A piada de Elon Musk, na quinta-feira, no Fórum Económico Mundial, em Davos, ficou aquém do pretendido. Se calhar por faltar à audiência a referência cinéfila para perceber o trocadilho ou, então, por ninguém ter muita vontade de rir de ou com Donald Trump. Mas a piada do multimilionário, cuja fortuna aumentou 70 mil milhões de dólares desde que o seu amigo ou ex-amigo venceu as eleições em 2024, não deixa de comparar Trump a Hitler, porque em Ser ou Não Ser, Mel Brooks, encarnando o ditador alemão, canta que é um “man of piece”, que soa como homem da paz, mas que é na verdade um “homem de pedaços”.

“Ouvi falar da criação do Conselho da Paz [peace]. E pensei, ‘será que é P-I-E-C-E?’” disse Musk, soletrando a última palavra em voz alta. “Um pedacinho da Gronelândia. Um pedacinho da Venezuela.” O homem mais rico do mundo para a Forbes em 2025 (342 mil milhões de dólares) é um dos que ambiciona construir “cidades libertárias” na Gronelândia e que, para lá da piada, até quer ele próprio um pedaço da maior ilha do mundo.

Tal como Peter Thiel (que fundou a startup Praxis para desenvolver essa urbe tecnológica), outro dos grandes contribuintes da campanha de Trump, Musk sonha com o terreno livre para aplicar as suas ideias sem constrangimentos de Estados e de leis: sem democracias nem democratas para chatear, sem leis ambientais a coarctar a inspiração e sem leis laborais a travar o progresso. O impacto das alterações climáticas é visto por estes multimilionários como oportunidade única que não pode ser desperdiçada.


“A Gronelândia oferece abundante potencial energético, metais e minerais estratégicos e proximidade a importantes centros populacionais dos EUA — tudo num ambiente altamente controlável”, sintetizava Tom Dans, antigo membro da Comissão de Investigação do Árctico dos EUA, citado pelo New York Post.

Ken Howery, o homem que Trump nomeou embaixador na Dinamarca, é o homem que fundou a PayPal com Thiel e detém com este o Founders Fund, um fundo de investimento que gere em torno de 17 mil milhões de dólares em activos. Howery é também amigo de Musk e um dos grandes defensores da criação destas cidades de alta tecnologia e baixo controlo governamental: plataformas para desenvolver IA, para criar veículos autónomos, comboios de alta velocidade, instalar plataformas para exploração espacial e até micro-reactores nucleares.

Os multimilionários não começaram a olhar para a ilha – hoje uma das três nações do reino da Dinamarca – como território potencial de investimento quando Trump aventou pela primeira vez a hipótese de os EUA adquirirem a Gronelândia ainda no seu primeiro mandato, mas foi a partir daí que o dinheiro começou a fluir com mais intensidade.

Jeff Bezos, Bill Gates e Michael Bloomberg começaram a investir na empresa de exploração mineira norte-americana KoBold Metals que tem feito perfurações com ajuda de inteligência artificial na região de Disko-Nuussuaq, uma área do tamanho do Luxemburgo no lado ocidental da Gronelândia que se pensa ser rico em níquel, cobre, platina e cobalto. Sam Altman, o director-geral da OpenAI investiu na empresa em 2022, através do seu fundo de capital de risco Apollo Projects.

Desde Maio de 2025, escreve a Forbes, a KoBold deixou de ter participação na empresa 80 Mile Plc, até agora sua parceira nas perfurações em território gronelandês, mas continuará a ganhar royalties sobre “futura produção do projecto”.

O investimento foi feito através do fundo criado por Gates, o Breakthrough Energy, destinado a “acelerar as inovações em energia verde e construir as cidades do futuro”, cita a revista norte-americana. Só em Dezembro de 2024, numa nova ronda de investimento de perto de 3 mil milhões de dólares, o fundo entrou com 537 milhões.


Howard Lutnick, o secretário do Comércio de Trump, era director-geral da Cantor Fitzgerald, que há mais de três décadas vem investindo na empresa mineira Critical Metals Corp., segundo a Forbes. E mesmo tendo passado as suas acções para os filhos quando entrou no Governo não deixa de ter interesse em que os EUA comprem a ilha.

O potencial de reservas minerais da ilha é enorme: cobre, ouro, grafite, urânio, paládio, vanádio e, sobretudo, terras raras, indispensáveis para baterias, energias renováveis, dispositivos electrónicos avançados, sistemas de defesa e para a inteligência artificial em geral.