André Ventura bem pode continuar a reclamar para a sua candidatura à Presidência da República o imperativo de “devolver os valores cristãos à sociedade portuguesa”, mas o certo é que, já depois de um grupo de católicos ter apelado ao voto em António José Seguro, entre críticas ao uso da fé como “um adereço de campanha”, a Comissão Nacional de Justiça e Paz (CNJP) da Conferência Episcopal Portuguesa emitiu uma nota a alertar “para os riscos da instrumentalização dos valores cristãos para fins políticos”.

“Tem-se assistido, nos últimos tempos, à colagem de partidos e movimentos aos valores das comunidades cristãs, através do aproveitamento de causas como a defesa do direito à vida intra-uterina ou da defesa da exposição do presépio em espaços públicos, promovendo simultaneamente a discriminação e discursos de ódio”, começa por ler-se na nota divulgada nesta quarta-feira.

Mais à frente, e depois de considerar que tal estratégia “visa captar eleitores que priorizam esses temas e que, por essa razão, tendem a relativizar posições políticas, mesmo quando estas contradigam as verdades do Evangelho”, o organismo católico apela a que os fiéis tomem “consciência do seu importante papel numa denúncia corajosa e num afastamento claro de tudo aquilo que perverte o valor fundamental de amor ao próximo” e lembra que a política “não deve promover ódio nem divisão”.

“É imperioso manter espírito crítico e rejeitar políticas que destruam os laços sociais e geram injustiças”, apela ainda o organismo presidido por Pedro Vaz Patto, numa alusão ao posicionamento do Chega face aos imigrantes, nomeadamente quando lhes imputa uma responsabilidade por um aumento da criminalidade que as estatísticas dos órgãos policiais não confirmam.

A CNJP, que é um organismo constituído por leigos que tem por missão a divulgação da doutrina social da Igreja Católica, exorta assim a “um compromisso sério e empenhado com os valores democráticos, a defesa intransigente dos direitos humanos, a protecção dos mais pobres, a coesão social, a cooperação entre povos e políticas orientadas para o desenvolvimento integral de todos”.

Nesta quarta-feira, um grupo de católicos lançou um manifesto de apoio a António José Seguro nas eleições do dia 7 de Fevereiro, que qualificam como sendo o candidato que melhor responde aos valores cristãos da paz, e por entenderem que “ver um candidato sair de uma igreja não prova, por si só, fidelidade ao Evangelho”, como se lê no manifesto, numa clara alusão a André Ventura, que tem por hábito publicitar as suas idas à missa.