Os Países Baixos são o país no mundo com mais bicicletas, de acordo com o site do Governo. Inclusivamente, têm mais bicicletas do que habitantes — 17 milhões de pessoas “contra” quase 23 milhões de bicicletas. Mas estão agora a preparar-se para proibir um tipo específico de bicicleta nalgumas regiões do país: as fatbikes elétricas.

Fat bikes são, na verdade, bicicletas com pneus mais largos — geralmente com cerca de nove a doze centímetros de largura. Para efeitos de comparação, os pneus de bicicleta de montanha não costumam ultrapassar os seis centímetros de largura. As bicicletas elétricas deste tipo não passam muito dos 25km/h com as definições de fábrica, mas se forem modificadas este valor pode chegar a mais do dobro.

Numa cidade em que metade dos cerca de 800 mil habitantes usa bicicleta diariamente, a mobilidade elétrica está a ganhar cada vez mais destaque. Em 2024, 48% das bicicletas compradas nos Países Baixos foram elétricas, e outros 13% foram fatbikes — 111.033 unidades —, de acordo com dados da Royal RAI Association.

O problema está nas cerca de 5 mil pessoas que anualmente são encaminhadas para as urgências após sofrerem acidentes com este tipo de bicicleta, segundo a organização VeiligheidNL de prevenção de lesões e acidentes. Com uma agravante: “A maioria dos acidentes envolve jovens entre os 12 e os 15 anos, explica o porta-voz da associação, Tom de Beus ao The Guardian.

O Vondelpark, em Amesterdão, vai ser o primeiro parque onde a circulação das fatbikes elétricas vai passar a ser proibida. Melanie van der Horst, responsável pelos Transportes na cidade fala de “medidas pouco ortodoxas”. A decisão está a gerar controvérsia. Henk Hendrik Wolthers, um utilizador de fat bike, não hesita: “É um absurdo!” O homem de 69 anos conta ao The Guardian que tem um carro, uma mota, já teve um ciclomotor, mas agora rendeu-se à bicicleta, que diz ser o meio de transporte mais rápido na cidade e, por isso, “deve poder usá-lo”. Joost, de 31 anos, segue a mesma linha. “Não faz sentido nenhum. As bicicletas “normais” usam o Parque, os veículos camarários também. É tudo uma questão de utilizar velocidades adequadas!” À Reuters, Sjoerd Jonkers, um neerlandês que deixou de usar o carro, conta que adora a bicicleta, e explica como a utiliza: “A minha namorada vai na parte de trás, e o filho na da frente, vamos os três numa bicicleta.”

Em sentido contrário, alguns especialistas em segurança rodoviária, médicos e políticos apoiam a proibição e apontam para a velocidade excessiva deste meio de transporte como um dos perigos. Muriel Winkel passeava o seu cão, que diz também ser “vítima” destas bicicletas. “Eles conduzem muito rápido, por vezes. Não o fazem com más intenções, mas não tomam cuidado, não prestam atenção. O meu cão fica realmente assustado.” A Reuters dá ainda conta de mulheres agredidas por ciclistas que iam de passagem, e da preocupação dos idosos com o risco iminente de atropelamento.

A ANWB, uma organização de assistência rodoviária, por sua vez, explica que o problema não está no modelo de bicicleta em si, mas sim na facilidade que os ciclistas têm de as acelerar, atingindo velocidades semelhantes às atingidas pelos ciclomotores, resultando em comportamentos de risco. Este fenómeno, além dos incidentes acima descritos, está ainda a inibir pessoas, nomeadamente idosos, de utilizarem as suas bicicletas. Os pais também começaram a não permitir que os seus filhos vão de bicicleta para a escola, explicou ao Telegraph Florrie de Pater, presidente de uma associação local de ciclistas.

Os especialistas pedem que sejam aplicadas mais medidas, mesmo que sejam “medidas controversas” para dar resposta a um problema que não se cinge a este Parque em Amesterdão. Para já, falam num “bom passo, porém um pequeno passo”. O Governo neerlandês já anunciou que a partir de 2027 o uso de capacete em bicicletas elétricas vai ser obrigatório para menores de idade.

Texto editado por Dulce Neto