Recentemente, pesquisadores no sul da Grécia fizeram uma descoberta significativa ao identificarem as ferramentas de madeira manuais mais antigas já registradas, com aproximadamente 430.000 anos. Esses artefatos foram encontrados em Marathousa 1, um local situado na Bacia de Megalópolis, no centro do Peloponeso. Durante o Pleistoceno Médio, este território abrigava uma costa lacustre.

As escavações realizadas em Marathousa 1 revelaram flocos de pedra, ossos de animais com marcas de cortes e restos de um elefante de presas retas. Arqueólogos sugerem que essas descobertas estão ligadas a visitas frequentes de humanos primitivos que processavam grandes carcaças nas proximidades da água. As condições de sedimentação alagada do local resultaram em ambientes com baixo teor de oxigênio, que retardaram a decomposição e conservaram pedaços de madeira que normalmente se deteriorariam ao longo do tempo.

A equipe de pesquisa examinou diversos fragmentos de madeira sob microscópios, analisando marcas superficiais, estrutura interna e espécies de madeira. Esse trabalho permitiu distinguir entre modificações humanas e danos causados por raízes, pressão sedimentar ou animais. Dois fragmentos apresentaram sinais claros de modelagem e uso, conforme destacam os pesquisadores no estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Um dos fragmentos é proveniente do álamo. Sua superfície exibe marcas de cortes feitos com ferramentas de pedra e áreas arredondadas formadas pelo contato repetido com o solo. O formato e o desgaste indicam que foi utilizado como uma ferramenta para escavar na margem do lago, facilitando a remoção do solo úmido ou a extração de alimentos vegetais. O segundo artefato, um pequeno fragmento possivelmente oriundo de salgueiro ou choupo, apresenta bordas esculpidas e suavização provocada pelo manuseio. Seu tamanho sugere que era uma ferramenta segurada entre os dedos, associada a tarefas delicadas, como ajustes nos flocos de pedra durante a produção de ferramentas.

Um terceiro fragmento de álamo chamou atenção durante a triagem. Este exibia profundas ranhuras paralelas na superfície e fibras esmagadas nas bordas. Estudos microscópicos relacionaram essas marcas a danos causados por garras de um grande carnívoro, provavelmente um urso. Essa evidência sugere que grandes predadores coexistiam no mesmo local onde humanos processavam elefantes, indicando uma possível competição pelo acesso às carcaças, repercute o Archaeology News.

Outra ferramenta de madeira descoberta no local / Crédito: Divulgação/K. Harvati/D. Michailidis

Até então, as ferramentas de madeira manuais mais antigas conhecidas provinham de locais na África, Europa e Ásia, todas datadas em períodos mais recentes do que 430.000 anos. Uma estrutura de madeira ainda mais antiga foi encontrada em Kalambo Falls, na Zâmbia, datando cerca de 476.000 anos atrás; no entanto, essa estrutura é interpretada como parte de construções em vez de um implemento portátil. As descobertas em Marathousa não apenas ampliam o registro das ferramentas moldadas em madeira em pelo menos 40.000 anos, mas também fornecem as primeiras evidências desse tipo provenientes do sudeste europeu.

“Isso demonstra, mais uma vez, as condições excepcionalmente favoráveis ​​à preservação no sítio arqueológico de Marathousa 1. E o fato de grandes carnívoros terem deixado suas marcas perto do elefante abatido, ao lado da atividade humana, indica uma forte competição entre os dois”, destaca a Dra. Annemieke Milks, uma das principais especialistas em ferramentas de madeira antigas da Universidade de Reading, na Inglaterra, em comunicado.

As ferramentas demonstram uma cuidadosa seleção das árvores locais que crescem em ambientes úmidos, incluindo álamo, salgueiro e choupo. Juntamente com os artefatos líticos e ósseos encontrados nas mesmas camadas geológicas, as peças de madeira indicam um amplo conhecimento sobre materiais naturais e uma habilidade técnica diversificada durante o Pleistoceno Médio.


Éric Moreira

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.