Foi durante um passeio pelas ruas do Porto, de câmara na mão, entretido a registar a vida como ela acontece, que o padrão se tornou evidente. Não foi uma epifania súbita, mas sim a força da repetição: turistas jovens, em número crescente, com câmaras analógicas ao pescoço. Máquinas de 35mm, compactas de outros tempos, rolos trocados à pressa em plena rua. Sem ecrã, sem confirmação imediata, sem pressa.

O que parecia um caso isolado tornou-se a norma. E, quanto mais a cena se repetia, mais sentido fazia. Não apenas pelo objeto, mas pelo contexto. O Porto não pede imagens limpas e estéreis; pede tempo, pede o imprevisto, exige atenção. Esta cidade parece estar em simbiose com o regresso global ao analógico – não como um capricho estético, mas como uma resposta visceral ao excesso de tecnologia.

Nada volta por acaso. A nostalgia desperta quando tudo se torna rápido, assético e previsível. É nesse momento que surge o reflexo automático: regressamos ao que tem peso, textura e falha.

O Porto: uma cidade que convida ao grão

Como portuense e fotógrafo, este fenómeno não me surpreende. O Porto é uma das cidades onde o analógico encaixa organicamente. Há cidades que pedem linhas limpas; o Porto nunca foi assim.

Esta é uma cidade feita de camadas: de granito gasto, de fachadas marcadas pelo tempo e de roupa a secar nas varandas. Tudo tem textura, tudo exibe a sua idade sem pudor. No Porto, o grão da fotografia não é ruído – é linguagem. A imperfeição aqui não distrai, acrescenta valor. Uma parede descascada não precisa de correção; a fotografia analógica não tenta domesticar a cidade, convive com ela em pé de igualdade.

O catalisador invisível: o efeito da pandemia

Se este ciclo de regresso ao essencial já estava em marcha, a pandemia de COVID-19 funcionou como um acelerador impiedoso. O isolamento forçado fechou-nos entre quatro paredes, onde o ecrã passou a ser a nossa única janela para o mundo – para trabalhar, para socializar, para existir.

Esse tempo excessivo de “ligação” obrigatória acabou por quebrar alguma coisa em nós. A saturação digital chegou mais cedo do que o previsto e, mal as restrições caíram, o mundo não se limitou a reabrir; ele explodiu em celebração. Vivemos, desde então, uma vaga de casamentos e eventos sociais sem precedentes. As pessoas estavam sedentas de toque, de presença física e de rituais reais. Celebrar a vida tornou-se uma urgência, e essa urgência trouxe consigo uma nova forma de olhar para as prioridades: o digital passou a ser o lugar do trabalho, enquanto o analógico passou a ser o lugar do afeto.

A lufada de ar fresco: o regresso ao tangível

Para mim, enquanto fotógrafo de casamentos, este movimento foi nada menos do que refrescante. Numa era de perfecionismo digital aborrecido, onde o sensor regista tudo com uma nitidez quase clínica e o Auto-foco não falha por um milimetro,, poder oferecer a fotografia analógica como complemento ao digital devolveu-me um entusiasmo renovado.

É gratificante ver que os casais voltaram a valorizar a recordação física e não apenas o ficheiro que se perde na “cloud”. Há algo de profundamente poético e real em agarrar uma fotografia fisicamente, em sentir a textura do papel e o peso de um momento que não depende de uma bateria ou de um brilho de ecrã para existir.

Os casais de hoje procuram essa densidade. Querem o grão, a luz orgânica e, acima de tudo, a imperfeição que prova que aquele momento foi vivido com alma. A fotografia que se toca tem uma permanência que o pixel nunca conseguirá replicar. No fundo, é o regresso à ideia de que uma memória importante merece ser um objeto, e não apenas mais um conteúdo para fazer scroll. E para um fotografo, é um elogio muito maior ver fotos na casa de um cliente em vez de no screensaver do telemovel.

Vinil e outros rituais: o erro de quem deitou a história fora

O regresso do vinil reforça este ciclo e esta tendência da necessidade de abrandar. Durante décadas, foi tratado como uma relíquia pouco prática face à conveniência das playlists infinitas. Hoje, percebe-se que desfazer-se de coleções foi um erro estratégico.

O vinil não só voltou, como ultrapassou as vendas de CDs em mercados como o norte-americano. Não porque o som seja tecnicamente “melhor”, mas porque altera a nossa relação com a arte. O disco obriga a ouvir o álbum por inteiro, a pousar a agulha, a estar presente. O mesmo fenómeno resgatou as cassetes e as máquinas de escrever mecânicas – símbolos de foco absoluto num mundo de distrações constantes.

O regresso ao essencial

No fundo, os ciclos culturais são mecanismos de defesa. Quando tudo fica demasiado rápido e igual, procuramos aquilo que nos obriga a parar e a tocar. Tal como o vinil não matou o streaming, o analógico não vem substituir a tecnologia. Vem, apenas, acrescentar silêncio e densidade a um mundo que se tornou barulhento e superficial.

Às vezes, para andar para a frente, é preciso saber olhar para trás.

Pedro Pulido é fotógrafo de casamentos, especializado em Destination Weddings em Portugal na Pedro Pulido Photography