O Relógio do Apocalipse foi acertado nesta terça-feira para os 85 segundos antes da meia-noite — ou seja, o mundo está a 85 segundos do fim, menos quatro segundos do que no ano passado, com este relógio a representar uma metáfora para alertar a humanidade se está mais perto ou mais longe de se autodestruir. Significa isto que o relógio está agora o mais próximo que alguma vez esteve da meia-noite em 79 anos de história.

A meia-noite significa a destruição total do mundo tal como o conhecemos. Todos os anos, os especialistas da revista Bulletin of the Atomic Scientists acertam o relógio que serve de aviso da comunidade científica à humanidade.

Num vídeo introdutório, especialistas da revista Bulletin of the Atomic Scientists mencionaram o risco nuclear que o mundo enfrenta, assim como conflitos activos entre potências nucleares e a hipótese de as armas nucleares serem realmente utilizadas no campo de batalha. Mas não só: foram também incluídas nos avisos as alterações climáticas e o facto de a cada ano se registar um novo recorde de temperaturas; as tecnologias disruptivas e o potencial da inteligência artificial (IA) para espalhar desinformação; o perigo que o envio de armas para o espaço pode representar; os cortes do Governo de Donald Trump à ciência; e o estado da saúde pública a nível global.

Alexandra Bell, presidente executiva da revista Bulletin of the Atomic Scientists e especialista em política nuclear, referiu, por sua vez, antes de revelar a quantos segundos o Relógio do Apocalipse se encontrava do fim, que o mundo “não fez progressos suficientes” no último ano. “Cada segundo conta e estamos a ficar sem tempo”, defendeu.

Perigos apocalípticos

“Há um ano, avisámos que o mundo estava perigosamente próximo de uma catástrofe global e que qualquer atraso na inversão desse rumo aumentava a probabilidade de catástrofe. Em vez de darem ouvidos a este aviso, a Rússia, a China, os EUA e outras potências tornaram-se cada vez mais agressivas, adversárias e nacionalistas”, destaca o Conselho de Ciência e Segurança da Bulletin of the Atomic Scientists num comunicado divulgado após o anúncio. O actual contexto, acrescenta, estimula a competição entre as grandes potências do mundo e mina “a cooperação internacional essencial para reduzir os riscos da guerra nuclear, das alterações climáticas, da utilização indevida da biotecnologia, da potencial ameaça da IA e de outros perigos apocalípticos”.


A nota destaca “três conflitos regionais” que envolvem “potências nucleares a ameaçarem uma escalada” de guerra, referindo-se à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, o conflito entre a Índia e o Paquistão, e o lançamento de ataques aéreos contra instalações nucleares iranianas por Israel e EUA.

Os especialistas alertam ainda para os planos dos EUA de instalarem um novo sistema de defesa antimíssil, o Golden Dome, que “incluirá interceptores espaciais, aumentando a probabilidade de conflito no espaço e alimentando provavelmente uma nova corrida ao armamento espacial”. E advertem para o facto de “o último grande acordo que limita o número de armas nucleares estratégicas utilizadas pelos EUA e pela Rússia”, o New Start, estar “prestes a expirar, pondo fim a quase 60 anos de esforços para restringir a concorrência nuclear entre os dois maiores países nucleares do mundo”.

Em matéria de alterações climáticas, no ano passado, o nível de dióxido de carbono atmosférico atingiu um novo máximo e a temperatura média global foi semelhante à de 2024, a mais quente em 175 anos de registos, além de o nível médio do mar ter atingido também um nível recorde. O “ciclo hidrológico tornou-se mais errático, com dilúvios e secas a assolarem o globo”, resultando em mortes relacionadas com o calor e no desalojamento de milhares de pessoas.


“As respostas nacionais e internacionais à emergência climática passaram de totalmente insuficientes a profundamente destrutivas. Em nenhuma das três últimas cimeiras da ONU sobre o clima foi dada ênfase à eliminação progressiva dos combustíveis fósseis ou à monitorização das emissões de dióxido de carbono”, menciona o comunicando, salientando que, nos EUA, “a Administração de Trump declarou essencialmente guerra às energias renováveis e às políticas climáticas sensatas”.

Quanto à IA, os especialistas frisam que a sua evolução acelerada “representa um tipo diferente de ameaça biológica: o potencial para a concepção de novos agentes patogénicos, contra os quais os humanos não têm defesas eficazes”. Ainda assim, dizem, “talvez a preocupação mais imediata seja a rápida degradação das infra-estruturas e dos conhecimentos especializados dos EUA em matéria de saúde pública”, um facto que “reduz perigosamente a capacidade dos EUA e de outras nações para responderem a pandemias e a outras ameaças biológicas”.

Além de um alerta, o Relógio do Apocalipse serve como uma chamada de atenção à humanidade para agir. O lado positivo, acrescentaram os especialistas, é que a população está a começar a mobilizar-se novamente e a reivindicar o poder.

No ano passado, o relógio ficou a 89 segundos do fim — o mais perto que alguma vez tinha estado do fim (até agora) — devido ao agudizar das ameaças globais, incluindo no que diz respeito às armas nucleares e ao investimento na modernização dos arsenais, à crise climática, aos perigos da IA, às doenças infecciosas — nomeadamente à ameaça da gripe das aves e de outras doenças, numa altura em que os sistemas de saúde ainda estavam a recuperar da pandemia de covid-19 — e aos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente.


Esta é a 79.ª vez que os ponteiros do Relógio do Apocalipse (ou Doomsday Clock, em inglês) são acertados. O relógio foi criado em 1947, numa altura em que as maiores ameaças à humanidade residiam nas armas nucleares. O ano em que esteve mais longe da meia-noite foi o de 1991, com o fim da Guerra Fria, quando ficou a 17 minutos do fim.

Entre 2020 e 2022, o Relógio do Apocalipse permaneceu a 100 segundos do fim e, em 2023 e 2024, ficou a 90 segundos da meia-noite.

Os ponteiros do relógio são acertados por especialistas de diversas áreas, incluindo energia nuclear, alterações climáticas, tecnologias disruptivas e biossegurança, com muitos destes especialistas a aconselharem também governos e agências internacionais.