De uma forma geral, o sector celebra a 10 de Setembro como sendo “o” dia do vinho do Porto, por ter sido naquela data que o Marquês de Pombal decretou a demarcação da região vitivinícola do Douro, nos idos de 1756. Já o International Port Wine Day é mais recente e celebra-se a 27 de Janeiro desde 2012. Nasceu depois de uma acção de promoção do fortificado duriense nos EUA. Talvez por ser uma “segunda” comemoração, haja poucos produtores a assinalar o dia — a esse propósito, ainda valerá a pena espreitar a masterclass exclusiva que a Fonseca promove nesta terça-feira com o enólogo David Guimaraens (das 17h às 18h30; 50€, ainda há vagas) e que será uma oportunidade rara de provar o Fonseca Vintage 1994.

No fundo, uma data e outra convidam os apreciadores de vinho do Porto em todo o mundo a celebrar um vinho único, com berço na região demarcada do Douro. Recuperámos alguns dos Portos que mais nos entusiasmaram nos últimos tempos (e que pontuámos como sendo muito bons) e outros que se destacaram pela boa relação qualidade/preço, entre vintages, tawnies e colheitas brancos.

Nome Dalva Porto Colheita Branco 2015

Produtor Granvinhos;

Castas Vinhas Velhas, com predominância de Viosinho, Gouveio, Rabigato e Malvasia Fina

Região Douro

Grau alcoólico 20%

Preço (euros) 33

Pontuação 92

Autor Ana Isabel Pereira

Notas de prova A graça dos Portos brancos está na sua frescura, desde logo aromática, e na prova mais equilibrada que, não raras vezes, oferecem. Parecem-nos menos doces e dão-nos mais citrinos e menos fruto seco ou madeiras exóticas, embora esses descritores também se apliquem a esta categoria de Porto que, tal como os tawnies, “cresce” longos anos em madeira. Neste Dalva, sentimos a laranja desidratada do bolo-rei — ou do panettone (já agora, o vinho cairá bem com qualquer um dos dois, ou com os doces finos do Algarve) —, alperce maduro e um lado especiado. Na boca, embrulhados numa imensa frescura, temos o tal lado cítrico, mas também rebuçado de café e melaço. Uma belíssima proposta, sobretudo atentando ao preço.

Nome Taylor’s Sentinel 2023

Produtor The Fladgate Partnership;

Castas Várias castas

Região Douro

Grau alcoólico 20%

Preço (euros) 39

Pontuação 95

Autor Manuel Carvalho

Notas de prova A marca presta homenagem aos marcos pombalinos que faziam a “guarda” das fronteiras da demarcação e o conceito pretende ir ao encontro das tendências dos nossos dias, nas quais há cada vez menos tempo e espaço para esperar décadas pelos Vintage. O que destaca por isso este vinho é a capacidade de nos proporcionar os prazeres de um Vintage jovem sem as cargas de taninos e intensidade de fruta que por regra caracterizam a categoria nos primeiros anos de vida. O resultado é muito interessante e irresistível. Não é que este vinho não tenha caminho para andar na garrafeira, mas está já numa fase em que a harmonia e a subtileza se impõem à garra e ao poder juvenil dos seus concorrentes.

Nome Dow’s Quinta do Bonfim 2023

Produtor Symington Family Estates;

Castas Várias castas

Região Douro

Grau alcoólico 20%

Preço (euros) 95 (1,5l)

Pontuação 96

Autor Manuel Carvalho

Notas de prova Mais um daqueles casos em que a estratégia comercial das empresas as leva a declarar Porto Vintage como “single Quinta”, reservados para anos considerados “normais”, em vez de declararem Vintage Clássico. Porque este Dow’s Quinta do Bonfim tem todas as condições para esse estatuto. Poderoso, rico de aromas de fruta preta, notas de chocolate preto, especiaria e sugestões florais, causa nesta sua primeira infância grande impacte na prova. Intenso sem perder delicadeza, taninos vivos, mas muito finos, um belo balanço e um grande final, com sugestões de iodo e um frescor vibrante, é um Vintage muito rico com um enorme potencial para o futuro.

Nome Quevedo Colheita Branco 2012

Produtor Quevedo Wines;

Castas Viosinho, Rabigato, Gouveio, Malvasia Fina e Moscatel Galego

Região Douro

Grau alcoólico 19,3%

Preço (euros) 48

Pontuação 93

Autor Ana Isabel Pereira

Notas de prova É um dos últimos lançamentos da família Quevedo, que tem um interessante portfólio de Portos brancos, incluindo um 50 Anos lançado há relativamente pouco tempo. Este 2012 cheira a marmelo, passas e a laranja desidratada, tem notas especiadas e, no seu conjunto, um aroma fresco, que bate certo com a acidez elevada que sentimos depois em boca. Essa frescura é marcante, equilibra a doçura do vinho e surge em harmonia com a sua estrutura, o volume e a textura aveludada deste colheita que nos dá em boca a mesma fruta, assim como notas de mel. Mostra um lado mais fresco, porventura, também mais actual do vinho do Porto e só custa uma nota (de 50 euros). Para quem gosta de Portonas suas várias facetas. Os generosos, por serem mais alcoólicos e doces, podem parecer que estão out, mas nunca foram vinhos para beber todos os dias. São prazer indulgente. De vez em quando, podemos dar-nos a esse luxo.

