Depois de sofrer um primeiro AVC, a 20 de novembro, e um segundo enquanto já estava hospitalizado, Nuno Markl continua internado. Ao longo das semanas, o País tem vindo a acompanhar a recuperação do humorista que partilha, regularmente, atualizações sobre o seu estado de saúde.
Esta quarta-feira, 14 de janeiro, o radialista de 54 anos revelou, em direto do hospital para a Rádio Comercial, estar atualmente na “fase perigosa da recuperação”, um momento em que já se sente capaz de retomar alguma autonomia, como estar de pé, embora ainda esteja muito fragilizado. O locutor afirma estar a reaprender a andar, mas ainda não consegue mexer uma das mãos.
Segundo o que Tiago Lopes, médico especialista em medicina física e reabilitação, conta à NiT, apesar de o pior já ter passado, esta etapa é, paradoxalmente, uma das “fases mais delicadas” do processo após um Acidente Vascular Cerebral.
A sensação de autonomia que Markl sente atualmente é, na verdade, muito comum entre sobreviventes de um evento neurológico agudo. “Após ultrapassado o momento crítico do AVC, entramos numa fase em que o risco vital diminui e surgem sinais encorajadores de recuperação. As pessoas sentem-se mais confortáveis e aliviadas porque o perigo de vida passou”, explica.
No entanto, essa perceção de segurança pode ser enganadora. “Esta confiança pode levar a excessos, como esforço a mais ou até descontinuidade de cuidados, algo que vemos com alguma frequência.”
O especialista sublinha também que o maior perigo de vida ocorre nos primeiros dias após o AVC — geralmente entre o terceiro e o quinto dia — período em que há um risco real para a sobrevivência do paciente. Passada essa fase, inicia-se uma etapa intermédia que, embora menos crítica do ponto de vista vital, é decisiva para o futuro funcional do doente. “É esta fase que se foca muito na recuperação após um evento neurológico agudo”, afirma.
A ciência é clara quanto ao tempo de recuperação: o primeiro ano é determinante. “Temos cerca de 12 meses para aproveitar ao máximo a plasticidade cerebral e alcançar a maior independência funcional possível”, avança Tiago Lopes. Em alguns casos, pode prolongar-se até aos 24 meses.
E, embora já haja melhorias no caso de Nuno Markl, a verdade é que, nesta fase, o cérebro ainda não recuperou totalmente a capacidade de adaptação. “É uma das fases mais delicadas. O cérebro encontra-se num período de elevada plasticidade, mas com tolerância limitada”, realça o especialista.
É aqui que entra o papel central da medicina física e de reabilitação. “Existe um equilíbrio fino entre estímulo e proteção. O truque nesta fase é ajustar a dose terapêutica, e isso faz parte do processo de reabilitação. O fisiatra tem um papel fundamental.”
Para ilustrar este momento, o médico recorre a uma metáfora bastante simples. No fundo, é como se uma cidade tivesse sofrido um sismo e os edifícios foram destruídos. Como há a possibilidade de o fenómeno se repetir, a reconstrução tem de ser feita com cuidado e ajustes.
No caso do radialista, Tiago Lopes afirma que tudo indica que não existam sequelas cognitivas, mas persistem défices motores que exigem acompanhamento contínuo. “Do ponto de vista motor, existem défices instalados que vão necessitar de reabilitação nesta fase, que deve ser progressiva e individualizada”, refere.
É também nesta etapa que surgem riscos adicionais, como as quedas. “Imagine-se que o Markl já se consegue levantar e caminhar, mas ainda não tem uma marcha totalmente segura. Ele sente confiança em andar sem apoio, mas existe risco de queda. Pode fraturar um ombro ou um cotovelo, o que comprometeria todo o resto da recuperação”, alerta. O excesso de confiança após o período mais crítico é, por isso, um dos principais perigos.
As saídas pontuais do hospital, como a que está prevista para que o humorista possa ir votar no domingo, 18 de janeiro, pode ser segura, mas depende de vários fatores. “Idealmente deveria ser transportado em cadeira de rodas. Tudo depende da sua capacidade de locomoção, de como vai até ao carro e até ao próprio posto de voto”, explica Tiago Lopes.
Quanto à recuperação total, não há respostas absolutas e é difícil os médicos já saberem se Markl vai recuperar totalmente a função ou se haverá sequelas. O que se sabe é que a gravidade do AVC e dos défices iniciais influenciam o prognóstico. “Na maior percentagem dos casos, os doentes não conseguem atingir exatamente o estado prévio e ficam com sequelas motoras ou sensitivas, que podem afetar a mão, a fala, a perna, o braço ou até a deglutição.”
O tempo de internamento também varia de caso para caso e depende da estabilidade clínica. Um doente com sequelas de AVC só tem alta hospital quando está clinicamente estável, fora de perigo de vida e preparado para transitar para a fase seguinte.
O internamento prolongado de Nuno Markl, aproximadamente dois meses, pode estar relacionado com a necessidade de investigação mais exaustiva associada ao AVC isquémico, embora o médico sublinhe que, sem conhecer todo o historial clínico, é impossível afirmar com certeza.