O músico e compositor António Chainho morreu nesta terça-feira, 27 de Janeiro, na sua residência em Alfragide, nos arredores de Lisboa, no dia em que completaria 88 anos, disse à Lusa o seu agente artístico.
O “mestre da guitarra portuguesa”, como era referido pela crítica especializada internacional, encerrou a carreira de 60 anos em Setembro de 2024, tendo nesse ano editado o derradeiro álbum, O Abraço da Guitarra, no qual homenageou os que, através da rádio, foram os seus mestres. Em entrevista à agência Lusa, na altura, o guitarrista disse: “Homenageio aqueles que foram os meus professores através da rádio, nomeadamente os grandes guitarristas Armandinho, José Nunes, Raul Nery, Francisco Carvalhinho, Domingos Camarinha”.
O compositor de Uma Pequenina Luz, começou a tocar no meio fadista, na década de 1960, terminado o serviço militar obrigatório, durante o qual deu a conhecer os seus dotes musicais numa digressão por Moçambique. Anteriormente, tinha tocado no café do seu pai, datando de 1960 o seu primeiro contacto com o meio fadista, numa taberna na praça do Chile, em Lisboa, quando se apresentou ao serviço militar na capital, para o qual entrou em 1961.
Ao abandonar os palcos e estúdios de gravação, em finais de 2024, o guitarrista e compositor garantiu que estava “em paz” consigo mesmo e “contente” com o percurso artístico que teve a “sorte” de fazer. “Dei a volta ao mundo, toquei em todos os continentes, e acho que me sinto feliz”. “Olhando para trás, acho que tive a sorte de chegar aos 85 anos e gravar este disco”, afirmou, realçando que “nenhum guitarrista” de fado “gravou um disco depois dos 60 anos”, em nome próprio. “Foi difícil, mas eu consegui aos 85”.
A revista britânica Songlines referiu-se a António Chainho, compositor de Notas em Movimento, como “embaixador da guitarra portuguesa”. Apontado como “um dos virtuosos da guitarra portuguesa” pela Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, António Chainho acompanhou nomes como José Afonso, Rão Kyao, Gal Costa, Maria Bethânia, Saky Kubota, Hideco Tchokyba, José Carreras, Maria Dolores Pradera, Paco de Lucía, Kepa Junkera, Sara Tavares, Pedro Abrunhosa, Ana Bacalhau, Rui Veloso, Paulo Flores e John Williams.
Da sua discografia, que se iniciou em 1975 com Guitarradas, fazem ainda parte os álbuns Guitarra Portuguesa (1977), Ao vivo no CCB (2003), com Marta Dias, LisGoa (2010), que contou com a participação de Natasha Lewis, Sonia Shirsat e Remo Fernandes, Entre Amigos (2012), com intérpretes como Camané, Ney Matogrosso e Fernando Alvim, e Cumplicidades (2015), álbum que assinalou os 50 anos de carreira e conta com as participações de Paulo de Carvalho, Fernando Ribeiro, Hélder Moutinho, Pedro Abrunhosa, Paulo Flores, Filipa Pais, Ana Vieira e Vanessa da Mata.
Em 2015, actuou no seu concelho natal, na igreja matriz, no âmbito do Festival Terras Sem Sombra, com o guitarrista alemão Jürgen Ruck, apresentando o programa O Tempo e o Modo: Diálogos entre Guitarras.
Em Santiago do Cacém está instalada uma escola de guitarra portuguesa, um sonho que o compositor realizou.
Em 2023, foi publicada a sua biografia, O Abraço da Guitarra, de autoria da jornalista Moema Silva, que definiu a obra à Lusa como “o diário de uma viagem pela [sua] vida e pela música”.
Em 2022, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou António Chainho com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, que distingue os que prestaram “serviços relevantes a Portugal, no país e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores”.
Referindo-se à sua criação musical, o também compositor disse à Lusa que reflecte “mestiçagens, fruto dos contactos com as músicas do mundo”. Por isso também, procurou “traçar novos caminhos para guitarra portuguesa”. “A minha música reflecte as muitas viagens que fiz, os músicos com quem contactei e com quem trabalhei. Procura o respirar as músicas do mundo”, disse.
António Chainho nasceu em S. Francisco da Serra, no distrito de Setúbal, a 27 de Janeiro de 1938, e começou a tocar no meio fadista na década de 1960.