Depois de terem invadido e apreendido as instalações da sede da agência da ONU que presta assistência aos refugiados palestinianos, a UNRWA, no final do ano passado, as autoridades israelitas começaram nesta terça-feira a demolir estes edifícios em Jerusalém Leste.
Cercadas pelas forças israelitas, escavadoras demoliram vários edifícios grandes e outras estruturas menores dentro do complexo da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Médio Oriente (UNRWA, na sigla original), onde dezenas de funcionários da agência trabalharam até ao final do ano passado.
O porta-voz da UNRWA, Jonathan Fowler, disse à Reuters que as forças israelitas entraram no complexo por volta das 7h (menos duas horas em Lisboa), expulsaram os guardas de segurança e, em seguida, trouxeram escavadoras para começar a demolir os edifícios no interior.
“É um ataque sem precedentes contra a UNRWA e as suas instalações e também constitui uma grave violação do direito internacional e dos privilégios e imunidades das Nações Unidas”, afirmou Fowler.
Em Dezembro, o comissário-geral da UNRWA, Philippe Lazzarini, havia denunciado que a polícia israelita, acompanhada por funcionários municipais, forçou a entrada nas instalações, cortando todas as comunicações e apreendendo mobiliário, computadores e outros equipamentos.
“A bandeira da ONU foi retirada e substituída por uma bandeira israelita”, denunciou a ONU, acusando Israel de “mais uma violação do direito internacional”.
A UNRWA, que tem sido acusada pelas autoridades israelitas de empregar funcionários palestinianos ligados ao Hamas (acusações que a agência nega), ou mesmo de usar manuais escolares que denigrem a imagem do Estado de Israel, foi obrigada a desocupar instalações e a cessar muitas das suas operações, depois de o Parlamento israelita ter aprovado uma lei que a proibiu de funcionar na Faixa de Gaza, Cisjordânia ocupada e Jerusalém Leste.
Em Outubro, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) declarou que Israel não ofereceu provas da acusação de que uma parte significativa das pessoas que fazem parte do staff da UNRWA pertencessem ao Hamas.
“Israel há muito tempo tenta fechar a agência, alegando que perpetua o conflito ao continuar a conceder o estatuto de refugiado aos descendentes de palestinianos”, sintetiza o jornal Times of Israel, que revela que o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, um dos mais radicais do Governo de Benjamin Netanyahu, foi assistir às demolições, afirmando tratar-se de “um dia importante para a soberania em Jerusalém”.
“Hoje, estes apoiantes do terrorismo estão a ser expulsos daqui, com tudo o que construíram. É isto que será feito a todos os apoiantes do terrorismo”, afirmou o ministro de extrema-direita.
Ben-Gvir postou um vídeo na rede social X em que se vê uma escavadora atrás de si a destruir um pavilhão, enquanto afirma que “é um dia histórico, um feriado” para Israel (que no início deste ano proibiu a actuação de 37 organizações humanitárias internacionais em Gaza, incluindo os Médicos Sem Fronteiras).
A France 24 cita um comunicado do ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Sa’ar, em que este afirma que “a UNRWA-Hamas já tinha cessado as suas operações neste local”, onde já não havia “pessoal ou actividade da ONU”. Como tal, “o complexo [em Jerusalém] não goza de qualquer imunidade” e a sua apreensão pelas autoridades israelitas “foi realizada em conformidade com a legislação israelita e internacional”.
Citada pela agência de notícias palestiniana Wafa, a rede de ONG palestinianas PNGO considerou que “a demolição e a invasão, acompanhadas por uma demonstração de força do Exército israelita, fazem parte das tentativas contínuas de desmantelar as operações da UNRWA e eliminar o direito de regresso dos refugiados palestinianos [aos territórios ocupados], garantido pela Resolução 194 da ONU”.
A UNRWA foi criada após o estabelecimento do Estado de Israel para os palestinianos que deixaram as suas casas, por violência, pressão ou medo, naquilo que é conhecido como a Nakba (a catástrofe), e presta apoio aos refugiados e aos seus descendentes em todo o Médio Oriente (além de Jerusalém Leste, Cisjordânia e Gaza tem ainda operações na Síria, Líbano e Jordânia).
Alguns ex-funcionários da UNRWA afirmaram que as estruturas demolidas na terça-feira eram utilizadas para armazenar ajuda humanitária destinada à Cisjordânia e à Faixa de Gaza.
Na semana passada, o secretário-geral da ONU, António Guterres, já havia acusado Israel de entrar de forma ilegal num centro de saúde da agência, obrigando ao encerramento temporário da unidade, que “atende diariamente centenas de doentes refugiados palestinianos” e que representa para muitos deles “o único acesso a cuidados de saúde primários”.