Outra das personalidades que é amplamente mencionada no livro é Joel Kaplan, hoje em dia presidente de políticas globais da Meta, sucedendo ao britânico Nick Clegg.

Kaplan, de 56 anos, entrou para o Facebook no mesmo ano que Sarah Wynn-Williams. Estudou em Harvard, onde conheceu Sheryl Sandberg, com quem namorou. Foi fuzileiro e chefe de gabinete-adjunto do Presidente George W. Bush entre 2006 e 2009. Segundo o relato de Wynn-Williams, teve uma passagem “acidentada” de agente político e lobista para o mundo da tecnologia. Em alguns momentos, a autora descreve uma relação forte entre Kaplan e o Departamento de Estado dos EUA. “Quando alguma coisa corre mal fora dos EUA, ele vira-se imediatamente para o Departamento de Estado para resolver”, quase como se o governo fizesse parte do Facebook.

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É a Kaplan que Wynn-Williams atribui a responsabilidade dos anúncios políticos na plataforma. Quando chega ao cargo de vice-presidente de políticas públicas globais, em outubro de 2014, tornando-se chefe direto, Kaplan “começa a contratar uma equipa de marketing para pressionar os políticos — aqui e no estrangeiro — a tornarem-se anunciantes”. Sarah Wynn-Williams resume que “o dinheiro determina a voz que é ouvida em todas as questões, desde as armas ao aborto, e muito mais”. Um sistema que o Facebook introduziu “a nível mundial de forma furtiva”, escreve a neozelandesa.

Kaplan reage com estranheza quando Wynn-Williams lhe explica que seria ilegal usar o Facebook para organizar comités de ação política no estrangeiro. “Precisamos” de canalizar o dinheiro “para os nossos principais aliados no estrangeiro”, terá dito o executivo, não gostando de ouvir a resposta de que uma ação do género poderia ser considerada “suborno e corrupção na maioria dos países”.

Um pouco por todo o mundo, a presença de anúncios políticos no Facebook multiplicou-se. Em 2016, o escrutínio que deu a primeira vitória a Donald Trump foi até apelidado como “eleições Facebook”. Mesmo após o resultado, a equipa de gestão negou a responsabilidade da empresa na vitória de Trump pelos anúncios e desinformação. Numa conferência, dias após a eleição, Mark Zuckerberg chegou a dizer que “era uma ideia bastante louca” que “as notícias falsas no Facebook, que é uma parte muito pequena de conteúdo, tenham, de alguma forma, influenciado a eleição”.

Dias depois, a bordo de um jato privado de regresso de Lima, no Peru, Zuckerberg não esconde a “fúria” pelo encontro em que Barack Obama censurou “o papel que o Facebook desempenhou nas eleições e não só”. “Não está habituado a críticas francas de alguém mais poderoso do que ele”, escreve Sarah Wynn-Williams.

Fora do mundo político, na reta final da sua passagem pelo Facebook a então diretora de políticas globais debate-se com o denunciar ou não os avanços de Joel Kaplan. Refere que o executivo lhe fez perguntas estranhas sobre amamentação, que pediu a sua presença em reuniões durante a licença de maternidade e comentários sobre o seu aspeto físico. Quando regressou ao trabalho, após a licença, foi sujeita a uma avaliação de desempenho em que lhe foi dito que alguns “colegas acharam difícil interagir contigo”.

Quando percebe que há “problemas sistémicos de assédio sexual” no departamento de Kaplan decide descrever o problema aos superiores. “Quando acabo de falar, diz-me que tem a certeza de que tudo isto tem solução e que se vai resolver sozinho”, relata. E se não acontecer? “Terei todo o gosto em escrever-te uma carta de recomendação”, foi-lhe respondido. Meses depois, foi despedida.

Atualmente, Sarah Wynn-Williams dedica-se a “trabalhar em diferentes aspetos da política de inteligência artificial (IA)”, diz no livro, concretizando que está a debruçar-se sobre as “negociações não oficiais entre os EUA e a China sobre as armas de IA”.