A depressão Kristin atingiu fortemente a cidade de Leiria, onde vários serviços estão condicionados e assim deverão continuar nos próximos dias. O restabelecimento de eletricidade parece ser para já a maior dor de cabeça das autoridades, já que a falta de energia elétrica está já a afetar outros serviços como as telecomunicações e o abastecimento de água. É um “apagão” à escala de Leiria (e de outras localidades do centro do país) só que sem previsões, para já, sobre quando será reposto o serviço.
A última atualização da E-Redes, das 15h00, dá conta de 485 mil clientes sem eletricidade, dos quais mais de metade em Leiria. O facto do restabelecimento do serviço estar a ser feito muito lentamente — desde o meio dia que o número está próximo dos 500 mil e não há indicação — é um sintoma das dificuldades que estão a ser sentidas no terreno pelos técnicos da empresa do Grupo EDP que ainda não deu estimativa sobre o tempo que esta regularização pode demorar, nem explicou a extensão dos danos.
O presidente da câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, apelou à população para não circular na via pública e admitiu que a reposição da “normalidade” pode demorar vários meses. Já Rui Rocha, secretário de Estado da Proteção Civil, reconhece que a “reposição de condições de acessibilidade” pode “demorar dias”.
O presidente da Câmara de Leiria deixou também um apelo ao Governo para que disponibilize os recursos para ajudar a repor a situação de normalidade na cidade. “É algo indescritível, é um cenário de horror”, disse em declarações à CNN. Luís Montenegro disse, entretanto, que o cenário está a ser avaliado e que não exclui nada, mas também não vai tomar medidas “sem a devida fundamentação”.
Os efeitos da Kristin atingiram numa primeira fase durante a madrugada cerca de um milhão de clientes da E-Redes, a empresa que gere as redes de média e baixa tensão que chegam aos utilizadores finais. Este número representa 17% do todos os consumidores de baixa tensão em Portugal continental e estava espalhado pelos distritos de Guarda, Coimbra, Castelo Branco, Portalegre, Leiria, Santarém e Setúbal.
A rede de muito alta tensão, que foi a origem do apagão de 28 de abril de 2025 (que veio de Espanha) conseguiu ultrapassar o disparo de uma subestação no Zêzere e tem estado operacional desde a manhã, como a explicou a REN (Redes Energéticas Nacionais)
Mas rapidamente se começou a perceber que o foco do problema está em Leiria e nos concelhos próximos e nas redes de alta, média e baixa tensão geridas pela E-Redes cuja extensão e capilaridade é muito maior do que a rede de transporte gerida pela REN. Por isso, é mais difícil de repor o serviço quando existe uma destruição física da infraestrutura — neste caso os muitos postes que foram derrubados pelo vento ou pelas árvores. Ou seja, é necessário restaurar quilómetros de infraestrutura e instalar bypasses que possam acelerar o processo, inclusive recorrendo a geradores para reenergizar a rede. Não será tão rápido como o restabelecimento após o apagão de 28 de Abril porque aí a infraestrutura estava intacta.
É no distrito de Leiria que se concentra grande parte dos 484 mil clientes que não tinham energia ao final do dia, apesar do problema afetar também os distritos de Coimbra, Castelo Branco, Portalegre, e Santarém.
O restabelecimento das redes de alta e média tensão será uma das prioridades da E-Redes que tem uma equipa de mais 1.000 operacionais no terreno cujas intervenções foram dificultadas pelas condições meteorológicas adversas e pelos obstáculos à circulação.
À CNN, Gonçalo Lopes, presidente da câmara de Leiria, disse ainda que o comércio foi muito afetado e que uma das grandes preocupações são os lares em Leiria, muitos dos quais estão sem luz e água.
Num ponto de situação feito ao fim da tarde desta quarta-feira, o autarca de Leiria revelou que “há uma preocupação no fornecimento de água, em virtude de todo o sistema assentar em energia”. Em Leiria, o abastecimento de água é feito pelos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Leiria.
Para tentar colocar o sistema de abastecimento de água a funcionar novamente, Gonçalo Lopes revelou que a autarquia está “já a recolher um conjunto de geradores para colocar o sistema de água em funcionamento”.
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Tal como o Observador testemunhou no local, na manhã desta quarta-feira a cidade estava incomunicável, sem rede móvel e fixa. Também não se conseguia pagar combustível com multibanco nas bombas de gasolina devido à ausência de comunicações.
O Observador contactou as várias operadoras de telecomunicações para perceber mais sobre a situação em Leiria. Até ao momento, não foi possível obter dados concretos sobre o número de clientes sem comunicações neste ponto do país.
Logo durante a manhã, o regulador das comunicações avançou o número de 300 mil clientes afetados por falhas de comunicações em vários pontos do país. Além de Leiria, também foram mencionados constrangimentos em Coimbra, Santarém, Faro, Lisboa, Portalegre, Porto, Setúbal e Viseu. A Meo, Nos, Vodafone e Digi reportaram falhas nas comunicações devido às condições meteorológicas adversas.
Numa declaração enviada ao Observador, a Digi fala em “várias zonas afetadas, com principal incidência nos distritos de Leiria e Santarém”, onde se estão a “verificar perturbações no serviço móvel”.
As operadoras de telecomunicações revelam que têm vários operacionais no terreno para retomar os serviços.
Entre os vários apelos que deixou à população, Gonçalo Lopes pediu um consumo de alimentos “cuidado”. Ao Observador, fonte oficial da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), que representa os retalhistas, garante que o abastecimento à região, apesar de estar dificultado, não está em risco, até porque as pessoas não estão a ir às lojas.
