De olhos postos na outra margem do rio Balsemão, os sete militares em formação no centro de Tropas de Operações Especiais em Penude, Lamego enfrentaram um treino com um acréscimo de dificuldade na noite de 26 de janeiro. O exercício, conhecido como “funicular”, é antigo e várias vezes repetido. Mas desta vez, era ainda mais difícil do que o normal.
Os efeitos da depressão Joseph já se faziam sentir em Portugal, em especial na região Centro, com avisos em vigor para o distrito de Viseu quer por ventos fortes, quer por precipitação. Eram 23h de segunda-feira quando o oficial de Infantaria João dos Santos Cardoso foi levado pelo caudal violento do rio e desapareceu da visão dos camaradas. O exercício terminou de imediato.
“O rio [estava] cheio de água, a dar pela cintura. Eu estou revoltada. Nunca os vi cá a fazer um exercício com a maré tão alta, tem sido sempre com ela mais baixa”. Para Ana Coelho, habitante de Penude que falou com os canais RTP e SIC, a presença desta tropa de elite nas redondezas é habitual, mas não nestas circunstâncias. Rapidamente se mobilizaram esforços para encontrar o jovem mafrense de 23 anos, mas essa missão também se complicava pela fraca visibilidade e os difíceis acessos às margens. As horas passaram sem que fosse possível encontrar João, mesmo com o apoio da Proteção Civil e dos bombeiros.
De manhã, confirmou-se o pior cenário. “O Exército Português comunica o falecimento do Alferes de Infantaria João Rafael Paulino dos Santos Cardoso, natural de Mafra, que se encontrava por localizar desde ontem à noite, na sequência de um incidente ocorrido durante a frequência do Curso de Operações Especiais, no rio Balsemão, na região de Penude, Lamego”, informou o Exército através de um comunicado.
No mesmo comunicado, o Exército enviou as condolências à família — que prometeu ajudar com acompanhamento psicológico — e aos camaradas, e anunciou a abertura de “um processo de averiguações para apurar todas as circunstâncias do ocorrido”, tendo sido informada a Polícia Judiciária Militar, que já está a investigar o caso. A camaradagem de quem sabe a dureza e a complexidade deste curso levou dezenas de militares e ex-militares a manifestarem os seus pêsames nas redes sociais.
Ao Observador, um militar que passou por Lamego como instruendo e instrutor salienta que “obviamente, as provas podem ser adiadas”. “No meu curso aconteceu várias vezes. Se já está previsto as condições meteorológicas serem mais gravosas do que seria normal, elas são adiadas”. Há riscos, assumiu, mas há mecanismos de segurança que devem ser respeitados e, quando, como esta semana, há desastres, é porque não foram devidamente acautelados.
Outro antigo ranger, que esteve em Lamego “há muitos anos”, disse que, nessa altura, estava “fora de questão” adiar um exercício por causa do mau tempo. “Se tivéssemos que fazer, fazíamos, tínhamos que estar preparados para tudo. Eu cheguei a acordar com o meu saco de cama coberto de neve. Somos uma tropa de elite, que tem que estar sempre à frente, somos preparados para tudo”. Ainda assim, assegurou que “agora é diferente” e “há mais segurança”.
O mérito do trabalho realizado em Lamego é reconhecido tanto pela presença constante de militares estrangeiros que vêm a Portugal realizar este curso, como pelos sucessivos destacamentos destas tropas nacionais no estrangeiro: neste momento, os militares da Força de Operações Especiais (FOE) do Exército Português, formados no Centro de Tropas de Operações Especiais (CTOE) de Lamego, estão na Roménia, em missão da NATO, como parte do Special Operations Land Task Group (SOLTG).
Militar morre após ser arrastado pela corrente durante exercício do Exército num rio em Lamego
João, como outros seis camaradas, tinha iniciado a 12 de janeiro o curso de Operações Especiais, confirmou ao Observador fonte oficial do Exército. Quem passou pelos desafios complexos que os militares vivem em Lamego admite que é normal, fruto das desistências, terminarem menos do que os poucos que já começaram.
“Há vários cursos, neste caso era um curso pessoal do quadro permanente, mas existe também um curso para praças em que a duração é menor e que o pessoal não tem ainda experiência. Os oficiais e sargentos já vêm com bagagem de vários anos”, explicou um ex-ranger.
O número reduzido de militares e a dificuldade dos seus treinos prepara os rangers para atuarem nas situações mais complexas, sem temor pelo ‘adversário’. “Que os muitos per ser poucos nam temamos”, diz o lema das Operações Especiais. “Há muitas desistências, principalmente logo ao início. Há logo provas iniciais para ver em que condições estão os instruendos e se têm vontade ou não para terminar o curso”, reitera a mesma fonte.
O curso difere entre 13 semanas, para os Praças, e 15 semanas, para as categorias de Sargentos e Oficiais. O mafrense, depois de uma passagem pela Academia Militar, pertencia aos segundos. Segundo o Correio da Manhã, tinha saído há apenas três meses da academia, sendo colocado no regimento 14, em Viseu, até perseguir a vontade de ser ranger.