Elon Musk providenciou acesso gratuito do Starlink, a rede de satélites da empresa aeroespacial SpaceX que fornece internet em praticamente todo o mundo, ao Irão. É preciso ter um dispositivo — um terminal de satélite — para se poder conectar. “É apenas ligar e conectar. Apenas é preciso colocá-lo em qualquer lugar que tenha acesso a vista limpa do céu”, descreveu à imprensa internacional Ahmad Ahmadian, diretor-executivo da organização Holistic Resilience que ajuda os iranianos a conectarem-se à internet.

Muitos iranianos não têm esse dispositivo, mas alguns grupos mais organizados da oposição sim, tendo em conta os apagões passados. E estava preparada para is usar. Através do Starlink, a oposição tem conseguido partilhar imagens para fora do Irão. As imagens de vários cadáveres nas redondezas de uma morgue no sul do Teerão, que chocaram o mundo, terão sido divulgadas ao mundo graças à rede de satélites de Elon Musk.

Citado pela ABC News, Mehdi Yahyanejad, líder da organização iraniana Net Freedom Pioneers, descreve que o Starlink foi “crucial” e que a associação que chefia tem conseguido que alguns dispositivos entrem clandestinamente dentro do Irão: “Mostraram algumas centenas de corpos no chão e isso foi divulgado por causa do Starlink. Acho que esses vídeos mudaram o entendimento do que está acontecer”. 

Durante os protestos contra o regime, rua perto de morgue em Teerão enche-se de cadáveres

Estima-se que cerca de 50 mil terminais do Starlink estejam atualmente em território iraniano, se bem que o regime tenha proibido o uso desses equipamentos durante o ano passado e tente punir por lei a sua utilização. Ainda assim, estes dispositivos não eram propriamente um grande problema para o regime antes dos protestos — eram mais ou menos tolerados, tal como o uso de VPNs, que permite o acesso a sites internacionais que o regime iraniano censura.

Muitos iranianos tiveram acesso aos terminais através de redes clandestinas que passam por países como os Emirados Árabes Unidos, o Iraque, a Arménia e o Afeganistão. Em declarações ao New York Times, Ahmad Ahmadian afirmou que custa pelo menos 700 dólares (aproximadamente 603 euros) ter acesso a um dispositivo Starlink. Os dissidentes do regime adquiriram alguns, assim como alguns iranianos mais ricos que gostam de ter acesso a alguns sites e redes sociais proibidos pelo governo.

Essa tolerância que o governo do Irão demonstrou em relação ao Starlink acabou oficialmente no final de dezembro, quando começaram os protestos antigovernamentais que já se prologam há semanas. O regime começou a recorrer a técnicas de interferência para tentar torná‑los inoperacionais. Porém, essas tentativas nem sempre funcionam, uma vez que os dispositivos estão conectados a uma rede de satélites própria.