Ao longo dos últimos dias, as negociações políticas colapsaram e as HTS avançaram militarmente. A 17 de janeiro, o regime passou a controlar Deir Hafer. Nos dias seguintes, os curdos retiraram de Tabqa, Raqqa e Deir Ezzor. Pelo meio, houve uma primeira trégua que colapsou.
A queda das SDF só foi possível graças a uma mudança de postura por parte das forças norte-americanas no terreno, que deixaram de proteger os aliados curdos. Os curdos relatam, por exemplo, que uma das prisões onde se registou uma fuga fica a apenas três quilómetros de uma base militar norte-americana, mas que os soldados do país “não intervieram”, apesar dos vários pedidos de auxílio das SDF.
Na terça-feira, o enviado especial dos EUA para a Síria, Tom Barrack, oficializava a posição. “A situação mudou”, escreveu no X. “O propósito original das SDF como principal força anti-EI no terreno há muito que expirou, já que Damasco está agora disponível e posicionado para assumir responsabilidades de segurança, incluindo o controlo dos campos e instalações de detenção do Estado Islâmico.” “A posição dos EUA mudou drasticamente”, resume o analista do Crisis Group Nanar Hawach.
The greatest opportunity for the Kurds in Syria right now lies in the post-Assad transition under the new government led by President Ahmed al-Sharaa. This moment offers a pathway to full integration into a unified Syrian state with citizenship rights, cultural protections, and…
— Ambassador Tom Barrack (@USAMBTurkiye) January 20, 2026
No entanto, um futuro em o controlo dos antigos combatentes do EI seja assegurado pelas forças de Al Sharaa não é necessariamente cor de rosa. Por um lado, o regime tem um historial de gestão tenebrosa de outros campos de prisioneiros na Síria, com relatos de tortura e mortes — embora os próprios curdos sejam alvos de críticas semelhantes por parte de organizações como a Amnistia Internacional.
Por outro, o passado de alguns membros das HTS indicia que alguns soldados podem ter afinidades ideológicas com o próprio Estado Islâmico: “Considerando que muitos destes membros apoiam o EI em segredo, não há forma de ter a certeza quem é que, dentro desta organização que é muito variável, vai ficar a gerir Al Hol”, alertava recentemente a investigadora Hannah Kearns. Um responsável das SDF já tinha alertado para o mesmo, em declarações ao The Times: “O perigo é que sabemos que o Exército inclui um grande número de fações extremistas.”
Há ainda outro fator que pode auxiliar o ressurgimento do EI na região, alerta Hawach: a retirada militar dos norte-americanos deixa o grupo mais solto para aturar. “Para o EI, menos capacidades dos serviços de informação e de ataque dos EUA importa. Os ataques norte-americanos de precisão têm mantido a liderança do Estado Islâmico em modo de sobrevivência; se essa pressão alivia, o grupo ganha espaço operacional para respirar.” Em 2014, quando conquistou largas bolsas de território na Síria e no Iraque, o EI provou que floresce no vácuo de poder. “Uma retirada dos EUA, combinada com umas forças de Damasco sobrecarregadas e um sistema de segurança ainda não testado, criam exatamente condições que o EI consegue explorar”, avisa o especialista.