O uso crescente do termo “parceiro” ou “parceira” tem vindo a substituir expressões como “marido”, “mulher”, “namorado” ou “namorada” nas relações amorosas. Esta mudança linguística, percebida em diferentes contextos culturais e geracionais, reflecte uma escolha de termos mais abrangentes e neutros a nível de género face a conotações tradicionais.

Para a psicóloga e sexóloga Vânia Beliz, os termos são “mais inclusivos e menos possessivos do que ‘a minha mulher’​”, por exemplo, acrescentando que “parceiro ou parceira sugerem maior proximidade”. A especialista explica que ela própria usa estes termos porque acredita ser uma “evolução da designação do estado em que estamos na relação” e defende que o uso de parceiro surge “a partir do momento em que esta se torna estável”.

Também Domenique Harison, terapeuta de casais na Califórnia, citada pela CNN Internacional, considera que o termo parceiro “implica uma via alternativa ao casamento, apesar de manter o compromisso”. Nesse sentido, partilha da opinião de Vânia de que esta linguagem dá um “peso maior à relação, na medida em que é um termo que evoluiu da fase de encontros para algo mais profundo”.

No entanto, de acordo com Vânia Beliz, esta escolha de palavras não implica necessariamente uma alteração profunda nas dinâmicas relacionais em si. Já a psicóloga clínica e terapeuta familiar Luana Cunha Ferreira vê o uso de “parceiro” ou “parceira” de forma mais ligada à prática intencional de valores igualitários dentro das relações.


A especialista, em contexto profissional, observa que casais que utilizam termos neutros ou inclusivos tendem a ser “pessoas com uma orientação mais progressista” que procuram alinhar a linguagem com “paridade na divisão de tarefas domésticas, de cuidado mútuo e trabalho emocional”.

Segundo a psicóloga, “a forma como narramos a nossa experiência interna acaba por moldar a própria realidade”, e usar conscientemente estes termos ajuda a reforçar valores de igualdade no quotidiano. Luana Cunha Ferreira sublinha, porém, que o uso do termo não é por si só sinónimo de uma relação mais saudável ou segura.

Acrescenta que, embora não seja regra, “o termo ‘parceria’ pode sugerir que o ‘para sempre’ não é um dado adquirido, mas sim uma escolha contínua”. Descreve que remete para “uma relação em que duas pessoas constroem activamente um vínculo”. Para a psicóloga, as pessoas que utilizam este termo “tendem a encarar a relação como algo que implica o contributo de todas as partes envolvidas”.

Recentemente, no discurso de agradecimento ao receber o prémio de melhor actor nos Critics Choice Awards, Timothée Chalamet fez uma rara e pública declaração de afecto à companheira Kylie Jenner. Ao invés de “namorada”, o actor optou por “parceira”, algo que muitos utilizadores nas redes sociais consideraram transmitir compromisso e proximidade sem recorrer a rótulos tradicionais de género.

Luana Cunha Ferreira considera que “estes avanços, vindos muitas vezes de comunidades marginalizadas como a comunidade queer”, beneficiam e enriquecem de alguma forma as relações consideradas mais normativas. Os termos “parceiro” e “parceira” têm sido historicamente associados a casais da comunidade LGBTQIA+. Nesse sentido, a especialista acredita que o aumento de casais heterossexuais a utilizar uma linguagem mais inclusiva é positivo. “Com a diversidade ganhamos todos.”