Pode até ser curioso, mas apresentar dificuldade para arrotar não deve ser encarado apenas como uma característica incomum. Por se tratar de um mecanismo fisiológico, essa incapacidade pode estar relacionada à disfunção cricofaríngea retrógrada (DCF-R), um condição subdiagnosticada.

Parte do desconhecimento em relação à doença tem a ver com o fato de que ela é relativamente recente: foi reconhecida de forma oficial somente em 2019. Ainda não há estimativas oficiais sobre quantas pessoas convivem com o problema, mas muitos pacientes relatam ter identificado a disfunção a partir de discussões em grupos e fóruns nas redes sociais.

Dificuldade para arrotar é um sintoma que merece atenção Foto: Aleksandr Rybalko/Adobe Stock

Segundo o otorrinolaringologista Geraldo Santana, ex-presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), muita gente convive com a condição sem saber que se trata de uma disfunção específica.

Por que não conseguir arrotar é o principal sintoma

Durante a alimentação, é esperado que uma certa quantidade de ar seja ingerida junto com a comida. Ao chegar ao estômago, parte desse ar retorna à boca — é justamente o que chamamos de arroto. “Esse excesso de ar volta pelo esôfago até a boca, e isso faz parte de um processo natural, fisiológico”, explica Santana, que também é docente da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

Quando uma pessoa raramente ou nunca arrota, pode caracterizar uma disfunção no esfíncter esofágico, estrutura do sistema digestivo localizada perto da transição entre a garganta e o esôfago.

“O arroto é um mecanismo fisiológico de descompressão do trato digestivo alto, que depende do relaxamento adequado e coordenado do músculo cricofaríngeo”, descreve Luciana Costa, otorrinolaringologista especialista em laringe, disfagia e voz do Hospital Paulista.

Segundo a médica, quando esse relaxamento não acontece, o ar ingerido fica aprisionado no esôfago e no estômago, o que leva a outros sintomas persistentes capazes de comprometer a alimentação, a qualidade de vida e o convívio social do indivíduo.

No Brasil, pacientes criaram inclusive um site dedicado ao tema. Clique aqui para acessar.

Outros indicativos do quadro

Barriga estufada, sensação de ar preso no estômago, pressão no peito e dificuldade para engolir estão entre os sinais mais comuns da disfunção. De acordo com os especialistas, é frequente que eles apareçam ainda na infância ou adolescência, com incapacidade completa ou quase completa de arrotar.

Também são relatados ruídos incomuns na garganta e na região do tórax, que podem gerar constrangimento social. “A dor abdominal e a dificuldade de eliminar os gases podem levar, inclusive, à flatulência excessiva”, afirma Santana.

Para Luciana, embora a condição não esteja associada a doenças graves, pode provocar uma série de impactos físicos e psicossociais. Em parte dos pacientes, há ainda dificuldade para vomitar, o que pode evoluir para fobia, conhecida como emetofobia.

“Esses sintomas podem levar à recusa alimentar e ao isolamento social, impactando de forma significativa a qualidade de vida e favorecendo quadros de ansiedade ou humor deprimido”, explica a especialista.

Como a doença é pouco conhecida, muitos pacientes passam por diversos profissionais e realizam múltiplos exames antes de receber o diagnóstico correto, o que prolonga o impacto funcional e emocional da condição.

“Com esses sintomas, os pacientes costumam procurar um gastroenterologista, mudar a dieta e buscar outros especialistas, menos um otorrinolaringologista. Muitas vezes, nem consideram que se trata de um problema com tratamento”, completa Santana.

O tratamento para a disfunção

Em 2019, quem identificou o músculo cricofaríngeo como a origem do problema e propôs o uso da toxina botulínica (conhecido popularmente como botox) como tratamento foi o médico norte-americano Robert W. Bastian.

O procedimento é minimamente invasivo e consiste em pequenas aplicações da toxina no músculo cricofaríngeo, promovendo o relaxamento da musculatura e permitindo a liberação natural do ar retido. Esse é considerado o tratamento padrão-ouro para a condição.

“O procedimento promove o relaxamento temporário do esfíncter esofágico superior e pode ser realizado por via endoscópica, em centro cirúrgico, ou de forma ambulatorial guiada por eletromiografia, a depender da experiência do otorrinolaringologista e do perfil do paciente”, explica Luciana.

As taxas de sucesso variam, com melhora inicial em cerca de 90% dos casos e alívio sustentado em aproximadamente 70% a 80% dos pacientes por meses ou até anos.

Segundo Santana, mesmo após o término do efeito da toxina, muitos pacientes mantêm a melhora sem necessidade de reaplicação. “É como se o cérebro aprendesse a relaxar automaticamente aquele músculo”, explica.

Em alguns casos, o tratamento é complementado com exercícios respiratórios e acompanhamento médico contínuo, o que ajuda a manter os resultados e reduzir o desconforto no dia a dia.