A OMS considera baixo o risco de propagação do vírus Nipah na Índia após a confirmação de duas infeções no estado de Bengala Ocidental, elogiando a capacidade de resposta das autoridades sanitárias locais
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A Índia está novamente a enfrentar o vírus Nipah, um agente patogénico com uma letalidade que chega a alarmar qualquer especialista, depois de confirmados dois casos no estado oriental de Bengala Ocidental. A Organização Mundial da Saúde, contudo, afasta um cenário de propagação descontrolada. Num tom que pretende ser tranquilizador, uma fonte do organismo internacional, em contacto com a EFE, sublinhou que o país “tem capacidade para conter o surto, como já comprovado anteriormente”. A confiança parece assentar na resposta rápida montada em torno dos dois infetados, ambos enfermeiros de 25 anos num hospital privado de Barasat, nos arredores de Calcutá.
Eles começaram a sentir os primeiros sintomas — febre, dores de cabeça, mialgias — logo no início de dezembro, mas só em janeiro é que a situação se esclareceu. Foram postos em quarentena e as amostras enviadas para o Instituto Nacional de Virologia, que a 13 de janeiro confirmou a presença do temível Nipah. O alerta formal à OMS só aconteceu na noite de segunda-feira, dia 26, seguindo os protocolos. Entretanto, a máquina de contenção já estava em marcha. Quase duzentas pessoas que estiveram em contacto com os dois profissionais de saúde foram identificadas e postas sob vigilância apertada. O ministério da Saúde indiano, por seu lado, mandou reforçar as medidas de prevenção nos hospitais da região, impondo o uso obrigatório de equipamentos de proteção individual de alto grau para a equipa clínica.
O fantasma do Nipah não é estranho em Bengala Ocidental. A região já tinha sido assolada por surtos em 2001 e novamente em 2007, com um saldo total que superou as cinquenta mortes. Nos anos mais recentes, a ameaça parecia ter-se confinado ao estado de Kerala, no sul do país. Ali, um surto em julho do ano passado serviu como amargo lembrete da persistência do vírus, infetando três pessoas e matando duas. A sombra desses episódios explica a reação imediata, mas também a cautela expressa pela OMS. A verdade é que, até ao momento, não há qualquer indício de que o vírus tenha aumentado a sua capacidade de transmissão entre humanos. As vias de contágio continuam a ser o contacto direto com animais infetados, como morcegos frugívoros ou porcos, ou o consumo de alimentos contaminados por suas excretas.
A infeção pelo Nipah é uma das mais traiçoeiras que se conhecem. O espectro de manifestações é vastíssimo, indo desde casos completamente assintomáticos até à inflamação cerebral aguda — a encefalite — que se revela fatal em tantas situações. As estimativas de mortalidade, aliás, são um dos aspetos mais cruéis, variando brutalmente entre 40% e 75% consoante o surto e a capacidade de resposta local. Não existe vacina. Não há tratamento específico. O que existe é o suporte clínico intensivo e a esperança de que o sistema imunitário do doente consiga combater o invasor.
Apesar da avaliação de risco global ser considerada baixa, a simples menção do nome Nipah foi suficiente para acionar protocolos de vigilância além-fronteiras. Países como a Tailândia e o Nepal, e até o território chinês de Hong Kong, já instalaram postos de triagem nos seus aeroportos internacionais. A ideia é detetar qualquer passageiro que chegue da Índia com febre ou outros sintomas sugestivos, num esforço para travar qualquer possível exportação do vírus. É uma medida de precaução, quase um reflexo condicionado num mundo que ainda não sarou totalmente as feridas de outras pandemias. A OMS mantém-se em contacto direto com Nova Deli, colaborando na avaliação de risco e no apoio técnico que for necessário. Tudo, para que estes dois casos em Barasat não sejam mais do que um susto controlado.
NR/HN/Lusa
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