A startup da investigadora Ângela Relógio, a TimeTeller, venceu o Prémio dos Fundadores de Hamburgo 2025, que se soma a outros galardões conquistados pela empresa responsável por medir o ritmo circadiano individual ao nível molecular.

“O principal objectivo científico é medir de forma precisa o ritmo circadiano individual ao nível molecular”, explicou Ângela Relógio, também professora na Faculdade de Medicina de Hamburgo e especialista em medicina circadiana e biologia de sistemas.

O ritmo circadiano é o nosso ritmo de 24 ao longo de horas, que regula a hora de quase todos os processos celulares, fisiológicos e comportamentais do nosso corpo. “Do ponto de vista prático, o objectivo é usar essa informação para determinar o melhor horário para administrar tratamentos, aumentando a eficácia e reduzindo efeitos secundários, em especial em pacientes com cancro, onde os efeitos secundários podem ser enormes”, apontou.

A TimeTellers nasceu a partir de mais de uma década de investigação académica na área dos ritmos circadianos, da oncologia e da medicina de sistemas. “Ao longo do meu trabalho científico, tornou-se mais evidente que o relógio interno, ou o biorritmo de cada pessoa influencia fortemente a eficácia e a toxicidade de tratamentos médicos, sobretudo em oncologia”, adiantou a investigadora portuguesa.

A motivação inicial, contou à agência Lusa, foi transformar esse conhecimento científico numa solução prática e acessível que pudesse melhorar a vida dos pacientes e apoiar decisões clínicas.

A tecnologia da TimeTeller baseia-se num teste de saliva simples e não invasivo. A partir da saliva, é analisada a expressão de genes ligados ao relógio biológico interno (o chamado relógio circadiano), quantificando o ARN desses genes. Com recurso a modelos matemáticos e inteligência artificial, é possível determinar como funciona o ritmo interno de cada pessoa.


“Esta informação permite indicar qual o melhor horário para administrar um tratamento médico, de modo a aumentar a sua eficácia e reduzir efeitos secundários. Embora a nossa aplicação inicial seja na oncologia, estamos também a desenvolver e a testar a tecnologia noutras áreas, como a doença de Parkinson, a saúde da mulher, o desporto e a longevidade”, revelou Ângela Relógio.

Para além da medicina, a tecnologia pode “ajudar a identificar os melhores horários para actividades do dia-a-dia”, como “a exposição à luz, o sono, as refeições ou o exercício físico”, e quem sabe, “até apoiar as selecções nacionais portuguesas a encontrar os melhores horários de treino e optimizar o desempenho nas próximas competições”.


A TimeTeller recebeu do Prémio de Fundadores de Hamburgo (Hamburger Gründerpreis 2025), um “reconhecimento muito importante, tanto a nível pessoal como para a equipa”, confessou Ângela Relógio. “Representa uma validação externa de que a TimeTeller tem relevância científica, médica e económica, e reforça a confiança no potencial de impacto da empresa”, disse.

A TimeTeller encontra-se actualmente disponível no mercado com reembolso através da Techniker Krankenkasse, a maior seguradora de saúde da Alemanha, com mais de 12 milhões de segurados, acrescentou ainda a investigadora. “Paralelamente, estamos a lançar ainda este mês a TimeTeller para clientes privados, com um foco forte na área da longevidade, ampliando o acesso à tecnologia para além do contexto clínico tradicional”, sustentou.

Ao longo dos últimos anos, a inovação da TimeTeller foi reconhecida por vários prémios e distinções, incluindo o Gründungspreis+, do Ministério Federal Alemão da Economia, entre outros.