Expressões como stress hídrico ou crise hídrica já não chegam para definir a realidade de hoje no domínio da água na Terra. Um relatório da ONU declara, esta terça-feira, “o início de uma era de falência hídrica global”, desafiando os líderes mundiais a facilitar uma “adaptação honesta e baseada na ciência a uma nova realidade”. É preciso uma reformulação fundamental da agenda global da água, uma vez que os danos irreversíveis já levaram muitas bacias hidrográficas a um ponto sem retorno, avisam os cientistas, que acrescentam: “Declarar falência não significa desistir, mas sim começar de novo.”

Imagine-se que a água é dinheiro, um exercício não muito exigente, tendo em conta que todos temos consciência do seu valor. Segundo os cientistas da ONU, que recorrem a termos financeiros para fazer o diagnóstico sobre o estado da água no planeta, muitas sociedades não só gastaram mais do que a sua “receita” anual renovável de água proveniente de rios, solos e neve acumulada, como também esgotaram as “poupanças” de longo prazo em aquíferos, glaciares, zonas húmidas e outros reservatórios naturais.

“Isso resultou numa lista crescente de aquíferos compactados, terrenos abatidos em deltas e cidades costeiras, lagos e zonas húmidas desaparecidos e biodiversidade irreversivelmente perdida”, constata o comunicado de imprensa sobre o intimidante relatório da ONU. Ou seja, é chegada a altura de declarar “o início de uma era de falência hídrica global” e de acordar os líderes mundiais para uma urgente mudança de estratégia.

Uma verdade incómoda

“Este relatório revela uma verdade incómoda: muitas regiões estão a viver acima das suas possibilidades hidrológicas e muitos sistemas hídricos críticos já estão falidos”, afirma o autor principal, Kaveh Madani, director do Instituto para a Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), o think tank da ONU sobre a água.

Actualmente, notam os cientistas, reunimos as condições perfeitas para a bancarrota: o esgotamento crónico das águas subterrâneas, a alocação excessiva de água, a degradação da terra e do solo, a desflorestação e a poluição, tudo isto agravado pelo aquecimento global.

No relatório sobre Falência hídrica global: vivendo além dos nossos meios hidrológicos na era pós-crise, argumenta-se que os termos familiares “stress hídrico” e “crise hídrica” já não reflectem a realidade actual em muitos lugares: é antes “uma condição pós-crise marcada por perdas irreversíveis do capital hídrico natural e pela incapacidade de regressar aos níveis históricos”. Um ponto sem retorno, portanto.




Mapa de risco da escassez de água
UNI-INWEH 2026 Report 2026

O documento, com mais de cem páginas, descreve uma realidade que ultrapassa o discurso habitual de “crise da água”, em que as bases ecológicas que sustentavam rios, lagos, aquíferos e glaciares já não permitem o regresso ao passado, mesmo que o mundo reduza emissões e melhore a gestão.

“Em muitas regiões, o velho normal desapareceu. O planeta está a viver além dos seus meios hidrológicos”, lê-se no relatório. Para os autores, falar em “crise” já não faz sentido. A palavra sugere um choque temporário, após o qual os sistemas voltariam ao normal. Mas os dados apontam para mudanças irreversíveis.

Madani avisa: “Milhões de agricultores estão a tentar cultivar mais alimentos a partir de fontes de água cada vez mais escassas, poluídas ou em vias de desaparecimento. Sem uma transição rápida para uma agricultura inteligente em termos de água, a escassez irá alastrar-se rapidamente.”




A imagem de capa do relatório divulgado esta terça-feira
UNI-INWEH 2026 Report 2026

O gritante tom de catástrofe deste relatório e dos dados demolidores que apresenta (ver caixa) é atenuado, porém, com um sussurro de ânimo. “Apesar dos seus alertas, o relatório não é uma declaração de desesperança”, assegura Madani. “É um apelo à honestidade, ao realismo e à transformação. Declarar falência não significa desistir, mas sim começar de novo. Ao reconhecer a realidade da falência hídrica, podemos finalmente tomar as decisões difíceis que protegerão as pessoas, as economias e os ecossistemas. Quanto mais adiarmos, maior será o défice.”

Investir no domínio falido

A água, como o dinheiro, deve ser “usada como um catalisador para acelerar a cooperação entre os Estados-membros da ONU”, recomendam os cientistas, que falam também na necessidade de reconhecer o estado de falência e as restrições necessárias para cumprir compromissos climáticos, de biodiversidade e de ordenamento do território.

Para sair da bancarrota também é preciso dinheiro, avisa a ONU. Mais concretamente, uma nova agenda global da água que “eleve as questões hídricas nas negociações sobre clima, biodiversidade e deserto, financiamento do desenvolvimento e processos de construção da paz”. Por fim, é preciso vigiar esta ameaçadora pobreza com as ferramentas mais actuais e adequadas, o que significa monitorizar “a falência hídrica em estruturas globais, usando observação da Terra, Inteligência Artificial (IA) e modelação integrada”.




Uso global da água doce
UNI-INWEH 2026 Report 2026

“Investir em água é também investir na mitigação das alterações climáticas, da perda de biodiversidade e da desertificação. A água não deve ser tratada apenas como um sector a jusante afectado por outras crises ambientais”, refere ainda a nota de imprensa, citando as prioridades enumeradas por Kaveh Madani.

Não é só água

Para os cientistas da ONU, a água é uma questão que ultrapassa as fronteiras políticas tradicionais. “Pertence ao norte e ao sul, à esquerda e à direita. Por essa razão, pode servir como uma ponte para criar confiança e unidade entre as nações e dentro delas. No mundo fragmentado em que vivemos, a água pode tornar-se um poderoso foco de cooperação e de alinhamento da segurança nacional com as prioridades internacionais”, anunciam, com um sinal de optimismo.





UNI-INWEH 2026 Report 2026

Porém, o relatório sublinha que “a falência hídrica não é apenas um problema hidrológico, mas uma questão de justiça com profundas implicações sociais e políticas que requerem atenção ao mais alto nível do governo e da cooperação multilateral”. E constata: “Os encargos recaem desproporcionalmente sobre os pequenos agricultores, os povos indígenas, os residentes urbanos de baixos rendimentos, as mulheres e os jovens, enquanto os benefícios do uso excessivo muitas vezes revertem para os actores mais poderosos.”

“A falência hídrica está a tornar-se um factor de fragilidade, deslocamento e conflito”, resume o subsecretário-geral da ONU, Tshilidzi Marwala, reitor da UNU. “Gerir esta falência de forma justa — garantindo que as comunidades vulneráveis sejam protegidas e que as perdas inevitáveis sejam partilhadas equitativamente — é agora fundamental para manter a paz, a estabilidade e a coesão social.”

“A gestão da falência requer honestidade, coragem e vontade política”, acrescenta Madani. “Não podemos reconstruir glaciares desaparecidos ou reabastecer aquíferos extremamente compactados. Mas podemos evitar mais perdas do nosso capital natural remanescente e redesenhar instituições para viver dentro de novos limites hidrológicos.” Um pequeno sopro de alento.

Este relatório dos cientistas da ONU é publicado antes da reunião de alto nível no final de Janeiro, em Dakar, no Senegal, para preparar a Conferência da ONU sobre a Água, que tem lugar de 2 a 4 de Dezembro nos Emirados Árabes Unidos. Não levará boas notícias, mas, tal como para uma empresa em falência, também inclui um caderno de encargos e acções para tirar a Terra desta situação de pobreza ameaçadora.