Nome Krohn Colheita 2001

Produtor WineStone;

Castas Várias

Região Douro

Grau alcoólico 20%

Preço (euros) 50

Pontuação 95

Autor José Augusto Moreira

Notas de prova Fundada em 1865, a Krohn depressa se tornou reconhecida pela qualidade e identidade marcada dos seus vinhos do Porto Vintage e Colheita, mas nas últimas décadas remetidos para a penumbra com a integração na Fladgate Partenership (grupo Taylor’s). A marca foi recentemente comprada pelo WineStone Group, e com ela resgatado também todo o espólio de vinhos antigos, o que permitiu o seu imediato relançamento. É dessa linha de Portos de grande qualidade e vincada identidade que está agora no mercado o Colheita 2001. Vinhos que permanecem o seu virtuoso envelhecimento em cave e são engarrafados à medida que saem para o mercado. Ou seja, cada vez mais ricos e melhores. Vivo, fresco, denso e sedoso, e com preço bem acessível, este 2001 é uma bela forma de regressar ao contacto com os históricos Krohn – há também um extraordinário Colheita 1983, mas custa já 150€ – e de celebrar em grande o período de festas natalícias.

Nome Alves de Sousa Vintage 2023

Produtor Alves de Sousa;

Castas Várias

Região Douro

Grau alcoólico 19,5%

Preço (euros) 70

Pontuação 96

Autor José Augusto Moreira

Notas de prova Para além de um Vintage de enorme qualidade – pela riqueza e concentração, equilíbrio – e potencial de evolução, é também um Porto de nova geração, que está agora a ser lançado no mercado, o que torna a sua prova obrigatória para os apreciadores. É que, em vez dos tradicionais cascos de carvalho, foi estagiado em ovos de cimento, acreditando a família Alves de Sousa que “a sua porosidade natural refina a estrutura e preserva a pureza da fruta”. Seja ou não por isso, é um Vintage já muito pronto e afinado, que proporciona enorme prazer. Fruta muito pura, taninos polidos, sabor intenso e envolvente, é notável no equilíbrio e riqueza como conjuga concentração, maturidade e frescura. Bom mesmo, é saborear já e poder guardar também umas garrafas para poder confirmar a evolução. Bom proveito!

Nome Quinta do Passadouro Vintage 2023

Produtor Quinta do Noval;

Castas Várias castas

Região Douro

Grau alcoólico 19,5%

Preço (euros) 80

Pontuação 95

Autor Manuel Carvalho

Notas de prova Desde que a Quinta do Passadouro passou para a órbita do Noval, aconteceu uma espécie de milagre na transformação dos seus Porto Vintage. A Passadouro funciona como uma espécie de segunda marca do gigante (em termos de qualidade) do sector, mas os seus vinhos merecem atenção e apreço. Aroma muito atraente, com notas de bosque, fruta vermelha, muita finesse, tanino redondo, mas ainda assim criador de uma estrutura poderosa, mas sem grande rugosidade no palato. Amplo e muito harmonioso, oferece sensações quentes e deliciosas na prova. Já se bebe com prazer, mas terá ainda muito caminho pela frente até mostrar todo o seu potencial.

Nome Quinta das Carvalhas Porto Tawny 50 Anos Edition 225

Produtor Real Companhia Velha;

Castas Mistura de castas

Região Douro

Grau alcoólico 20%

Preço (euros) 325

Pontuação 98

Autor Edgardo Pacheco

Notas de prova O que não deixa de impressionar neste 50 ou no 80 anos é que são feitos a partir de vinhos de uma única quinta, a Quinta das Carvalhas. É certo que é uma das maiores do Douro e que faz vinhos do Porto há séculos, mas fascina-nos a paciência necessária para se guardar em boas condições vinhos tão antigos (e ainda dizem que o vinho do Porto é caro). Por outro lado, provar os vinhos base que dão origem a estes tawnies é um exercício interessante para se perceber de onde vêm as notas cítricas dos tawnies destes vinhos. Mais antigos ou mais novos estão todos marcados por notas de tangerina e laranja. Esta segunda edição (1250 garrafas) tem esse lado cítrico, mas também algumas notas de iodo, chocolate e fruta passa. Na boca está sedoso, ligeiramente mais doce e potente do que o vinho da primeira edição, com notas mais evidentes dos cascos. Temos alguma preferência? Não, dois vinhos é uma prova comparativa curta. Vamos esperar pela terceira edição.

Nome Quinta do Crasto Porto Tawny 50 Anos

Produtor Quinta do Crasto;

Castas Mistura de castas

Região Douro

Grau alcoólico 21%

Preço (euros) 390

Pontuação 97

Autor Ana Isabel Pereira

Notas de prova Com um perfume intenso a iodo, nozes, mel de cana e casca de laranja cristalizada, encanta pelo seu equilíbrio entre doçura e frescura. Na boca, sentimos-lhe primeiro a sua acidez vibrante e depois então uma textura aveludada e toda a complexidade de um vinho feito de ingredientes muito antigos, e por isso também muito concentrado, mas sofisticado. Este Quinta do Crasto Porto Tawny 50 Anos é harmonioso, fresco e verdadeiramente um vinho fino. Especial, para ocasiões igualmente especiais.

Nome Vieira de Sousa Porto Tawny 20 anos

Produtor Vieira de Sousa;

Castas Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz, entre outras

Região Douro

Grau alcoólico 20%

Preço (euros) 248 (garrafão de 2 litros)

Pontuação 96

Autor Edgardo Pacheco

Notas de prova Depois de lançar um garrafão de 5 litros de um vinho DOC Douro, a Vieira de Sousa coloca agora no mercado dois Portos Tawny (este e o seu Tawny 10 Anos) em originais e exclusivos garrafões de dois litros. Apesar da idade, temos um vinho bastante mais jovem, elegante e fresco, com notas de chocolate, madeiras exóticas (cedro) e zimbro. Na boca, muitos frutos secos e grande equilíbrio entre doçura, acidez e álcool. Um excelente exercício de ligação (blend) entre Portos com diferentes idades e um 20 anos cheio de juventude, que é capaz de dar jeito nas festas entre o Natal e a Passagem do Ano.