O vento forte com rajadas intensas da depressão Kristin varreu o país durante a madrugada desta quarta-feira, num temporal que causou duas mortes e deixou um rasto de destruição em várias regiões. O recorde oficial da força do vento, que pertence à Figueira da Foz, com o registo de 176 quilómetros por hora (km/h) em 2018, mas nesta quarta-feira o IPMA confirmou ao Azul que na base aérea de Monte Real foi registada pelas 5h uma rajada de vento com 176 km/h. Porém, não se trata de uma estação meteorológica do IPMA e, por isso, o valor “carece de validação”.

Apesar da violência e dos estragos, algumas regiões foram mais afectadas pelo efeito da “ciclogénese explosiva”, fenómeno conhecido também como “ciclone-bomba”. Os efeitos da depressão Kristin ainda se fazem sentir nos distritos de Castelo Branco e Guarda, mas a situação tem tendência a melhorar, dado que a tempestade já está a chegar a Espanha, disse fonte do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Em declarações ao Azul, o IPMA garante que vai emitir um comunicado com dados mais pormenorizados sobre a tempestade nesta quarta-feira, mas, para já, adianta que o valor mais alto registado nas suas estações no que se refere às rajadas de vento foi no cabo Carvoeiro, onde o vento teve rajadas de 149 km/h, às 4h.


Na provisória lista oficial deste indicador, assinala-se também a força do vento nas estações do IPMA noutras regiões do país: em Ansião, Leiria, 146 km/h às 6h; noutra estação do mesmo distrito de Leiria, 142 km/h, às 5h; em Castelo Branco, 137 km/h às 7h e em Tomar, distrito de Santarém, o vento chegou aos 133 km/h às 6 da manhã. O IPMA acrescenta que vai publicar esta tarde um comunicado com alguns valores máximos de vento.

O “ciclone-bomba”

De resto, a depressão Kristin parece ter afectado mais a região centro de Portugal continental. Entrou no continente na zona de Leiria e daí progrediu para o interior, com uma grande parte dos estragos registados nesta zona. Mas, nesta quarta-feira, os portugueses podem esperar por uma ligeira bonança, após a tempestade.

“[A depressão] já está praticamente em Espanha, apesar de ainda se fazer sentir algum vento, principalmente na região sul e nos distritos mais do interior, como Castelo Branco e Guarda. No resto do território, parece que o pior já passou e a situação tem tendência a ir melhorando ao longo da manhã”, referiu Patrícia Marques, meteorologista do IPMA, em declarações à Lusa.

“Está praticamente fora de Portugal continental. Mas ainda temos uma corrente do oeste muito forte a passar na região sul, que está a provocar vento muito forte”, acrescentou.

Portugal continental está ainda esta quarta-feira a ser afectado pelos efeitos da passagem da depressão Kristin, após outras duas tempestades nos últimos dias (Ingrid e Joseph), com chuva, vento, neve e agitação marítima, tendo sido emitidos vários avisos pelo IPMA.


A Protecção Civil está em estado de prontidão especial para nível 4, o máximo, em toda a orla costeira entre Viana do Castelo e Setúbal. Os distritos de Coimbra e Leiria foram os mais afectados e no distrito de Lisboa, no concelho de Vila Franca de Xira, uma pessoa morreu quando uma árvore caiu sobre a viatura que conduzia, e outra em Monte Real, distrito de Leiria, devido à “queda de uma estrutura”.

O IPMA qualificou a Kristin como “ciclogénese explosiva”, termo utilizado para depressões de forte intensidade, tanto em vento como em chuva. O fenómeno de ciclogénese explosiva “caracteriza-se por um decréscimo muito acentuado na pressão atmosférica no centro de uma depressão, num curto intervalo de tempo”, explica o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). O fenómeno também é conhecido como “bomba meteorológica” ou “ciclone-bomba”.

Em suma, é a formação súbita de uma tempestade em que a pressão atmosférica baixa abruptamente num curto intervalo de tempo. Este fenómeno meteorológico traz associado “tempo severo”, com possibilidade de ventos fortes, agitação marítima e precipitação intensa.


Como explica o IPMA, “as depressões são regiões de baixa pressão atmosférica em torno das quais o vento sopra no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio no hemisfério norte e sopra no sentido do movimento dos ponteiros do relógio no hemisfério sul”. A ciclogénese acontece quando se cria uma zona depressionária e diz-se explosiva quando a queda de pressão no centro é muito rápida.

Notícia actualizada com o valor registado na base aérea de Monte Real que, segundo o IPMA, carece ainda de validação.

com Lusa

* O estado do tempo e clima são conceitos diferentes. O tempo previsto para estes dias corresponde ao estado instantâneo da atmosfera em Portugal, definido através de variáveis meteorológicas como a temperatura, precipitação, humidade ou velocidade do vento. Já o clima consiste nos padrões registados ao longo de vários anos. Veja aqui mais sobre como os eventos meteorológicos no dia-a-dia podem (ou não) reflectir as alterações climáticas e como estas mudanças estão a intensificar os fenómenos meteorológicos extremos.