Uma equipa de cientistas concebeu o mapa mais detalhado até à data do terreno oculto sob o vasto manto de gelo que cobre a Antárctida, revelando uma paisagem exuberante composta por montanhas, desfiladeiros, vales e planícies, ao mesmo tempo que identifica, pela primeira vez, dezenas de milhares de colinas e outras formações menores.

O estudo, publicado esta quinta-feira na revista Science, foca-se na chamada “​meso-escala” — formações geológicas entre dois e 30 quilómetros de extensão — que escapavam sistematicamente à detecção nos rastreios anteriores.

Para cartografar a totalidade do continente, incluindo zonas anteriormente inexploradas, os investigadores recorreram às mais recentes observações de satélite de alta resolução e a um método inovador designado por “análise de perturbação do fluxo de gelo”.

Duncan Young, geofísico que comenta o estudo na mesma edição da Science, recorre a uma analogia visual para explicar a técnica: seria algo como verter xarope sobre um bolo irregular, em que a forma como o líquido escorre à superfície revela onde estão os “grumos”, ou seja, os altos e baixos da massa subjacente. Esta abordagem permitiu corrigir a “suavização” artificial criada pelos métodos tradicionais, que tendiam a apresentar o leito rochoso como sendo muito mais plano do que é na realidade.

Um conhecimento aprofundado da paisagem deste leito rochoso subglacial poderá ser determinante para as previsões relativas ao recuo do manto de gelo da Antárctida provocado pelas alterações climáticas. Investigações anteriores já tinham indicado que terrenos acidentados, como encostas escarpadas e cumes montanhosos, podem abrandar este recuo, agindo como travões naturais.

“Dispor do mapa mais rigoroso da configuração do leito da Antárctida é crucial, uma vez que a forma do leito exerce um controlo importante sobre a fricção que actua contra o fluxo do gelo. Precisamos de incluir este factor nos modelos numéricos utilizados para projectar a rapidez com que o gelo da Antárctida fluirá para o oceano, derreterá e contribuirá para a subida global do nível do mar”, explica o glaciologista Robert Bingham, da Universidade de Edimburgo, um dos coordenadores do estudo, citado pela Reuters.


Precisão sem precedentes

Os investigadores conseguiram mapear o terreno subglacial com uma precisão inédita. A título de exemplo, identificaram mais de 30 mil colinas anteriormente desconhecidas, definidas como protuberâncias do terreno com, pelo menos, 50 metros de altura.

Esta nova clareza permitiu até corrigir velhos dados geográficos: o estudo revela que o gelo mais espesso do mundo não reside na Bacia do Astrolábio, como se pensava, mas num canhão sem nome na Terra de Wilkes, onde atinge a profundidade abissal de 4757 metros.

Outro caso paradigmático é o da corrente de gelo Recovery, na Antárctida Oriental: onde os mapas antigos mostravam um vale amplo e liso, a nova análise expõe uma topografia complexa e rugosa, o que altera significativamente os cálculos sobre a velocidade de deslizamento do gelo nessa região crítica.

“Todos os continentes contêm, em si mesmos, uma gama de paisagens muito díspares, desde imponentes cadeias montanhosas a imensas planícies. A paisagem oculta da Antárctida também alberga estes vastos extremos”, observa Robert Bingham. “É tudo menos monótona.”

Dimensão impressionante

Tradicionalmente, os cientistas mapeavam a paisagem utilizando radares em aviões, mas esses levantamentos deixavam frequentemente lacunas de cinco ou dez quilómetros entre si, por vezes até de 150 quilómetros. O novo método, segundo a autora principal Helen Ockenden, permite “dizer como deve ser a paisagem sob o gelo em todo o continente, incluindo em todas essas lacunas”.

O método utilizado neste novo estudo, explica a glaciologista do Institut des Géosciences de l’Environnement, em França​, “é realmente entusiasmante porque nos permite combinar a matemática do fluxo do gelo com observações de satélite de alta resolução da superfície”. Assim, refere, “ganhamos realmente uma ideia muito mais completa de como todas as características da paisagem se interligam.”

A dimensão da Antárctida, recorde-se, é impressionante: é cerca de 40% maior do que a Europa, 50% maior do que os Estados Unidos e ocupa sensivelmente metade da área de África.

O manto de gelo da Antárctida constitui a maior massa de gelo da Terra e retém cerca de 70% da água doce do planeta. A sua espessura média está estimada em cerca de 2,1 quilómetros, atingindo uma espessura máxima agora revista de quase 4,8 quilómetros.

Um “mapa do tesouro” para o futuro

Contudo, a Antárctida nem sempre esteve coberta de gelo. As suas características subglaciares foram inicialmente esculpidas antes de o continente adquirir o seu revestimento gelado, há mais de 34 milhões de anos, tendo sido posteriormente modificadas pela dinâmica do manto de gelo. Outrora ligada à América do Sul, a Antárctida separou-se devido ao processo de tectónica de placas.

O novo mapa revela agora uma paisagem repleta de diversidade. “Possivelmente, o tipo de paisagem que muitas pessoas conhecerão menos é o dos ‘planaltos dissecados por vales glaciares profundos’. Posso garantir que é muito familiar para os escoceses, mas é também uma paisagem comum na Escandinávia, no norte do Canadá e na Gronelândia”, afirma Robert Bingham.

Os investigadores notaram ainda um dado curioso: até agora, a superfície de Marte estava mais bem cartografada do que o terreno subglacial da Antárctida.

A equipa espera que o mapa sirva para afinar os modelos utilizados para projectar a futura subida do nível do mar e as previsões emitidas pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês), que fornece aos governos dados para moldar as políticas climáticas.

Como sublinha Duncan Young, este trabalho funcionará como um “mapa do tesouro” para futuras missões, permitindo aos cientistas direccionar os dispendiosos radares aéreos para as anomalias agora detectadas, em vez de voarem às cegas sobre a imensidão branca. “Podemos agora identificar melhor onde a Antárctida necessita de levantamentos de campo mais detalhados e onde tal não é necessário”, conclui Bingham.