A nova oferta está a gerar críticas tanto de responsáveis políticos como de cidadãos franceses, que classificam a restrição como “discriminação”
A famosa rede francesa de comboios de alta velocidade TGV INOUI está a enfrentar uma onda de críticas depois de ter introduzido uma nova carruagem de classe premium que proíbe a presença de crianças.
Desde 8 de janeiro, a operadora ferroviária nacional SNCF passou a disponibilizar a classe “Optimum” em muitas ligações TGV INOUI de e para Paris, de acordo com o site de venda de bilhetes SNCF Connect.
Além de bilhetes flexíveis e de um serviço de apoio ao cliente personalizado, a oferta promete uma “carruagem de primeira classe exclusiva”, concebida para garantir “privacidade” e “acesso a um espaço tranquilo e reservado a bordo”.
Para além de ter “um número limitado de passageiros”, o tipo de passageiros autorizados também é restringido, segundo a empresa ferroviária, que sublinha que, “para garantir o máximo conforto no espaço exclusivo, não são permitidas crianças”.
Na sexta-feira, uma viagem de Paris para Lyon custava 132 euros em primeira classe tradicional e 180 euros na opção Optimum Plus sem crianças — uma versão do Optimum disponível apenas na ligação Paris–Lyon, que inclui um anfitrião pessoal e serviço de refeições.
A nova oferta, no entanto, gerou críticas tanto de responsáveis políticos como de cidadãos franceses, que classificam a restrição como “discriminação”.
Movimento “No Kids”
“Perante a pressão do #NoKids, a SNCF não deve ceder”, escreveu Sarah El Haïry, alta-comissária para a Infância no Ministério da Saúde, Assuntos Sociais e Trabalho de França, numa publicação no Instagram, na quinta-feira, referindo-se ao fenómeno — amplificado pelas redes sociais — de pessoas que procuram espaços livres de crianças.
“A decisão da empresa ferroviária equivale, de facto, a uma discriminação direta contra as crianças, e é por isso que considero que este assunto está hoje a causar tanta agitação”, afirmou Stéphanie d’Esclaibes, empresária e criadora do podcast “Les Adultes de Demain” (“Os Adultos de Amanhã”), em declarações ao programa de rádio francês RTL Soir, na quinta-feira, a propósito do chamado movimento “No Kids”.
“Compreendo a necessidade de silêncio no TGV quando se quer trabalhar, mas também penso que isso não deve acontecer à custa de um grupo social, neste caso as crianças. E acho que esta é também uma oportunidade para repensar os espaços destinados às crianças e às famílias”, acrescentou d’Esclaibes.
“A SNCF inventa uma classe ‘Optimum’… sem crianças”, escreveu a ensaísta Naïma M’Faddel numa publicação na rede social X, na quinta-feira. “Num país preocupado com a sua taxa de natalidade, este sinal é desastroso.”
No ano passado, França registou mais mortes do que nascimentos pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Partilhando uma imagem do livro “Yes Kids”, de Gabrielle Cluzel, M’Faddel recomendou a leitura do que descreveu como “um magnífico apelo a uma parentalidade assumida e feliz”, acrescentando: “A criança é vida.”
“Sob pressão há anos para restringir o acesso das crianças”
Um dia antes, a SNCF Voyageurs, operadora nacional de transporte ferroviário de passageiros, publicou um vídeo nas redes sociais a responder à “controvérsia” e a defender a decisão.
A classe Optimum está “aberta a todos os passageiros com 12 ou mais anos, tal como já acontecia com a anterior oferta Business Première”, explicou uma porta-voz no vídeo divulgado na quarta-feira.
“Os lugares Optimum representam apenas 8% do espaço disponível nos nossos comboios de segunda a sexta-feira. Isto significa que 92% dos restantes lugares estão disponíveis para todos, e 100% aos fins de semana”, prosseguiu.
“Posso até dizer que estamos sob pressão há anos para restringir o acesso das crianças a determinadas zonas dos nossos comboios. Sempre recusámos fazê-lo. Os nossos serviços são pensados para todos e, naturalmente, para as famílias”, acrescentou.
Numa declaração enviada à CNN na sexta-feira, uma porta-voz da SNCF Voyageurs afirmou que a empresa “nunca aceitou os inúmeros pedidos dos clientes” para tornar secções inteiras, “como a primeira classe, livres de crianças nos comboios TGV INOUI”.
O anterior serviço Business Première, para o qual não eram válidos bilhetes para bebés e crianças, existiu “durante muitos anos” e “sem qualquer reação negativa”, acrescentou.
Segundo a porta-voz, os comboios TGV dispõem de áreas com muda-fraldas, e os passageiros podem também reservar bilhetes na área familiar em todos os comboios TGV INOUI aos fins de semana, durante as férias escolares e nos feriados.