Ao longo do último ano, cientistas estudaram amostras de tecido cerebral, artérias e até mesmo articulações em busca da presença de microplásticos. Os investigadores descobriram que essas minúsculas partículas estão omnipresentes no corpo humano, contaminando testículos, a placenta, o sangue e até o cérebro. Ou será que não?
No início desta semana, um investigador na Alemanha, Dusan Materic, questionou a ciência dos microplásticos no corpo humano num longo artigo publicado no diário britânico The Guardian, argumentando que “mais de metade dos artigos de grande impacto” na área levantam sérias dúvidas.
Muitos cientistas responderam rapidamente, dizendo que não há dúvida de que as minúsculas partículas estão a entrar no corpo humano. Mas os comentários de Dusan Materic sublinharam que ainda há dúvidas sobre a quantidade de plástico que se está a acumular nos órgãos humanos — em grande parte, devido às críticas a um método específico de análise.
Acumulação “não é contestável”
O artigo foi publicado quando centenas de cientistas que estudam microplásticos se reuniram em Santa Fé, no Novo México, nos Estados Unidos, para aperfeiçoar técnicas e partilhar estudos num campo em expansão. Os investigadores enfatizaram que, apesar das incertezas, estão confiantes de que os tecidos humanos contêm microplásticos.
“O conjunto de evidências em todos os organismos apoia que micro e nanoplásticos estão a acumular-se em animais e seres humanos”, disse Susanne Brander, ecotoxicologista da Universidade Estadual de Oregon, nos EUA, e directora de projectos científicos para produtos químicos mais seguros da Pew Charitable Trusts. “Talvez ainda não tenhamos todos os detalhes, mas isso não é contestável.”
Os investigadores apontaram para o facto de que vários métodos demonstraram que o plástico entrou em órgãos do corpo humano — desde a espectroscopia de infravermelhos, em que os investigadores fazem incidir luz infravermelha sobre as partículas para identificar a composição química, até um sistema chamado cromatografia gasosa de pirólise, em que os investigadores queimam a amostra e depois testam as partículas restantes.
Por exemplo, foram encontrados microplásticos no cérebro, tanto no córtex frontal, usando o método de pirólise, quanto no bulbo olfactório — a parte do cérebro que processa os odores —, usando espectroscopia infravermelha. O mesmo se aplica ao fígado e a outros órgãos.
“Os factos básicos da exposição ao microplástico são incontestáveis, independentemente das técnicas de medição”, afirmou em comunicado Megan Wolff, directora executiva da P-SNAP, um grupo de médicos e cientistas que examina as ligações entre o plástico e a saúde. “Os microplásticos estão presentes em todo o corpo humano, desde o sangue até o cérebro e os ossos.”
O método de pirólise
No entanto, ao longo do último ano, este campo de investigação tem debatido questões sobre o método de pirólise. Esse método foi utilizado de forma mais proeminente no início deste ano, quando investigadores da Universidade do Novo México encontraram altas concentrações de plástico no cérebro humano. (Os investigadores estimaram que, em todo o cérebro, os plásticos poderiam ser equivalentes ao peso de uma colher de plástico, mas enfatizaram na altura que o resultado era muito preliminar.)
A ciência é absolutamente clara: estamos expostos a micro e nanoplásticos todos os dias através do ar que respiramos e dos alimentos que ingerimos
Christos Symeonides, pediatra
No método de pirólise, os investigadores queimam o tecido e, em seguida, examinam os vapores resultantes para detectar vários produtos químicos. Pdem comparar a assinatura dos produtos químicos dos plásticos com os vapores que encontram.
Esta abordagem tem muitos pontos positivos, incluindo o facto de poder fornecer uma estimativa da massa de plásticos num determinado órgão — ao contrário de muitos outros métodos. Mas alguns cientistas, incluindo Materic, argumentaram que outras substâncias no cérebro — gorduras, por exemplo — poderiam criar falsos positivos.
As gorduras podem dar resultados que imitam o polietileno, um dos plásticos mais usados no mundo. Um estudo realizado por investigadores australianos, no início deste ano, descobriu que testar tanto o polietileno quanto o cloreto de polivinila pode causar estimativas exageradas no método de pirólise. (Dusan Materic não respondeu aos pedidos de comentários do The Post.)
Melhoria dos métodos?
Matthew Campen, professor de toxicologia da Universidade do Novo México e um dos autores do artigo sobre o cérebro, disse que é o primeiro a reconhecer que o método pode ser melhorado. Mas, ressaltou, os resultados também mostraram muitos outros plásticos no cérebro que não podem ser confundidos com gordura cerebral. O estudo, por exemplo, também encontrou partículas de nylon e polipropileno no cérebro, dois outros tipos de plástico.
“Concordo que o polietileno provavelmente está sobrerrepresentado”, disse Matthew Campen. “Estamos constantemente a trabalhar em maneiras melhores de fazer isso. Mas os resultados mantêm-se em estudos com animais e estudos de órgãos. As observações reais desse artigo são muito mais profundas do que quaisquer pontos fracos discutidos.”
Os investigadores apontaram para o facto de que estudos em animais mostram claramente que pequenos plásticos podem chegar ao cérebro. Os cientistas expuseram roedores a alimentos com nanoplásticos marcados com fluorescência e, depois, encontraram esses mesmos pequenos plásticos nas profundezas do cérebro.
A quantidade não é clara
Vários investigadores disseram ter acolhido com agrado a discussão sobre os métodos — e acrescentaram que, embora seja certo que os microplásticos estão presente no corpo humano, a quantidade exacta ainda não está clara.
“A ciência é absolutamente clara: estamos expostos a micro e nanoplásticos todos os dias através do ar que respiramos e dos alimentos que ingerimos”, escreveu Christos Symeonides, pediatra do Royal Children’s Hospital de Melbourne (Austrália) e investigador da Minderoo Foundation, num e-mail. “O que não sabemos é quanta quantidade de micro e nanoplásticos atravessa as membranas dos nossos pulmões e intestinos e entra no nosso corpo.”
Os investigadores temem que, com o aumento da produção de plástico, as pessoas possam ficar expostas a quantidades cada vez maiores dessas minúsculas partículas. “Sabemos que os níveis de microplásticos e nanoplásticos estão a aumentar drasticamente no planeta”, disse Elizabeth Ryznar, professora de medicina da St. George’s University que estuda microplásticos no cérebro. “Portanto, é razoável supor que nossa dose de exposição também aumentará.”
Os cientistas também afirmaram que o que parece ser uma controvérsia é, na verdade, o processo normal da ciência. “É exactamente assim que a ciência funciona ao abordar um novo problema”, escreveu Symeonides.