Através da intervenção dos EUA na Venezuela que culminou com a captura de Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, podemos afirmar que a estrutura de poder na Venezuela se alterou. Até então o cerne do regime chavista-bolivariano era composto essencialmente por quatro núcleos de poder. O primeiro constituído pelo próprio Nicolás Maduro e a sua mulher; o segundo centrado à volta de Diosdado Cabello, ministro do Interior, Justiça e Paz; o terceiro centralizado noutra figura forte do regime, Vladimir Padrino López, ministro da Defesa e um quarto e último, associado aos irmãos Delcy e Jorge Rodriguez.

Para alcançar uma tão almejada transição para a Democracia, Donald Trump e Marco Rubio entenderam que poderia ser vantajoso encetar um processo negocial com os interlocutores de um dos três núcleos de poder restantes do atual regime. A hipótese de entregar diretamente os destinos da Venezuela a María Corina Machado e Edmundo Gonzalez foi, desde logo, posta de parte porque implicaria muito provavelmente a necessidade de colocar forças militares norte-americanas no terreno.  Pelo menos numa fase inicial, pois todo o aparelho repressivo – forças policiais e de segurança interna, forças militares e milícias civis armadas – está sob o estrito controlo do regime. Sendo certo que negociar com uma das três fações restantes não é uma tarefa agradável, mas foi desde logo vista como uma inevitabilidade. O receio da eclosão de tumultos em larga escala, confluindo para uma situação descontrolada, caso o poder fosse entregue à oposição, acabou por se revelar fator decisivo aquando da tomada de decisão do presidente norte-americano.

Tudo indica que os EUA já haviam do antecedente tentado organizar a transição com Vladimir Padrino López. Em mais do que um momento, enviados de Donald Trump – tanto no primeiro como no segundo mandato – acenaram ao ainda ministro da Defesa com um acordo segundo o qual ele assumiria a governação assim que Maduro saísse de cena. Situação que nunca chegou a concretizar-se.

Já antes, com Juan Guaidó, a Casa Branca, no primeiro mandato de Trump, tinha planos para pôr fim à ditadura de Maduro. Todavia, nessa altura como agora, também Guaidó não detinha um real controlo sobre as Forças Armadas Bolivarianas da Venezuela e sobre as forças policiais e de segurança – e os EUA não tinham logrado convencer nenhum dos supracitados centros de poder a concertar posições por forma a liderar uma possível transição sem a ocorrência de uma revolução.

Mas tudo mudou. No final do ano transacto – presumivelmente através dos bons ofícios do Qatar – tudo indica que os EUA terão concordado com as condições apresentadas pelos irmãos Rodríguez para liderarem a tão ambicionada transição. O plano era simples: os EUA removeriam Nicolás Maduro e a Delcy Rodríguez seria entregue o poder. O seu irmão Jorge, responsável máximo pela Assembleia Nacional, caso algo sucedesse à sua irmã, estaria em condições para assumir a presidência do país, no estreito respeito pelo consignado na Constituição da República Bolivariana da Venezuela. Simples. Ao retirar Nicolás Maduro do poder, ao presidente Donald Trump colocavam-se três possibilidades. A primeira chegar a um entendimento com Padrino López. A segunda, entender-se com Diosdado Cabello. E por último, chegar a um qualquer entendimento com o clã Rodriguez. A decisão de Trump, devidamente coadjuvado por Marco Rubio, recaiu sobre estes últimos. Foi assim que Delcy acabou por assumir a presidência da Venezuela, ficando o seu irmão Jorge no banco dos suplentes, literalmente à espera da oportunidade de também ele vir a assumir a presidência do país.

Em boa verdade, este poderá não ser o melhor acordo. Aqui cabe bem a velha máxima de que “o bom é inimigo do ótimo” e a “política mais não é do que a arte do possível” tendo em vista os superiores objetivos fixados. Todos sabemos que Delcy e Jorge Rodriguez sempre foram correligionários de Nicolás Maduro. Mas a verdade é apenas uma: as outras duas opções também não seriam as mais desejáveis. Entre o mau e o péssimo o Diabo que escolha.

