“O que é nosso dá sempre um jeito de nos encontrar”, dizem os brasileiros, e assim acredita Isabél Zuaa. Afinal, boiar é a única forma de não nos afogarmos quando as correntes puxam mais forte. Mas quando a maré está a nosso favor, é quase possível manobrar a vida. E depois, puff, somos engolidos por ondas que nunca pensámos que nos pudessem apanhar. É nesse limbo entre o que acreditamos e o que acontece que a vida presta.


 “UAU! E incrível”, reage Isabél Zuaa à nomeação para os Óscares. “A Isabél criança nunca imaginou que isso pudesse acontecer mesmo que no fundo tivesse esse desejo”, diz-nos a portuguesa que se define como atriz, realizadora, escritora e mais umas coisas. “Já fiz muitas personagens com mais incidência, menos incidência, mas ir aos Óscares com a personagem Teresa Victória, uma mulher angolana que estudou em Portugal. Tão forte e tão sensível. É uma grande honra. Juntamente com um elenco incrível, sensível, e muito generoso.”  



Isabél Zuaa conta com uma carreira de mais de uma década que combina cinema, teatro, dança e performance e destaca-se internacionalmente pela sua versatilidade e por papéis aclamados em festivais e prémios de cinema. Em O Agente Secreto – o mesmo filme que valeu um Globo de Ouro a Wagner Moura – interpreta Teresa Victória, uma angolana que está com o marido no Recife, em 1977, depois de ter fugido de uma situação difícil no seu país de origem. A personagem é inspirada numa amiga da mãe de Kleber, que conheceu em criança. “A Isabél interpretou-a de modo fantástico e exemplar”, disse o realizador ao jornal O Globo. “Certamente, será lembrada, por quem assistir ao filme, como uma das grandes personagens.” 





Foto: Helena Cooper


E é precisamente sobre a necessidade de memória que nos fala O Agente Secreto, mas também o trauma de uma época, não só no Brasil como nos países que menciona. “Espero que a mensagem de não cometermos os mesmos erros político/sociais reverbere entre os espectadores. É importante não esquecer, para não repetir”, frisa, num momento em que o mundo – e Portugal – volta a disputar entre a herança e o futuro. “Espero que haja vontade de contar mais histórias de outras Teresas Victórias.” 


Um pouco como Teresa Victória, também Isabél se foi sentindo entre dois mundos. Ou, como já lhe chamou em entrevistas, num não-lugar. A única negra da sua turma na Escola Superior de Teatro e Cinema. A que nunca chegava ao final dos castings, por não representar nem Portugal nem Angola. Filha de mãe angolana e pai da Guiné-Bissau, faz parte da primeira geração da família a nascer cá.  Aos 22 anos cansou-se da falta de mercado e foi para o Brasil – a 15 de março pisará os Óscares, no Dolby Theatre, Los Angeles. A história não é assim tão simples, mas Isabél não lhe nega camadas. Desde a creche que não é mulher de se esconder. 





Foto: Helena Cooper


“Sempre me movi pelos sonhos e desejos de criar coisas que ainda não tinha visto, de forma intuitiva e com propósito”, diz. E sobre a nomeação, de que forma a sua visibilidade nos Óscares pode ajudar a mudar a forma como mulheres negras são vistas e representadas no cinema português e internacional? “Fico feliz que algumas barreiras tenham sido ultrapassadas. Ainda assim há muito a fazer, nomeadamente dramaturgias e personagens profundas, com dimensão e história, sem estereótipos. Mas para mim se alguma menina negra me vir por lá, e se inspirar, já valeu a pena.”


Estas nomeações nos Óscares 2026 marcam um momento histórico para Portugal, sendo a primeira vez que uma atriz nacional estará na cerimónia dos Óscares, em Hollywood. “Pessoal e profissionalmente tenho levado tudo com muita leveza e alegria. Há muitos sonhos a serem concretizados ainda, individualmente e coletivamente.” Atualmente, Isabél está a produzir uma série sobre o período pré-25 de Abril, com uma visão afro centrada a partir do bairro onde cersceu. Como dizia Nina Simone, é dever do artista refletir sobre o seu tempo – especialmente quando viver parece, todos os dias, um exercício de sobrevivência. E talvez por isso, entre o legado que insiste e o amanhã que se imagina, Isabél Zuaa tenha aprendido cedo a boiar.








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