A mais recente versão do modelo da OpenAI, o GPT-5.2, encontrou uma nova — e preocupante — fonte de alegada sabedoria: a Grokipedia, a enciclopédia gerada inteiramente pela inteligência artificial de Elon Musk. A descoberta foi feita pelo jornal britânico The Guardian, que apanhou a ferramenta a utilizar esta plataforma para fundamentar respostas sobre temas históricos e políticos sensíveis.

A ironia é difícil de ignorar para quem segue a indústria. A Grokipedia, lançada pela xAI em Outubro, opera sem edição humana directa, confiando num modelo de IA para gerar e alterar os conteúdos. Ao contrário da Wikipedia, onde existe escrutínio de uma comunidade de editores, a plataforma de Musk tem carta-branca e já foi amplamente criticada por promover narrativas de direita e falsidades sobre temas como o ataque ao Capitólio dos EUA a 6 e Janeiro de 2021 ou o casamento homossexual. Agora, estas “alucinações” estão a ser citadas pelo ChatGPT como factos.

Durante os testes, o jornal verificou que o ChatGPT citou a Grokipedia nove vezes em pouco mais de uma dúzia de perguntas. O “contágio” é subtil: quando questionado sobre desinformação óbvia e mediática, o modelo da OpenAI resiste e ignora a fonte.

O problema surge nos tópicos mais obscuros, onde a “imunidade” do sistema falha. Ao responder a questões sobre a estrutura das forças paramilitares no Irão ou sobre a biografia do historiador Sir Richard Evans (testemunha-chave contra o negacionista do Holocausto David Irving), o chatbot reproduziu alegações que o próprio Guardian já tinha desmentido, atribuindo-lhes a chancela de credibilidade da Grokipedia.

O perigo do “LLM grooming”

Este fenómeno tem um nome técnico entre os especialistas de segurança: “LLM grooming”. Nina Jankowicz, investigadora na área da desinformação, explica que estamos a assistir a uma espécie de aliciamento dos modelos de linguagem. Se uma ferramenta com a reputação do ChatGPT cita a Grokipedia, o utilizador comum assume que a informação foi verificada.


“Podem pensar: se estes modelos o citam, deve ser uma fonte decente, certamente confirmaram-no”, lamenta Jankowicz ao jornal britânico. O risco real reside na criação de um ciclo fechado onde IAs citam IAs, consolidando mentiras ou imprecisões como verdades históricas difíceis de apagar da memória digital.

A reacção das empresas envolvidas ilustra bem o abismo entre as duas filosofias. Enquanto a OpenAI assegura que aplica filtros de segurança e procura recorrer a uma “vasta gama de fontes públicas” para treinar o modelo, a xAI optou por uma postura de confronto. Questionado sobre a fiabilidade da enciclopédia, um porta-voz da empresa de Elon Musk limitou-se a responder: “Os media tradicionais mentem”.