Maduro já pouco ou nada conta. Está preso nos EUA e embora o aparelho do regime venezuelano continue a tudo controlar, a Ditadura encontra-se ferida no seu cerne e vê-se sob constante pressão da Casa Branca. De momento já não subsistem quaisquer dúvidas. As ameaças de outrora converteram-se em ações. Agora é Trump quem está ao leme. As grandes decisões são tomadas em Washington a milhares de quilómetros de distância. A margem de manobra é muito estreita para os atuais atores políticos venezuelanos, pois Trump parece estar disposto a oferecer mais one way trips até Nova Iorque – sem regresso previsto – caso não sejam cumpridas as suas estritas orientações.

No passado dia 3 de janeiro foi Maduro e Cilia Flores, amanhã poderá ser Delcy e Jorge Rodriguez, Diosdado Cabello e até Vladimir Padrino López. A margem de manobra de qualquer um destes governantes, pese embora as narrativas inflamadas para consumo interno, é muito estreita. Muito embora, entretanto o Senado norte-americano tenha limitado a margem de manobra do presidente, tal não será certamente impeditivo de colocar em marcha novas operações em tudo semelhantes à de 3 de janeiro. Delcy Rodriguez não irá certamente ter uma vida fácil daqui em diante: terá de ser de tal modo flexível que seja capaz de “agradar a gregos e a troianos”. Por um lado, continuará a ter Trump à perna, incessantemente a pressionar no sentido de um cumprimento do acordado. E por outro, terá a toda poderosa dupla Diosdado Cabello e Padrino López, que cobiçando a sua posição, a olham de soslaio, pois estão cientes de que ela não é o modelo de uma fidelidade à causa. Se Delcy foi capaz de entregar Maduro no passado recente, será bem capaz de os entregar também a eles num futuro próximo – se tal for necessário para se manter no poder.

Segundo o The New York Times (NYT), a atual “presidente” venezuelana recebeu assistência militar dos EUA para recuperar um petroleiro ligado a um seu rival político. O Pentágono afirmou que a Guarda Costeira e a Marinha dos EUA intercetaram o navio fora das águas territoriais do Caribe na sexta-feira passada e forçaram-no a regressar ao porto. O navio transportava aproximadamente 500.000 barris de petróleo pertencentes a uma empresa ligada ao bilionário colombiano Alex Saab, sediado em Caracas. A cooperação de Rodriguez com o Pentágono aparenta ser inesperada, dado que quando os EUA lançaram ataques aéreos sobre Caracas, ela prontamente acusara Washington de querer controlar os recursos petrolíferos da Venezuela. De momento, refere o NYT, os EUA estão efetivamente a colaborar com Delcy na consolidação do controlo sobre o país e as suas abundantes riquezas naturais.

Diosdado Cabello e Vladimir Padrino López são os “donos e senhores” do aparelho repressivo. Controlam inclusivamente as milícias revolucionárias armadas também designadas por “coletivos”. Estando o poder real na mão destes não parece, de todo, que esta novela tenha chegado ao seu ápice. A procissão ainda vai no adro e antes que se chegue à tão almejada transição democrática, muita água irá passar debaixo da ponte.

A História mostra-nos que democracias só sobrevivem quando controlam recursos estratégicos, dispõem de capacidade de defesa e constroem alianças a partir de propósitos de força, não apenas de afinidades morais. Sem nada disto, Caracas tem sido uma presa fácil para os interesses de Trump.

O futuro da Venezuela não será salvo pelo petróleo; esperemos que esta nova forma de colonização económica norte-americana não descambe – por sua cabal conveniência – na perpetuação de uma ditadura em alternativa a uma autêntica transição democrática. 

O ditador saiu. Porém, a ditadura ficou. Até quando? A resposta reside na vontade e na capacidade do povo venezuelano, mas também e a milhares de quilómetros, em Washington D. C., na Casa Branca.

Major General//Escreve no SAPO sempre à sexta-feira