A Europa deixou agora de “rastejar” ao impor-se perante os EUA, que começam a perceber que existem “custos próprios” para as tentativas de “enxovalhar e humilhar” o velho continente. Esta atitude que levou o Presidente Donald Trump a recuar na decisão anunciada de taxar os países europeus que se opuseram aos interesses norte-americanos na Gronelândia. Ainda que já não seja encarada como uma “potência política”, a Europa tem ainda “armas com que pode jogar” a nível económico – e essa é uma das duas linguagens “musculadas” que Trump não ignora.

Com promessas de colaboração com as Nações Unidas, nasceu na manhã desta quinta-feira, na Suíça, o Conselho de Paz – uma entidade proposta pelos Estados Unidos para promover a estabilidade e garantir uma paz duradoura em zonas do mundo em que existem guerras e outros conflitos. Donald Trump tem a ambição de ser presidente vitalício da instituição. No discurso que antecedeu as assinaturas dos países que fazem parte deste Conselho de Paz, Trump mandou alguns recados à ONU. Mas tratou de desfazer alguns receios de que o objetivo desta nova entidade seja para acabar com as Nações Unidas e afirmou que a guerra na Ucrânia está perto do fim.

Já no Fórum Económico Mundial, em Davos, o chefe de Estado norte-americano voltou na quarta-feira ao tema da Gronelândia. E acabou o dia a garantir que tem um acordo de princípio com a NATO para ficar com a maior ilha do mundo, território dinamarquês. Por isso, anunciou que, afinal, recuou no anúncio da imposição de novas tarifas até 25% a oito países europeus pelo seu apoio à Dinamarca.

Ouvido no Fórum TSF desta quinta-feira, o professor de economia da Universidade do Porto Rui Henrique Alves lamenta apenas que a Europa não tenha tido “uma atitude de mais força” relativamente às ameaças sucessivas de Donald Trump mais cedo.

“Ele só consegue perceber dois tipos de reações, ambas musculadas: ou de quem tem força militar ou de quem tem força económica”, assinala, apontando que é nesta última categoria que a Europa se encaixa.

Ainda que o velho continente já não seja encarado como uma “potência política”, ainda pode “jogar com as armas que tem a nível económico”.

“Vi com muita satisfação, nos últimos dias, várias declarações de dirigentes europeus no sentido de que não é possível a Europa rastejar mais perante ameaças sucessivas desta Administração norte-americana”, confessa.

E destaca a diferença desta nova atitude europeia em relação ao encontro da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen com o líder norte-americano.

“Desta vez, a atitude seria diferente daquela que nós vimos há uns meses com Von der Leyen a ir ter com Donald Trump ao campo de golfe em que ele jogava, ficar à espera dele e, no fim, assinar um acordo em que os produtos europeus eram um bocadinho menos tarifados do que Donald Trump ameaçava e os produtos industriais americanos entravam na Europa sem qualquer tarifa”, denuncia.

Já Azeredo Lopes, professor da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Porto, afirma que a questão da Gronelândia foi decisiva para mudar a atitude europeia, mas entende que a história “ainda não acabou aqui”.

“Isto foi apenas um pequeno round de uma ação bastante agressiva e hostil contra os europeus que faz com que, muito infelizmente, nós não possamos doravante estar descansados quanto ao nosso flanco ocidental“, alerta.

É, por isso, neste sentido que destaca a importância de os Estados Unidos da América perceberem que existe um “custo próprio” perante as repetidas tentativas de “enxovalhar e humilhar” o velho continente. Ainda que rejeite categoricamente a adoção de uma posição bélica ou hostil, sublinha que, num mundo de fortes “interdependências”, isso nunca pode significar “subserviência” – seja qual for a circunstância.

Por fim, congratula-se igualmente com o fim de uma prática um tanto “irritante”: o “elogio boçal e permanente” a Donald Trump.

“Acreditando-se, aliás, erradamente, que com essa atitude servil e bastante graxista, se iria conseguir acalmar o chefe de Estado norte-americano”, critica.

Está, assim, “na hora de uma Declaração de Independência da União Europeia”. A antiga eurodeputada e ex-secretária de Estado dos Assuntos Europeus é um dos nomes que assina um artigo de opinião, no qual dezenas de vozes europeias se unem para vincar que, numa altura em que a União Europeia enfrenta “desafios sem precedentes” e em que a ordem mundial baseada na ONU “está sob ataque”, a Europa deve apostar numa “autonomia estratégica”.

No Fórum TSF, Margarida Marques adianta que o objetivo deste texto é “despertar a ambição política de ser mais visível a determinação da União Europeia” e explica o que querem dizer por autonomia estratégica.

“A autonomia estratégica não é só competitividade e crescimento económico. É também inovação, é também defesa, é também autonomia energética, é também acesso a matérias-primas, é também diversificação de parceiros na relação comercial e na relação política com a União Europeia”, esclarece.

E completa referindo que tal significa um afastamento em relação aos seus parceiros. Pelo contrário, diz, ao mesmo tempo que se empenha nesta resolução, a União Europeia deve “continuar a defender e aprofundar o multilateralismo”.