O Presidente norte-americano, Donald Trump, justificou hoje a criação do Conselho de Paz, uma organização destinada a pôr fim aos conflitos internacionais, acusando a ONU de nunca o ter ajudado a resolver qualquer guerra.

“Acabámos de criar o Conselho de Paz, que penso que será incrível. Gostava que a ONU pudesse fazer mais. Gostava que não precisássemos de um Conselho de Paz, mas, com todas as guerras que resolvi, a ONU nunca me ajudou em nenhuma delas”, declarou o líder norte-americano, numa conferência de imprensa na Casa Branca para assinalar o primeiro aniversário do seu segundo mandato.

Apesar das críticas, Trump afirmou que quer “permitir que a ONU continue a existir porque o seu potencial é demasiado grande”.

Na próxima quinta-feira está previsto que presida à cerimónia de fundação do Conselho de Paz, durante o Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça.

Inicialmente concebido para supervisionar a implementação do cessar-fogo na Faixa de Gaza, Trump quer “expandir os seus poderes e competir com o Conselho de Segurança da ONU”.

Os países que desejem um lugar permanente no Conselho da Paz deverão contribuir com cerca de mil milhões de dólares (850 milhões de euros), embora o líder norte-americano seja o único com poder de veto.

Dezenas de líderes internacionais foram convidados para integrarem o Conselho de Paz, mas o Presidente francês, Emmanuel Macron, recusou, o que levou Trump a ponderar impor tarifas sobre vinhos e champanhes franceses. “Não, não faria isso. Porque, sabem, o Emmanuel não vai ficar lá muito tempo. É meu amigo. É bom tipo. Gosto do Macron, mas não vai ficar lá muito tempo, como sabem”, observou.

Nos últimos dias, Trump ameaçou impor tarifas à França e aos outros países europeus que se manifestaram em defesa da Gronelândia, que Washington deseja anexar.

Macron, cujo mandato termina em 2027, propôs ao homólogo norte-americano que se realizasse uma cimeira do G7 em Paris na próxima quinta-feira, para a qual poderia convidar também representantes da Rússia, da Ucrânia, da Dinamarca e da Síria. Nesta terça-feira, na sala de imprensa da Casa Branca, Trump declinou a proposta.


“Vocês vão descobrir”

Donald Trump publicou na sua rede social Truth Social uma mensagem privada de Macron, na qual este o convidava a fazer uma escala em Paris depois de participar no Fórum de Davos, para abordar várias frentes de crise e conflito, incluindo a Gronelândia.

“Estamos em total acordo sobre a questão da Síria. Podemos fazer grandes coisas no Irão. Não percebo o que está a fazer na Gronelândia”, escreveu o líder francês na mensagem revelada por Trump.

Sobre as suas ambições no território autónomo dinamarquês, rejeitadas pelos principais aliados europeus de Washington na NATO e pelas autoridades autónomas da ilha, o líder da Casa Branca argumentou nesta terça-feira que, quando falar com os representantes de Nuuk, “ficarão encantados” com o seu projecto.

Questionado sobre até onde poderá ir para tomar a Gronelândia, Trump respondeu: “Vocês vão descobrir”.

O Presidente dos Estados Unidos afirmou acreditar que o seu projecto será “muito positivo para todos”, deixando também a mensagem para os países da Aliança Atlântica de que “ninguém fez mais pela NATO” do que ele próprio.

Ainda sobre a Gronelândia, desvalorizou a possibilidade de retaliação por parte da Europa, onde vários líderes nacionais e da União Europeia (UE) sugeriram que poderiam optar por suspender o acordo comercial assinado com Washington entre Junho e Agosto de 2025 ou utilizar a bazuca comercial contra os EUA.

“Olhem, eles querem [o acordo comercial]. Eles precisam mesmo deste acordo connosco. Precisam mesmo. Eles lutaram muito para o conseguir, por isso duvido, mas veremos o que acontece”, comentou, antes da sua viagem esta noite para Davos, onde são aguardados encontros com líderes europeus e onde espera que “as coisas corram muito bem”.

Paz, guerra e Síria

Durante 80 minutos, em que se dedicou a apresentar o que considera serem os seus feitos no primeiro ano do segundo mandato, Donald Trump voltou a afirmar que resolveu oito guerras e reivindicou para si o Nobel da Paz de 2025, que lhe foi oferecido pela vencedora venezuelana María Corina Machado, apesar de o comité norueguês não ter reconhecido o gesto.


“Perdi muito respeito pela Noruega e acredito firmemente que a Noruega controla o prémio Nobel”, declarou, um dia depois de ter escrito ao primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Store, dizendo que não se sentia “obrigado a pensar apenas na paz” após ter sido excluído do prémio Nobel, que é atribuído por um comité nomeado pelo parlamento.

“Vocês precisam de compreender que acabei com oito guerras”, repetiu o Presidente norte-americano aos jornalistas na Casa Branca, quando questionado sobre a carta ao líder norueguês, adicionando que não o fez pelo Nobel, mas para “salvar muitas vidas”, e que é isso que o move para “resolver” a guerra na Ucrânia.

O líder republicano deixou ainda uma palavra sobre a Síria, dirigindo o seu apoio ao Presidente Ahmed al-Sharaa, cujas tropas governamentais têm estado envolvidas nas últimas semanas em confrontos com as Forças Democráticas Sírias (SDF, na sigla em inglês), lideradas pelos curdos e aliadas de Washington no combate ao grupo terrorista Estado Islâmico.

“Está a trabalhar muito o Presidente da Síria. Um homem forte, um homem duro, com um historial bastante brutal. Mas não se pode colocar um santo lá para fazer o trabalho”, afirmou sobre al-Sharaa, que hoje anunciou uma trégua temporária com as SDF, durante a qual será negociada a integração das regiões controladas pela aliança dos curdos-sírios e dos seus combatentes no Estado central.