A rajada máxima associada à depressão Kristin foi registada às 5.40 horas de quarta-feira na Estação Meteorológica da Comunidade Intermunicipal da região Coimbra (CIM), situada no Parque Eólico das Degracias, disse à Lusa uma fonte oficial da CIM.
Contactada pela Lusa, uma fonte do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) afirmou que esta situação está reportada no seu site, mas sublinhou que os dados ainda carecem de validação oficial.
“Trata-se de uma estação da Comunidade Intermunicipal de Coimbra, integrada na nossa rede”, mas, explicou, nem sempre as estações operam exatamente com os mesmos parâmetros e, para efeitos de comparação, é necessário garantir que as condições são equivalentes.
A mesma fonte admitiu que a rajada registada em Soure poderá ter sido a mais forte até ao momento, mas ressalvou que poderão existir outras, eventualmente ainda mais intensas.
Observou também que a estação se encontra a 524 metros de altitude, um fator que impacta “muito em termos de vento”.
Exemplificou que uma estação localizada a esta altitude pode registar rajadas nesta ordem, enquanto outra localizada a uma cota inferior, próxima de uma zona habitada, pode registar valores mais baixos, mas ter um impacto muito maior na vida das pessoas.
Génese da tempestade Kristin
Até ao momento, a rajada mais forte validada pelo IPMA foi de 149 km/hora no Cabo Carvoeiro, Peniche, às 4 horas de quarta-feira, no entanto a base aérea de Monte Real registou uma rajada de vento com 176 quilómetros por hora pelas 5 horas e com 178 quilómetros por hora pouco tempo depois.
Na lista do IPMA seguem-se rajadas registadas em Ansião, no distrito de Leiria, (146 km/h, às 5.30 horas), Leiria/aeródromo (142 km/h, às 5 horas), Castelo Branco (137 km/h, às 6.20 horas), Fóia, na Serra de Monchique, (135 km/h, às 6.40 horas).
Em Vale Donas, em Tomar, foi registada uma rajada de vento de 133 km/h, às 5.30 horas, no Cabo da Roca, 131 km/h, às 3 horas, Santa Cruz, em Torres Vedras, 128,9 e Cavalos de Caldeirão, em Loulé, 120,2 km/hora, segundo dados publicados no site do IPMA consultados pela Lusa.
Em comunicado, o IPMA explicou a génese da tempestade Kristin, cujo principal impacto resultou da intensidade do vento.
“Um núcleo depressionário que se formou e desenvolveu no bordo sul da tempestade Joseph, sofreu um processo de ciclogénese explosiva a oeste da costa ocidental portuguesa (com rápida e significativa diminuição de pressão atmosférica no seu centro)”, no período compreendido entre as 21 horas de terça-feira e as 3 horas quarta-feira.
Este núcleo foi nomeado pelo IPMA como tempestade Kristin.
Segundo o instituto, “esta tempestade sofreu intrusão de ar estratosférico, bastante seco, que ao entrar na sua circulação condicionou e determinou as suas características, que foram as de uma tempestade de vento”.
“As correntes de ar seco vão evaporando e sublimando hidrometeoros (água e gelo), presentes na massa nebulosa, o que contribui para que se tornem progressivamente mais frias, densas e, consequentemente, acelerem à medida que vão descendo”, explica.
“Em alguns casos, como no presente, essas correntes de ar podem alcançar a superfície junto à extremidade sul da massa nebulosa, onde produzem episódios de vento muito forte, em geral durante poucas dezenas de minutos, mas, frequentemente, bastante destrutivos”, sublinha.
O IPMA acrescenta que o padrão observado por satélite e radar meteorológico está historicamente associado a este tipo de correntes, designadas pela comunidade científica como correntes de jato do tipo “Sting” (do inglês, “ferrão”), fenómeno claramente identificado neste caso.
“Em geral, a área onde o vento mais forte ocorre corresponde a um corredor relativamente estreito à superfície, da ordem de poucas dezenas de quilómetros”, explica.
A passagem da depressão Kristin deixou um rasto de destruição, causando pelo menos seis mortos, vários feridos e desalojados.