A Rússia estará a transformar militares das suas Forças de Mísseis Estratégicos, Forças Aeroespaciais e da Marinha em unidades de infantaria terrestre para combate na Ucrânia, numa prática que poderá refletir uma grave escassez de reservas operacionais. A avaliação é de Viktor Kevliuk, especialista militar do Centro de Estratégias de Defesa, numa análise publicada na publicação ‘EuroMaidan Press’.

Kevliuk sustenta que esta conversão representa uma intensificação de um padrão já observado anteriormente, quando Moscovo começou a deslocar pessoal das Forças de Mísseis Estratégicos — responsáveis pela dissuasão nuclear terrestre — para funções de infantaria. A novidade, de acordo com o analista, reside no alargamento desta prática a militares da Marinha russa.

Na sua análise, Kevliuk identifica três regimentos consolidados de fuzileiros motorizados atualmente a operar em território ucraniano. Um deles será composto por militares das Forças de Mísseis Estratégicos integrados no grupo de forças Norte, na região russa de Kursk, com um batalhão também avistado perto de Vovchansk, na região ucraniana de Kharkiv. Outro envolverá militares das Forças Aeroespaciais russas, igualmente integrados no grupo Norte, a operar na região de Sumy. O terceiro caso diz respeito a membros da Frota do Báltico, integrados no grupo central perto de Kostiantynivka, na região de Donetsk.

Kevliuk admite que outras frotas russas possam ter seguido o mesmo caminho, embora apenas o batalhão da Frota do Báltico esteja explicitamente identificado. “Estão a recolher tudo o que ainda está vivo. Estas formações estranhas surgem quando há uma escassez grave de reservas operacionais”, escreveu o analista.

A análise assenta em precedentes já documentados. No final de 2024, meios como o ‘Militarnyi’ noticiaram o destacamento de militares das Forças de Mísseis Estratégicos e das Forças Aeroespaciais para funções de infantaria. Em setembro do mesmo ano, a Rússia formou um batalhão mecanizado conhecido como “Fragatas”, composto por membros da tripulação do ‘Almirante Kuznetsov’, o único porta-aviões russo, que acabou por ser enviado para a fronteira de Kharkiv e, posteriormente, para a frente de Pokrovsk.

Outros relatórios, nomeadamente do Instituto para o Estudo da Guerra, documentaram a presença de brigadas de infantaria naval — unidades profissionais de fuzileiros navais — perto de Kostiantynivka, incluindo a 155ª e a 40ª brigadas da Frota do Pacífico e a 336ª da Frota do Báltico. No entanto, estas unidades distinguem-se dos marinheiros reconvertidos em infantaria referidos por Kevliuk.

O desmantelamento progressivo das frotas russas para reforçar o combate terrestre tem antecedentes marcantes. A 155ª Brigada de Fuzileiros Navais da Frota do Pacífico foi quase destruída em Vuhledar, em fevereiro de 2023, com relatos internos a apontarem para a perda de cerca de 300 militares em apenas quatro dias. Pouco depois, o almirante Sergey Avakyants, então comandante da Frota do Pacífico, foi afastado do cargo após uma inspeção surpresa e transferido para funções de formação militar juvenil, numa decisão amplamente interpretada como uma despromoção. O seu sucessor, Viktor Liina, vindo da Frota do Báltico, terá mantido o processo de transferência de tropas para a frente terrestre, segundo o próprio Kevliuk.

O analista refere ainda relatos não confirmados de que o 20º Exército russo poderá estar a reorganizar os seus batalhões, eliminando pelotões independentes para concentrar forças de infantaria. Kevliuk sublinha, no entanto, que esta informação carece de confirmação. “Ainda não está totalmente claro se isto é uma farsa ou a realidade do exército russo, mas é uma ideia interessante”, concluiu.