Dário Macedo e Grace Fernandes sentiram o vento “como um tornado”, mas a casa que arrendam há quatro anos sofreu menos danos. “O muro voou. Literalmente. E o pula-pula [trampolim] das crianças desapareceu, não sabemos onde foi parar”, assinala Grace.

Atrás da casa, uma árvore caiu e o muro acabou por atingir o carro de uma vizinha. “Foi horrível, horrível. Uma hora e meia de chuva e vento de todos os lados”, conta Grace, acrescentando que os três filhos acordaram assustados e ninguém dormiu até de manhã. Ainda assim, dentro de casa, “não entrou nada”. “Foi mais o medo”, afirma. Para o casal brasileiro, a sensação é de incredulidade, pois nunca tinham visto “nada assim”.

Em Gândara dos Olivais, às portas de Leiria e junto à Estrada Nacional 109, a depressão Kristin causou avultados prejuízos a Carlos Dinis, de 69 anos. Dono de três casas na zona, aponta em todas as direções: “Foi o vento. Varreu tudo. Os muros rebentaram, os portões rebentaram, os telhados estão todos arrombados.”

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Os estragos são “superiores a 50 mil euros” e, dentro de uma das casas, o cenário é caótico. “Olha para isto. Está tudo destruído”, repete ao Observador, abrindo portas e apontando para o tecto esventrado. Acordou às três e meia da manhã, mas nada pôde fazer sem eletricidade. As arcas onde guardava a carne desligaram-se, tudo se estragou e agora, como Edgar, Carlos teme a água. “Se começa a chover, cai tudo cá dentro. Depois tem que se pintar, arranjar… Isto é muito complicado”, explica.

Na mesma localidade, Mário Fernandes, de 51 anos, teve mais sorte. “Partiram-me mais de 12 telhas. O vidro da porta rebentou e a porta vai ter que ser nova”. As telhas que voaram da capela desta povoação bateram na sua casa, mas as várias que guardava em casa valeram-lhe para reparar o telhado: “Se não fosse isso, estava perdido”.

Acordou às seis da manhã mas só com a luz do dia percebeu a verdadeira dimensão dos estragos. Mário tem seguro, mas não sabe o que será coberto. O carro, estacionado na rua, também sofreu danos, mas mais do que os prejuízos, preocupa-o a falta de serviços básicos. “Sem água, sem luz, sem comunicações, como é que se governa?” Tentou comprar gasolina e bens essenciais, mas as bombas e supermercados estavam com o sistema em baixo. “Onde é que se mete combustível?”

Na zona industrial de Leiria, a tempestade Kristin paralisou os negócios. Na Infordia, empresa de informática com 27 anos de atividade, o impacto foi imediato. Luís Toscano, de 51 anos, chegou ao edifício por volta das nove da manhã. “Deparámo-nos com um cenário gigantesco. A cobertura do armazém foi arrancada como se fossem folhas de papel. O portão caiu. Havia uma viatura cá dentro que levou com o portão em cima”, enumera o funcionário.

Os alertas meteorológicos não faziam prever aquela dimensão. “Tenho 51 anos e nunca assisti a uma situação destas. Não era minimamente expectável.” Ao longo do dia, uma equipa de 12 pessoas fez o levantamento dos danos, porque “as autoridades não têm capacidade para responder a tantas ocorrências”.

“Estamos a falar de muitas dezenas, se calhar centenas de milhares de euros” devido aos “vidros partidos, infraestruturas danificadas, calhas e estruturas alteradas”, ressalva. “Não é algo estético. É estrutural. Não é chegar aqui e montar um portão.”

Com uma dúzia de trabalhadores, a empresa está praticamente parada. Sem eletricidade, sem internet e sem telhado, não há como trabalhar nem ajudar clientes. A paragem da Infordia reflete um problema em cadeia: a empresa presta serviços maioritariamente a clientes da região de Leiria, precisamente os mais afetados. “O nosso trabalho é dar apoio às empresas que agora vão precisar ainda mais dos nossos serviços”, frisa Luís. Sem energia e sem rede, nem sequer o apoio remoto é possível. “Vai ter de ser tudo presencial. Mas, para isso, temos primeiro de nos pôr de pé.”

A recuperação será lenta. “Isto não vai ser resolvido em dois ou três dias. Nem em semanas” porque “as empresas de reconstrução vão estar todas sobrecarregadas e toda a gente vai dizer que o seu problema é mais urgente”. A Kristin atingiu a Infordia precisamente um ano depois de terem mudado de armazém. “Foi um bom presente de aniversário”, suspira Luís, com os olhos marejados.