidade e reduz o risco de tonturas ou quedas ao urinar, particularmente à noite.

5. Sinal clínico útil

Vale dizer que a preferência por urinar sentado pode, ela própria, ser uma pista clínica. “Estudos demonstram que homens que preferem essa postura apresentam maior frequência de sintomas urinários do que aqueles que urinam em pé, o que pode ajudar na triagem clínica inicial”, diz Karin.

Bônus: higiene

Vale ainda na lista de benefícios as vantagens para o dia a dia. “Também tem dados [de estudos sobre urinar sentado] que falam sobre conforto, segurança e menor contaminação ambiental, já que espalha menos o xixi que respinga”, comenta Passerotti.

Ora, ao fazer xixi acomodado ao vaso sanitário, a urina cai diretamente lá dentro, com menos força e sem bater nas bordas, o que reduz a dispersão de gotículas no banheiro.

Quando o xixi vira sinal de alerta

A moral da história é que urinar sentado não previne câncer de próstata, mas também não é uma excentricidade. Para muitos homens, especialmente aqueles com sintomas urinários, pode ser uma escolha simples que facilita o esvaziamento da bexiga e reduz desconfortos.

Por isso, em pé ou sentado, o mais importante para a sua saúde é ter atenção às alterações na micção. Entre os sinais que indicam que algo não vai bem estão:

  • Dificuldade para iniciar o jato, com sensação de “travamento”;
  • Fluxo urinário fraco, interrompido ou a necessidade de ir ao banheiro várias vezes seguidas;
  • Acordar muitas vezes à noite para urinar, o que pode indicar esvaziamento inadequado da bexiga — algo que, a longo prazo, pode causar danos à saúde;
  • Presença de sangue na urina, que pode estar associada a tumores, especialmente em pacientes que esvaziam mal a bexiga ou fumam;
  • Urgência miccional: aquela vontade súbita e difícil de segurar, que surge quando a bexiga passa a trabalhar sob esforço excessivo.

Esses sinais podem chamar atenção para o aumento benigno e doenças da próstata, mas também para outros problemas, como irritação, infecção ou obstrução no sistema urinário, além de infecção renal.

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