Mas o mero exercício teórico, deixa no ar a questão: “E se?”. A verdade é que o Canadá é altamente dependente dos Estados Unidos, quer economicamente — quase 70% das exportações canadianas continuam a ser para o vizinho a sul —, quer militarmente, com comandos integrados e trocas de tropas, que levam soldados canadianos a responder perante comandos dos EUA. “Não há forma de sair desta relação. Muitas das coisas [que o Canadá está a fazer no Ártico] seriam extremamente difíceis ao ponto de não serem possíveis de ser feitas fora do NORAD ou do contínuo de segurança bilateral que existe. E isso é só o dinheiro que o governo dos EUA coloca nas secretas, digamos, ou em radares de longo alcance. Todos esses sistemas, nós nunca seremos capazes de replicar e garantir uma segurança adequada sozinhos“, elabora Richard Shimooka, analista de política de defesa no Macdonald-Laurier Institute, ao Globe and Mail.
Ora, é precisamente esta limitação que o Canadá tenta resolver. Na vertente económica, através da diversificação de mercados de exportação, com foco para a China, onde Carney esteve recentemente, ou para a Europa, com quem mantém várias ligações no seio de alianças ocidentais. Na vertente militar, através do aumento dos gastos com Defesa. Ao jornal, outro analista do mesmo instituto, Balkan Devlen, ressalva que a meta dos 5% continua a ser demasiado baixa para consegui autonomizar militarmente o Canadá. “Provavelmente precisamos de chegar aos sete, oito, nove por cento em gastos de defesa”, estima.
Porém, a aposta em si mesma pode ser útil. Os especialistas utilizam dois cenários para defender esta posição. No primeiro cenário, o aumento dos gastos com Defesa e a atenção dada ao Ártico serve para apaziguar o instinto expansionista de Donald Trump, em vez de o confrontar diretamente, e manter a NATO à tona durante os próximos nove meses — quando o poder de Trump pode sofrer um revés nas eleições intercalares norte-americanas — ou, mais provavelmente, nos próximos três anos.
No segundo cenário, a leitura que Mark Carney fez da ordem mundial em Davos está correta: houve uma rutura sem retorno e as grandes potências deixaram de respeitar a ordem baseada em regras. Neste caso, o Canadá adiantou-se ao colapso ao perseguir a autonomia estratégica há mais de um ano. Em qualquer cenário, a estratégia anti-Trump de Carney, que lhe deu uma inesperada vitória eleitoral há menos de um ano, consolida-o agora como um líder inesperadamente relevante no palco internacional.