A APED tem estado em contacto com os fornecedores, que asseguram que não há constrangimentos no acesso a bens alimentares. A associação que representa os supermercados tem estado a trabalhar com o Governo para tentar desbloquear questões burocráticas relativas aos transportes e aos limites para assegurar o abastecimento às populações nas zonas mais afetadas. Quanto a fotografias de prateleiras vazias que têm surgido em meios de comunicação locais, os retalhistas garantem que todos os bens estão a ser repostos.
A falta de eletricidade e de comunicações está a afetar os postos de combustíveis. Segundo informação recolhida pelo Observador, há vários postos encerrados na região de Leiria, mas essa situação não está a ter grande impacto porque há poucas pessoas a circular e quem quiser abastecer só precisa procurar uma alternativa fora da zona sem energia elétrica.
Por outro lado, eventuais necessidades de fornecimento de gasóleo ou outro combustível para ser usado em geradores não passam por bombas de gasolina, mas sobretudo por camiões cisterna que podem vir de outras áreas do país.
A tempestade danificou o terminal rodoviário de Leiria, de onde partem e chegam os autocarros da FlixBus e da Rede Expressos. Em imagens de drone transmitidas pela SIC Notícias, eram visíveis os danos na cobertura do terminal.
Num ponto de situação feito às 17 horas, a FlixBus confirma constrangimentos nas operações, que “ocorreram sobretudo no acesso a alguns terminais rodoviários, como é o caso de Leiria, o que provocou atrasos e cancelamentos” em algumas das ligações. Fonte oficial também menciona “atrasos significativos em algumas ligações” devido ao facto de haver estradas cortadas.
Foram registados “cerca de dez cancelamentos na rede doméstica da FlixBus, “sobretudo nas ligações à região de Leiria”. A empresa explica que estes cancelamentos estão ligados aos danos registados em autocarros durante a noite, “causados pela queda de árvores e outros objetos associados à tempestade”. A empresa esclarece que estas viaturas estavam estacionadas nas zonas de Leiria e Pombal, não tendo sido possível substituí-las a tempo de iniciarem o serviço.
Com o terminal rodoviário de Leiria inacessível, “a FlixBus mantém as ligações à cidade, efetuando a tomada e largada de passageiros no exterior do terminal”. A empresa refere que os passageiros “estão a ser devidamente informados sobre eventuais atrasos e cancelamentos, através dos canais habituais da empresa”.
A empresa refere ainda que tem um departamento de controlo de tráfego que “supervisiona a operação em tempo real e mantém contacto permanente com as autoridades, de modo a adaptar a operação às condições meteorológicas e rodoviárias existentes e a garantir a segurança de todos os motoristas e dos passageiros”.
Contactada pelo Observador, a Rede Expressos indica que os serviços para Leiria estão a funcionar regularmente desde as 11h00, depois ter havido algumas supressões até essa hora. A informação é avançada por fonte oficial do grupo Barraqueiro, que opera a rede de autocarros de longo curso.
Os tempos de viagem estarão a ser mais longos do que os indicados nos horários, devido a restrições em algumas vias rodoviárias. A mesma fonte indica que a entrada e saída de passageiros na cidade de Leiria está a ser feita no exterior e não dentro do terminal, devido aos danos na estrutura.
Pela hora de almoço, a Associação Portuguesa de Seguradores (APS) informou, em comunicado oficial, que “as empresas de seguros têm estado a acompanhar e a prestar apoio, desde o primeiro momento, aos clientes afetados pela depressão Kristin, que, na última noite, provocou danos pessoais e materiais avultados em várias regiões do país”.
“Em resposta às ocorrências registadas, as equipas das empresas de seguros estão já no terreno a avaliar os prejuízos e a ajudar os clientes afetados a recuperar rapidamente a normalidade das suas vidas, tendo desencadeado os procedimentos habitualmente adotados nestas situações”, afirmou a APS, no mesmo comunicado, acrescentando que a associação estava a “recolher informação junto das empresas do setor e, tão breve quanto possível, divulgará dados consolidados sobre o impacto da depressão Kristin relativamente aos danos cobertos por seguro”.
A APS, na senda do que tem sido afirmado em outras situações de catástrofes naturais de grande dimensão, “volta a insistir na necessidade de se encarar a problemática dos eventos extremos da natureza e dos riscos catastróficos de forma integrada, e a reiterar a disponibilidade do setor segurador para ser parte de uma solução abrangente que permita assegurar maior proteção aos cidadãos e empresas afetadas por estas catástrofes”.
Contactados pelo Observador, os principais bancos a operar em Portugal garantem que, exceto “alguns problemas nas comunicações”, as sucursais que ficam nas zonas mais afetadas pela intempérie puderam trabalhar de forma “praticamente normal, regra geral” ao longo do dia, embora tenha havido menos pessoas a deslocarem-se às agências, segundo relatou fonte de um dos principais bancos.
A Caixa Geral de Depósitos, em particular, confirma através de fonte oficial que “a única agência que esteve encerrada, por danos provocados pelo impacto direto da tempestade, foi a agência Marquês de Pombal em Leiria”. Porém, “tivemos várias agências inoperacionais na região por causa de falta de energia elétrica ou falta de comunicações”, acrescenta a mesma fonte oficial, notando que “as agências de Alcobaça e da Nazaré estiveram a funcionar sem problemas”.