A vida de Portugal como potência do andebol está numa fase inicial. A seleção desenvolve-se mais a cada dia e, de tanto crescer, a roupa de outsider deixou de lhe servir. Agora, veste-se como quem aspira a uma medalha. Quando as dimensões desse fato também deixarem os pés de fora, talvez passe a usar algo que identifique os Heróis do Mar como candidatos a um título.

Desde 2020, quando começou um ciclo de quatro presenças consecutivas em Europeus, muito mudou e para melhor. Contra a Roménia, Miguel Neves, lateral do Saint-Raphael, fez o primeiro jogo numa grande competição e a naturalidade com que colocou uma rosca a contornar o guarda-redes Ionut Iancu demonstra que Portugal atingiu uma dimensão que lhe permite ter recursos valiosos na reserva.

A seleção nacional pareceu ser autogerida num sistema sem divisão entre os que defendem e os que atacam. Até Martim Costa teve que ajudar dos dois lados. Foi com esta variabilidade que Portugal conseguiu entrar no ritmo após a Roménia ter partido na frente (4-2). Ter a baliza a zero durante seis minutos também ajudou.

Para chegar ao intervalo com estrondosos 23 golos marcados (e apenas 15 sofridos), Portugal não deixou nada por mostrar. Miguel Neves marcou com a tal trivela de mão, Diogo Branquinho e Francisco Costa puseram em ação uma jogada aérea e o caminho para os pivôs também foi muitas vezes desentupido. Tudo isto com Martim Costa a entrar apenas a meio da primeira parte.

Não nos deixemos enganar pelo polo da seleção que vestiu na estreia dos Heróis do Mar na fase de grupos do Europeu de andebol. Paulo Jorge Pereira é, na verdade, um agente duplo. Se a Roménia, por acaso, tivesse mais força nas tenazes, a culpa era do treinador que, quando vira a casaca, orienta o Dínamo Bucareste, entidade empregadora de seis jogadores do primeiro adversário de Portugal na competição. No fundo, Paulo Jorge Pereira teve camaradas a digladiarem-se pelo estatuto de melhores amigos do treinador. Os portugueses claramente ganharam a disputa.

A única preocupação no arranque de segunda parte foi a lesão de Martim Costa. Após marcar, pisou o pé do guarda-redes e torceu o tornozelo. A apreensão gerada diminuiu quando Francisco Costa marcou nas redondezas dos 0º, levando o irmão à loucura no banco. Na disputa familiar, Martim chegou aos 60 golos em Europeus e ultrapassou o pai, Ricardo, na lista de melhores marcadores em Europeus. Se o andebol português tivesse um apelido seria Costa.

Ricardo Brandão e Gabriel Cavalcanti juntaram-se aos 12 jogadores de campo que já tinham sido utilizados na primeira parte. Para alívio dos mais alarmados, Martim Costa conseguiu voltar ao jogo. No entanto, o prémio de melhor em campo escapou-lhe para o irmão, autor de nove golos.

Roménia e Macedónia do Norte são uma cadeira de introdução à luta com gigantes. Portugal já se pode considerar um sobredotado pronto a passar ao próximo nível. As mãos parecem estar bem quentes para os tubarões que se seguem depois destes dois peixinhos.